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Filme sobre Viriato rodado em terras de Lafões

Edição de 29 de março de 2019
29-03-2019
 

Luís Albuquerque é realizador da longa metragem “Viriato” que pretende trazer de novo a discussão sobre o herói mítico lusitano. O produtor cultural fala do estado atual do cinema português e acrescenta que ver um filme é viver uma emoção.

Antes de começar a realizar o filme, que ideia tinha da figura de Viriato?

Na escola primária encantei-me com a história de Viriato, foi sempre um herói para mim. Estamos a perder uma identidade que é extraordinariamente importante e mais do que um filme este é um documento importante para a nossa cultura. O filme aparece desde sempre e é a sexta longa metragem que produzo e realizo. Achei que depois de alguns dramas e algumas comédias e achei que me faltava fazer um filme à época.

A figura de Viriato é muito discutida. Há quem ache que foi um mito, outros referem que existiu mas que se exagera muito quando nos referimos a ele e, finalmente, acham que Viriato foi efetivamente um herói. Onde é que o Luís se encaixa?

Respondo-lhe com uma pergunta. “O que acha de Jesus Cristo?” É precisamente a mesma coisa. Não há ninguém, hoje em dia, capaz de comprovar que Jesus Cristo existiu. E passa-se o mesmo com Viriato. Se falamos sobre Cristo porque há escritos, vestígios, muitos elementos que nos indicam que existiu, com Viriato é a mesma coisa. Há algo que nos leva a acreditar que existiu.

Um filme vive de verdade histórica mas também muito de ficção. “Viriato” está mais voltado para qual dos lados?

Como realizador não posso abdicar da ficção e alimentei o filme com uma história de amor. Mas com o historiador Mário da Costa e com alguns assessores da vereação da cultura de Viseu documentei-me para a parte histórica. Também tinha algumas ideias e, com todos estes elementos, autentiquei o filme.

Quando se fala de filmes costuma-se ouvir que há dois tipos de cinema: o de autor e o comercial. Onde se revê mais?

Cinema, para mim, é só um: não há cinema comercial ou de autor. E falo como espectador. Eu acredito que posso fazer cinema que leva à essência do que eu defendo: o cinema é uma emoção. Quando compramos um bilhete, estamos a comprar uma emoção. O cinema de autor pode ser cinema comercial.

Fazer um filme de época requer cuidados com o elenco?

O casting é dos elementos mais importantes que temos num filme. Há duas formas de casting, há um que tem um plafond elevado e que permite uma escolha mais variada. No meu caso, posso dizer que encontrei o melhor ator português da atualidade, que é o protagonista do filme. Não tenho dúvidas de que “Viriato” terá sucesso muito pelo trabalho do Alexandre Oliveira.

Como é que vê o cinema português, atualmente?

No primeiro semestre de 2018, comparativamente com o mesmo período de 2017, houve menos um milhão e 600 mil pessoas nas salas de cinema a ver filmes portugueses, segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). O cinema português está pior e é preciso encontrar responsáveis. É preciso responsabilizar quem oferece dinheiro sem qualquer tipo de retorno. É muito por aqui que se explica o atual estado do cinema português.

O Luís jogou basquetebol. O que é que a passagem pelo desporto lhe trouxe?

Deu-me disciplina, responsabilidade e trouxe-me algo que é muito difícil de encontrar nos dias de hoje: quando se procura apoios, pelo menos, haver uma resposta.

É autor do filme “Dom”. É preciso ter um dom para se realizar filmes ou o segredo é mesmo o trabalho?

Como em tudo na vida é preciso ter sensibilidade. Eu quando vejo um filme, e faço-o desde os meus cinco anos, procuro um pouco de tudo. Temos de acreditar essencialmente no que queremos projetar e há elementos, como a música, que transparecem a minha sensibilidade enquanto realizador.

O financiamento do filme

Esta entrevista foi gravada na segunda-feira (25 de março) e, nessa altura, Luís Albuquerque confirmou ao Jornal do Centro que contactou a autarquia viseense em outubro passado e que lhe foi assegurado um apoio financeiro que rondava os 37 mil euros. Mais tarde, garante o realizador, Jorge Sobrado, vereador da Cultura, pediu que esse valor fosse reduzido para 20 mil euros, considerando uma verba justa para um filme como este. O autor do filme “Viriato” lamentou que, depois desta reunião, não lhe foi dada uma resposta efetiva e assegura ter tentado diversas vezes entrar em contacto com o departamento da Cultura da Câmara de Viseu.

Luís Albuquerque reforça que, além disto, lhe foi desmarcada uma reunião e que se sentia lesado porque nunca lhe chegou nem o financiamento, nem uma resposta definitiva. O produtor cultural acrescenta que, com esta postura, que considerou “lastimável”, a autarquia viseense promove uma “cultura das tasquinhas”.

O Jornal do Centro procurou esclarecimentos junto do vereador da Cultura. Jorge Sobrado encaminhou a resposta para o município que disse que o filme foi rodado fora do concelho de Viseu e que se trata de uma película que viu o financiamento recusado pelo Instituto de Apoio ao Cinema e Audiovisual (ICA) e que “não terá tido o financiamento de qualquer outro município”.

Acrescenta a fonte oficial que este pedido chegou fora do concurso “Viseu Cultura” e que o orçamento cultural “não é elástico e é gerido com rigor e exigência, não sendo assumidos compromissos que não possam ser honrados”.

O município de Viseu assegura ainda que o filme tem “algumas imprecisões históricas” e que garante todo o apoio logístico e técnico quando for gravada a cena do filme no concelho viseense.

Luís Albuquerque, entretanto, referiu que esta quarta-feira (dia 27), dia em que o Jornal do Centro tentou entrar em contacto com Jorge Sobrado, este lhe terá ligado “perfeitamente irritado” por ter sido abordado por jornalistas para responder a uma questão sobre o financiamento do filme. Jorge Sobrado terá referido ao realizador, segundo o próprio, que não admitia que, através de “chantagens ou ameaças”, prevalecesse o apoio ao projeto.





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