A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

Médicos de família vão poder receitar exercício físico

Edição de 18 de janeiro de 2019
18-01-2019
 

O diretor executivo do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Dão Lafões, António Cabrita Grade, defende uma nova abordagem do tratamento das doenças que são consequência dos estilos de vida. Médicos vão poder prescrever alongamentos, corridas, flexões.

Estamos no inverno e na altura dos picos da gripe. Como é que o ACES Dão Lafões controla estes surtos sanzonais?

O ACES há alguns anos que tem um plano de contigência que se baseia na monitorização diária das situações de gripe e doença de respiratória aguda nas nossas unidades. Conforme a monitorização vamos tendo a percepção em tempo real do surto e da sua evolução e assim aplicar as medidas, desde o alargamento de horários dos centros de saúde ao nível reorganizativo.

Como assim?

Muitas das nossas atividades é feita de forma programada. O que nós poderemos fazer perante uma situação de urgência é diminuir a atividade programada e colocar as vagas para estas situações agudas. É perante os números da monitorização em tempo real que vamos implementando as várias fases do plano de contigência.

Na eventualidade de ser necessário o alargamento, há pessoal suficiente?

Se houver necessidade para horas extras são dadas, mas creio que a própria capacidade instalada com a reorganização interna dará para cobrir as necessidades. São situações que já estamos de alguma maneira mecanizados para reagir de imediato.

Os centros de saúde são o primeiro ponto de passagem dos doentes com gripe ou são as urgências hospitalares?

Há uma mensagem que é importante passar. A rede de cuidados primários está preparada. A gripe, genericamente, é uma doença benigna, mas muitas vezes as pessoas com uma constipação vão logo a correr para os serviços de urgência dos hospitais e isto é muito negativo. Para os serviços que ficam sobecarregados com situações que são quase curadas com medidas caseiras e para a pessoa que fica sujeita ao contacto com uma série de micro organismos altamente perigosos. O que acontece é que se vão para lá com uma situação que pode ser facilmente resolvida acabam por sair de lá com outras mais complicadas.
Liguem primeiro para a Saúde 24 e eles farão o encaminhamento correto. Deixarem o 112 para as situações de emergência e utilizem a Linha Saúde 24 para estes casos.

Este é um apelo constante. Os doentes estão já a interiorizá-o?

Já começa a haver alguns sinais de mudança de atitude, mas ainda não é o que deveria ser.

As doenças respiratórias são um problema na área de abrangência do ACES?

A doença respiratória é grande, nomeadamente as infeções agudas (pneumonias) mas as mais pesadas são as doenças respiratórias crónicas como, por exemplo, as bronquites e a asma. Os números não fogem muito àquilo que é a realidade a nível nacional.

Quais são então as doenças com maior prevalência?

A alteração do metabolismo dos lípidos, o colesterol, por exemplo...

Isso tem a ver com a alimentação?

Alimentação, sim, e estilos de vida. Como consequência temos a obesidade que é transversal a toda a população. Mas temos a nível infantil um grau de obesidade que nos preocupa e para o qual estamos a direcionar campanhas de acordo com as orientações nacionais e mundiais.
Depois, surge a hipertensão arterial, as perturbações depressivas, as diabetes, o abuso de tabaco, os distúrbios de ansiedade, etc... Temos também as patologias como as artroses e outras situações do género que têm a ver com o tipo de população que, atualmente, tem uma esperança de vida mais alargada. A nossa atuação, face a este cenário, e o que queremos, é que a longevidade da população seja feita com uma situação de saúde de qualidade.
Costumo dizer que há três aspetos importantes. O bio, o psíquico e o social. Não é só o aspeto físico da doença, mas é também a parte psicológica e a parte social na família e nas instituições. Todos têm de contribuir para sermos úteis.

Há falta de apoios sociais?

Nunca estamos preparados e são sempre insuficientes. Mas isto é uma área nova, mesmo em termos de medicina cada vez mais temos a necessidade de fazer formação específica para a área da gerontologia. Hoje as próprias autarquias em articulação com as várias entidades têm tido um papel importante. Agora, o que eu julgo, é que deveria haver mais articulação para maximizar aquilo que já está instalado.

E de que se morre na região?

Os tumores e a traumatologia têm um peso muito grande. As doenças do aparelho circulatório (avc, enfartes, edemas pulmão, insuficiências cardíacas) são a primeira causa. Nos tumores estamos a falar em cancros da mama, na mulher, e da próstata, no homem, além do colo-retal.

Mas tem havido aumento no número de casos?

Há aumento porque são detetados nos rastreios e mais precocemente. Ora, isto também tem a ver com questões ambientais e civilizacionais, nomeadamente alimentação. São números que chamam a nossa atenção e, por isso, as sensibilizações para os rastreios que têm sido feitos de forma sistemática nas unidades de saúde.
O que gostaríamos de implementar agora era a sensibilização para a prática física como parte integrante daquilo que deve ser uma prescrição médica. Até no próprio sistema informático o médico tem lá já uma escala para fazer uma avaliação e decorrente dessa avaliação aquilo dá a orientação ao clínico para o tipo de exercício físico que deve prescrever. Já fizemos formação e estamos a iniciar a sensibilização para que isto seja considerado algo da nossa prática de médico de família assumir este papel.

Em vez de prescrever um medicamento, receitar exercício físico?

Quando é necessário, o comprimido deve ser prescrito. Mas a promoção do exercício físico não pode ficar só, por exemplo, pelas caminhadas. E quando se fala nesta área da prevenção, também se deve falar da parte da nutrição. Era importante que houvesse este apoio em todas as unidades. Mas temos falta de técnicos.

No ACES Dão Lafões quantos há?

Muito poucos. Estamos a tentar trabalhar no sentido de inverter o cenário. O problema é que deixou de haver investimento nos cuidados de saúde e agora o que está a ser feito para repor os níveis ainda não é suficiente.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT