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“Mal se chega, este aroma é o primeiro abraço que Viseu dá”

Edição de 14 de dezembro de 2018
14-12-2018
 

Pedro Abrunhosa é mais um nome confirmado na Feira de S.Mateus. O cantor, que marcou presença no festival literário “Tinto no Branco” para falar de … cinema, deu uma entrevista ao Jornal do Centro onde recorda a infância “setembrista”, o novo trabalho e a atualidade que se vive no mundo.

É mais um regresso à região, desta vez para uma conversa cinematográfica. A música e o cinema combinam tão bem quanto o vinho e a literatura?

Sim. A música e o cinema são artes temporais. Eles só vivem do tempo. No cinema, o espetador ouve a música. A imagem e a música correm ao mesmo tempo. São duas realidades paralelas. Um filme sem música é complicado, embora exista, e a música sem a imagética que esteja adjacente também torna tudo mais complicado.

Muitas pessoas estiveram presentes nesta conversa. Precisamos mesmo de 24 frames para dizer o que queremos?

É uma expressão curiosa. Hoje em dia com as técnicas digitais aquilo que acontece é que há uma grande interação com música e literatura, cinema e artes. São as artes mais democráticas. A literatura é uma eterna forma de salvação. É união, dá-se em muito mais de 24 frames e em muito menos. É preciso muito pouco para dizer o que queremos.

A família do Pedro é de Moimenta da Beira. A região de Viseu é já a segunda casa?

Já é há muitos anos. Desde que me lembro, todos os setembros eram passados aqui na região. Tenho casa da família e a minha infância foi sempre cá. Foram 57 setembros em Viseu. O melhor de estar fora, e que é algo que quem vive cá já não sente, é o cheiro da terra. O cheiro da vegetação, do sabugo. É uma coisa que a memória olfativa nos remete para onde estivemos. É o perfume de uma cidade. Mal se chega, este aroma é o primeiro abraço que Viseu dá.

Apresentou, recentemente, o seu novo trabalho chamado “Espiritual”. A região de Viseu foi uma das inspirações?

Este disco tem as ideias assentes na realidade atual. A questão dos refugiados é algo que devemos estar atentos. Estes refugiados, no fundo, somos nós. Nós já fomos aquilo. Da zona de Viseu imensas pessoas saíram desta região para Paris e Alemanha, em busca de pão e devemos todos estar atentos a isto. Não devemos permitir que os outros ergam muros em nosso nome. Quanto a inspirações, é impossível este disco não estar carregado com a minha infância. É uma presença assídua na minha música. Houve uma canção (Não vás embora hoje) que escrevi em Moimenta da Beira, precisamente no mês de setembro.

Costuma ser uma pessoa atenta aos acontecimentos do mundo. Para onde acha que estamos a caminhar?

É preocupante. A democracia está em perigo. Só a formação e a informação podem travar acontecimentos como os de 1933. Nessa altura, o povo elegeu um monstro e isso pode voltar a acontecer. O facto de estarmos a eleger potenciais monstros é preocupante. São as maiores nações do mundo que têm à sua frente pessoas que não possuem ideias e que só usam discursos de ódio. Hitler também arranjou um motivo para tudo o que aconteceu. Para ele, os judeus foram a razão para a Alemanha estar na miséria e todo o descontentamento das pessoas: desemprego, fome e tudo mais, foi sempre culpa dos judeus. Hitler não construiu uma ideia, destruiu uma comunidade inteira.
Hoje é igual em França. O protesto que se vive é legítimo. O confronto acho que não. Eu tenho muito medo que estes confrontos tragam a extrema-direita ao de cima. Quando se partem vidros e incendeiam carros, as pessoas aderem mais facilmente ao discurso do ódio. É muito fácil partir tudo e incendiar tudo para incitar ao discurso do ódio. Não é a contestação que me preocupa mas sim o resultado de uma eleição de um presidente francês que tem esta contestação passados dois anos e cuja repercussão é altamente violenta. Não acredito que os coletes amarelos queiram esta violência. Acredito é que quem quer que o Macron saia, manipulou isto para colocar outra pessoa com discursos de nacionalismos.

Tem receio que chegue a Portugal?

Eu quero acreditar que somos suficientemente maduros para enfrentar esse tipo de discurso. E acho que o atual Governo, embora com muitos defeitos, tem feito um trabalho exemplar. Mas há na raiz desta dicotomia duas forças antagónicas. Ricos e pobres, fosso entre o norte e o sul de Portugal... só nestes últimos anos se fez um esforço para combater isso e a prova é que as pessoas não andam tão descontentes.
Se continuássemos no registo de austeridade profunda, e do roubo que fizemos às nossas finanças e de algumas famílias que, alegadamente, puseram o país de joelhos, isto estaria pior. O emprego diminuiu. A dívida externa é um problema. E o pior disto tudo é que somos nós que estamos a pagar isso. É o povo que esta a pagar.
Não temos hospitais decentes, possuímos um serviço nacional de saúde deficitário. E não é porque se queira. O nosso dinheiro está é a ser usado para o rombo financeiro que a regulação bancária não resolveu a tempo. O descontentamento existe e basta um fósforo para o acender. Esse fósforo tem de ser um fósforo de coerência e não de populismo.
O que este governo fez, e muito bem, foi afastar a dimensão entre ricos e pobres. O emprego diminuiu e a dívida externa é um problema. Mas acho que estamos bem e maduros porque os nossos partidos fazem discursos de democracia.

Em 2019 vai marcar presença na Feira de S.Mateus. Promete um espetáculo igual ao último?

O último espetáculo foi brutal. A música é uma narrativa de esperança. A música galvaniza as pessoas e levanta as multidões. É uma celebração. Nós quando entramos em palco entramos a doer. A minha música é física, forte, enérgica e agregadora. E com isto tudo, de repente olho e tenho a Feira de S. Mateus aos saltos. Lembro-me perfeitamente do último espetáculo. Nós tocamos três horas e quarenta e há um momento em que estou sozinho no piano e a energia é profundamente espiritual, daí o nome do meu novo disco, que quer retratar essa energia que se sente. Lembro-me que, nessa noite, a minha ligação com o público foi completamente mágica. Após toda essa magia volta a apoteose e vamos todos para casa contentes e felizes. No fundo, é este abraço invisível que eu prometo fazer em Viseu. Não quero fazer o mesmo espetáculo. Quero fazer algo diferente.





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