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"Exportações devem representar entre 60 a 70 por cento do PIB nacional", diz Mira Amaral

Edição de 5 de julho de 2019
05-07-2019
 

O antigo ministro da Energia, Luís Mira Amaral, esteve em S. Pedro do Sul no encontro que reuniu empresários e responsáveis pelas câmaras de comércio da França, Alemanha e Reino Unido. A quem tem a internacionalização no horizonte, o ex-governante e atualmente consultor deixou conselhos: estudar os mercados e ter noção da capacidade financeira. Sobre a atualidade, o engenheiro diz que para equilibrar o território nacional não é precisa a regionalização.

Tem deixado o alerta de que Portugal tem de fazer um esforço para aumentar as exportações. De que forma as pequenas e médias empresas se devem preparar para este desafio?

Estamos novamente a ter déficit externo nas nossas transações com o exterior. As nossas pequenas e médias empresas têm de fazer um trabalho de preparação prévia, têm de conhecer o mercado para os quais pensam exportar. Para isso, tem de lá ir, conhecer in loco os mercados, terem reuniões com os possíveis parceiros de negócios. Depois, têm de ver, também , se têm capacidade financeira para isso. Lembro que há programas comunitários que ajudam nesta matéria, sistemas de incentivos à ação coletiva de internacionalização que podem ajudar as empresas a irem divulgar-se para tentarem entrar nesses mercados. Mas, de facto, as pequenas e médias empresas têm, acima de tudo, de conhecer o mercado e ver se têm condições financeiras produtivas e logísticas porque a exportação não pode ser um processo de uma venda pontual. A ideia é a partir do momento que entram têm de estar em permanência a vender e aumentar essas mesmas vendas. A boa notícia é que, apesar de haver alguns problemas no crescimento económico mundial e a França, Reino Unido e Alemanha (três dos países que estão no topo das exportações) estarem a crescer pouco é que a nossa cota de exportações é tão pequena que basta ter um acréscimo de competitividade para conseguir exportar mais.

Isso agora é possível porque a economia portuguesa está mais equilibrada?

A nossa economia tem tido um esforço notável de exportação. Lembro que depois do programa de ajustamento e graças ao mérito dos empresários portugueses passámos de 27 por cento de exportações no PIB para, atualmente, cerca de 44 por cento. Isto deve-se ao mérito dos empresários e também porque alargamos a base exportadora. É de referir que a dimensão média das empresas que exportam é menor do que aquela que existia antes do programa da troika. Isto significa que antes do programa de ajustamento eram, essencialmente, as grandes empresas que exportavam e agora passaram a exportar empresas de menor dimensão. Isto é um bom sinal no sentido de que há mais empresas a exportar.

Ainda assim não é suficiente...

Não, claro que não. Basta o consumo doméstico tomar uma expressão mais forte, o investimento desacelerar e as exportações não acompanharem e nós começamos a ter déficits com o exterior e atenção que já está a acontecer neste momento. O resultado que obtivemos até agora é bom mas países da nossa dimensão devem ter uma exportação em percentagem do PIB entre 60 a 70 por cento. Estamos longe daquilo que outros países da nossa dimensão já conseguem fazer.

Quer nos discursos políticos quer em especialistas em economia, fala-se muito das desigualdades territoriais em Portugal. Há zonas que, economicamente, avançam de forma desequilibrada?

Não gosto da expressão Litoral/Interior. É uma expressão do passado que hoje não tem sentido por duas razões. Hoje temos um sistema de comunicações entre o antigo Litoral e o antigo Interior totalmente diferente do que era há 30 anos. Por outro lado, o Interior até está mais perto do mercado europeu, espanhol, que o antigo Litoral. Eu gosto mais das designações territórios de baixa e alta densidade. Eu acho que para os territórios de baixa densidade tem de haver alguma discriminação positiva feita através de incentivos fiscais...

Os que há e os que foram anunciados não são suficientes?

Eu acho que não. Houve uma excelente iniciativa de várias personalidades, entre elas os ex-ministros Miguel Cadilhe ou Jorge Coelho (encabeçaram o Movimento pelo Interior) para fazer um programa mais intenso àquilo que eles chamaram de Interior, mas o governo foi muito timorato na resposta a esse programa e, por isso, acho que aquilo que existe não é suficiente. E há outra coisa que já se verificou é que as autoestradas são de via dupla e a gente chega mais facilmente a estes territórios mas também mais facilmente as pessoas saem deles para territórios com mais densidade populacional.

O governo deveria ter tido a coragem de ir mais longe na discriminação positiva para estes territórios de baixa densidade?

Eu acho que sim. As empresas que vão ou estão nestas zonas do país deveriam beneficiar de maior isenção e incentivos fiscais mais fortes.

A regionalização pode ser um processo para esbater os desequilíbrios territoriais?

A regionalização é um disparate neste país. Concordo perfeitamente que o país tem de ser descentralizado e desconcentrado. Têm de ser reforçados os poderes para as câmaras municipais que é não só reforçar o poder é também dar o dinheiro e reforçar as competências. As câmaras municipais é que são a tradição em Portugal. Nós somos um pequeno país e não acredito num novo nível intermédio e na criação de uma nova classe regional, seria um sarilho por completo. Acredito numa forte desconcentração apoiada nas câmaras.





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