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"Há condições para se realizarem mais eventos no centro da cidade de Viseu"

Edição de 29 de março de 2019
30-03-2019
 

Gualter Mirandez foi reeleito presidente da Associação Comercial do Distrito de Viseu (ACDV). À frente da instituição desde 2004, defende que a aposta deve passar por políticas que criem condições para levar pessoas para o centro da cidade.

Na tomada de posse do novo mandato lamentava que nem sempre fosse possível cumprir os objetivos. O que ficou por cumprir?

Neste último mandato, e nos anteriores já cumpridos, tinha um grande objetivo que era o centro comercial a céu aberto. Durante um ano trabalhámos nele, mas por várias questões não foi possível concretizar conforme tinha e tenho desejo. Creio que neste mandato, a direção da Associação e eu, iremos tentar, mais uma vez, o lançamento deste grande projeto.

Mas o que é que falhou?

Os comerciantes daquelas zonas não interiorizaram bem aquilo que era um centro comercial a céu aberto. Depois de um ano de experiência, não conseguimos que eles [os comerciantes] continuassem no projeto. Creio que é uma ideia que tem de ser mais amadurecida e mais trabalhada com eles mas é uma ideia que quero, novamente, pôr em prática.

Dizia também que a Associação fazia o máximo com os recursos que tem. São poucos os recursos? E o que fazem com eles?

Os recursos são sempre poucos para as associações. Eu, enquanto vice-presidente da Confederação do Comércio, conheço bem a realidade do associativismo em Portugal. Estamos a perder cada vez mais sócios. Há meia dúzia de anos teríamos à volta de 1400, 1500 sócios. Neste momento temos uma quebra na ordem dos 50 por cento, o que em termos de orçamento da Associação é complicado. As despesas que temos, diariamente, são as mesmas e as receitas baixaram muito, o que quer dizer que esta falta de verba tem de refletir-se em algum lado. Nós não temos apoio de ninguém em termos monetários, temos de gerir a Associação com as verbas que conseguimos ter.

Essa quebra do número de associados deve-se a quê?

É cultural. Todas as associações se queixam do mesmo. Os sócios atrasam-se imenso a pagar as quotas. E não é só na Associação Comercial, é em qualquer tipo de associação. Estamos a falar de quotas que não chegam a 20 cêntimos por dia, seis euros por mês e que, mesmo assim, o comerciante e/ou empresário tem alguma relutância em pagar, quando para fazer o uso desta verba anual, como temos serviços jurídicos gratuitos, e apoio médio também gratuito, basta uma consulta ou um apoio jurídico e a quota anual fica paga.

Que vantagens têm os comerciantes em serem sócios da ACDV?

Além do apoio jurídico e médico, temos protocolos com várias instituições e empresas que dão benefícios aos nossos sócios. Fazemos formação profissional dirigida às nossas empresas, temos toda a legislação atempadamente disponível, o que facilita o atendimento personalizado a cada um deles. Creio que são motivos mais do que suficientes para se ser sócio da Associação Comercial.

No discurso desvendou, ainda, algumas preocupações como a lei do arrendamento comercial, o preço da energia e a dinamização do Centro Histórico...

Todas têm contextos diferentes. O Centro Histórico tem problemas graves que a autarquia e a Associação tentam suavizar e ajudar os empresários a ultrapassar. Em relação à lei do arrendamento comercial, complica e atrasa imenso a vida dos empresários porque caso não cheguem a um entendimento com os senhorios, passados cinco anos podem ter que sair. E não há nenhum negócio que em cinco anos seja rentável. No que toca ao preço da energia, está a ser muito comprometedor para as empresas que mais energia consomem. Uma pequena padaria ou pastelaria de bairro gasta mais de 2000 euros por mês, o que é muito difícil de suportar. Por isso, iniciando-se o novo ciclo eleitoral, sendo uma altura em que os partidos políticos nos procuram, vamos aproveitar para discutir estas situações.

Acha que os comerciantes podiam ter uma benesse no que diz respeito ao preço da energia?

Têm todo o direito de o ter. Ainda há pouco tempo tivemos também um problema grave com o IVA da restauração que estava a 23 por cento e que, agora, baixou. O que permitiu que muitas empresas, micro e pequenas do setor da restauração e bares, conseguissem sobreviver o que, consequentemente, gerou postos de trabalho. Está na altura do preço da energia ser revisto para o setor do comércio.

E no que diz respeito aos objetivos para o próximo mandato?

O objetivo que quero voltar a tentar que seja uma realidade em Viseu é o centro comercial a céu aberto. E há um objetivo muito importante para a Associação: a estabilidade, o que não é fácil atendendo aos constrangimentos que já referi. Um dos lemas do meu próximo mandato é esse mesmo: estabilidade.

Há cerca de um ano dizia que estavam a ser dados passos para, a médio prazo, termos novamente as ruas com pessoas. Perguntava-lhe que passos foram esses e se já há, realmente, mais movimento no centro histórico?

Há. E nesse aspeto o município de Viseu tem trabalhado e bem. Tem criado políticas e dinâmicas no sentido de conseguirmos trazer mais pessoas para o centro da cidade. Estamos a falar de serviços públicos que estão a ser transferidos, de novas empresas com outras dinâmicas que estão a instalar-se aqui, da deslocação da Escola Mariana Seixas para a Rua Direita. Há um conjunto de iniciativas que está a ser levado a efeito. Ainda não é, nem de perto nem de longe, aquilo que todos gostaríamos que fosse, mas ‘Roma e Pavia não se fizeram num dia’, vamos passo a passo e, acima de tudo, que sejam passos cimentados e concretos. Não queremos efémeros. Queremos coisas que tenham condições para puderem evoluir.

O cenário que se vivia há um ano, das lojas que abriam e passado pouco tempo encerravam, ainda se mantém?

Sim, ainda há muita loja a abrir e a fechar, com muito pouco tempo de vida. Mas creio que isso aconteçe, praticamente, em todo o lado. Os empresários quando se instalam têm de ter um know-how das empresas que estão a abrir, têm que ter, hoje, muito mais conhecimento do que aquilo que seria necessário há 20 anos, tem de haver um estudo de mercado muito aprofundado e aconselhamo-los a dar passos acautelados para não serem confrontados com problemas maiores mais à frente.

Há pouco falava no investimento público e mencionou o trabalho desenvolvido pela autarquia na dinamização do Centro Histórico. Que mais investimentos estão pensados para esta zona?

A transferência da loja do cidadão para o centro da cidade é muito importante, assim como o serviço de águas de Viseu que será transferido para a Rua do Comércio. Estamos a falar de um serviço com mais de 100 funcionários, o que induz ao fluxo de pessoas. Na Rua João Mendes, a criação de uma nova unidade de saúde vai contribuir, também, e muito, para isso.

Considera então que estas medidas, aos poucos, vão levar pessoas para o Centro Histórico da cidade?

Não é possível qualquer centro de uma cidade ter vida própria, se não tiver pessoas. Do lado do habitacional estamos muito mal. No centro da cidade, como é o caso da Rua do Comércio, da Rua Formosa, Alexandre Lobo, na Rua Direita, quase não vivem pessoas. O que leva a que a partir das seis da tarde não haja movimento. Começam a haver casais jovens a procurar o Centro Histórico, o que para nós é extremamente importante. Mas, tal como já referi, ‘Roma e Pavia não se faziam num dia’, acima de tudo que sejam dados passos concretos. A relação à vivência entre os moradores e a atividade noturna do Centro Histórico, está mais diluída? Há um ano havia muitas queixas, por parte dos moradores, em relação ao barulho...
Creio que sim. O primeiro impacto foi extremamente negativo. O barulho produzido pelos bares do Centro Histórico era complicado para se viver. Não era o barulho produzido dentro do bar, era o barulho produzido na rua. Não se conseguia descansar. Agora há uma maior responsabilidade e consciencialização da parte das pessoas. Houve regras muito específicas para esses locais puderem estar abertos até mais tarde. O policiamento também acompanha de perto esta situação, por isso creio que esse aspeto está muito mais diluído.

Pegando em dois eventos, o Europeade e os Jardins Efémeros, que se soube há uma semana que não vão realizar-se, perguntava-lhe se isso o preocupa. São dois eventos que se realizaram no ano passado e que trouxeram muita gente para o Centro Histórico...

Em relação à Europeade, foi o maior evento que se produziu em Viseu. Trouxe mais de 6000 pessoas à cidade. A animação da rua trouxe alegria e cor ao centro e criou dinâmicas para se viver o Centro Histórico de outra forma. O comércio teve um papel muito importante. Fizemos um concurso de montras com o tema Folclore, em que concorreram quase 60 empresas. Tomáramos nós mais eventos como o Europeade.
Em relação ao outro evento, foi com alguma pena que tivemos conhecimento, pela Comunicação Social, que não se iria realizar. Esperamos que seja um ano de paragem para no próximo ano vir com mais força e outra dinâmica. Lamentamos porque, em primeiro lugar, pensamos nos nossos empresários e, depois, em Viseu e nos Jardins Efémeros enquanto marca cultural para a cidade. Eram dias em que os bares e restaurantes do Centro Histórico estavam completamente cheios e com pedidos de reservas. Naturalmente que, quando isto acontece, a suspensão nos afeta a todos.

E no que diz respeito à Feira de S. Mateus, no ano passado estenderam-se eventos para o Centro Histórico. Foram suficientes ou podiam ter sido mais?

Lançámos esse desafio à Câmara de Viseu, nomeadamente à Viseu Marca, para haver uma maior interligação entre a Feira de S. Mateus e o centro da cidade. Produziram-se efetivamente alguns eventos, mas pensamos que ainda foram poucos. Há condições para se realizarem mais eventos no centro da cidade. Preocupa-nos que Viseu, enquanto cidade, não tire mais partido deste evento, nomeadamente, ao nível da visibilidade.

Mas este ano vão ser reproduzidos? Em maior número?

Ainda não reunimos com a Viseu Marca, mas atendendo a que o primeiro ano correu bem, não correu tão mal como nos anos anteriores em que não havia evento nenhum, creio que há condições para que de facto se possam realizar mais eventos.

Continua a ser seguro estar no Centro Histórico de Viseu?

Completamente. Não tenho conhecimento de situações graves que aconteçam por falta de segurança, quer noturna, quer diurna. Há um ou outro caso pontual, como em qualquer parte do mundo. Agora, não podemos falar de uma situação de insegurança durante o dia ou noite no centro da cidade, muito pelo contrário.

Os três novos estacionamentos também vão ajudar à vinda de pessoas?

O estacionamento de proximidade é muito importante para os utentes que queiram frequentar e vir ao Centro Histórico. Se tivéssemos estacionamento longe daqui as pessoas afastavam-se, por isso acredito que a criação de novos postos de estacionamento e mais alguns que estão programados para o centro da cidade, vão ajudar à vinda de pessoas e à vivência do centro da cidade.

Há um ano reforçava muito a ideia de serem precisas lojas âncora. Um ano depois a sua opinião continua a ser a mesma?

Ainda bem que me faz essa pergunta porque é das situações que, recorrentemente, falo. A instalação de lojas âncora no centro da cidade. Começo a ver algumas. Há novos conceitos e novas lojas a instalarem-se na Rua Formosa, na Rua Alexandre Lobo e na Rua do Comércio, mas precisamos de mais. Mais marcas de referência, porque são essas marcas que trazem compradores.





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