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"Acredito que verei milagres no que toca à evolução do papel da mulher na Igreja"

Edição de 2 de novembro de 2018
 

Entrevista com Armando Esteves Domingues

Programa completo


04-11-2018
 

D. Armando Esteves Domingues deixará de ser padre na região de Viseu para abraçar a diocese do Porto enquanto bispo auxiliar. A ordenação está marcada para o dia 16 de dezembro na catedral de Viseu. Numa entrevista longa, fala-nos do seu percurso, do Papa Francisco e de uma Igreja que está a repensar o papel da mulher.

Esta é uma mudança assinalável. Como é que recebeu a notícia?

Primeiro, senti um choque porque não contava e, falando humanamente, não queria. Quase estranhava como é que Deus me chamou para isto. Sempre gostei do que fiz. Gosto de trabalhar com pessoas e faço-o com alma. Portanto, estava bem. Mas não era capaz de dizer não. Decidi um dia que a minha vida não era para mim, por isso decidi ser padre, entregando-me a Deus ao serviço dos irmãos. Passou a ser uma afirmação de fé neste Deus que me ama até aos meus limites, como procuro amá-lo mas de uma forma infinita. Este chamamento supera-me. Uma vez alguém, que estava gravemente doente, afixou numa parede esta frase “a vontade de Deus não te leva onde a sua graça não te acompanha”. E é isto mesmo que eu sinto, Deus há-de acompanhar-me porque me conhece totalmente.

O padre Armando deixou uma marca por onde passou. O que é que faz parte da sua personalidade e que vai levar para a diocese do Porto?

É aqui que me dá um nó na garganta. Eu sinto que não tenho nada para dar às pessoas, tenho de caminhar com os meus irmãos que são iguais a mim, pelo batismo. O Papa Francisco diz isto mesmo. Levo para o Porto a vontade de amar as pessoas. Eu costumo dizer na minha paróquia atual (Viso) que nós podemos ter muito trabalho mas que, se uma só pessoa, lucrar com o nosso amor, já ganhámos a batalha. Eu nunca tinha feito um currículo e tive de o fazer agora. E dei conta que passei por tantas experiências fantásticas porque todos caminhámos juntos.

Foi o Papa Francisco quem o nomeou. Francisco é a figura certa no tempo certo?

Não tenho dúvida nenhuma. Se me perguntar pelos outros papas, foram todos fantásticos. É a pessoa que me diz “olha, rapaz, se não sabes teologia, vive o evangelho” ou “se não és um nenhum estudioso, ama”. A simplicidade, a humildade, ser capaz de se descalçar diante dos irmãos... Basta isto para mudar a perspetiva da Igreja. Eu gosto tanto de dizer que a Igreja é povo, fraternidade e construtor de paz. O Papa Francisco mudou a forma como eu prego o evangelho e o tento viver. Está a ajudar-me muito a ver e a amar esta Igreja.

Mas o Papa está a ser questionado. Há quem pense que está a dar demasiados passos à frente. Qual é a sua opinião?

Estou com o Papa desde o primeiro dia e amo quem pensa de forma diferente de mim. Em todos nós há uma parcela de verdade. Se me pergunta de que lado estou, digo-lhe que estou do lado do amor. Toda a crítica, sendo leal, positiva, faz avançar a Igreja. Temos de aceitar a diversidade e integrá-la. A Igreja não se faz aos saltos.

Um dos alertas mais recentes de Francisco tem que ver com o populismo. Como é que se pode evitar o avanço do populismo se ele se faz em nome de um Deus qualquer?

O populismo é a ausência de ideais e do pensamento. As pessoas têm de aprender a ref letir porque a liberdade se perde facilmente. O populismo combate-se na conquista de liberdade, tendo interiormente razões para viver e para lutar. Se eu não sou livre, vendo-me a qualquer populismo.

Uma das questões tem que ver com a ordenação de mulheres. A Igreja vai avançar nesse sentido?

É evidente que a Igreja teve dificuldade em reconhecer que a mulher tinha um importante papel a desempenhar. A mulher pode e deve fazer parte do governo da Igreja porque nos ajuda a perceber que a Igreja deve ser casa para todos. Se um dia vai chegar ao sacerdócio, dir-lhe-ia que estamos no bom caminho, no diálogo e na reflexão. Acredito que verei milagres no que toca à evolução do papel da mulher na Igreja.





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