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"Não há missões de primeira, nem de segunda"

Edição de 22 de março de 2019
 

Entrevista a Luís Calmeiro

Programa completo


22-03-2019
 

Na semana em que se comemoraram os 177 anos do Regimento de Infantaria (RI) 14, o Jornal do Centro esteve à conversa com o atual comandante, o coronel de infantaria, Luís Calmeiro. Natural de Castelo Branco, soma já 34 anos de serviço militar. Uma conversa sobre um quartel de elite, o serviço militar obrigatório, a relação do regimento com a comunidade e as mulheres no Exército.

Tomou posse em janeiro de 2019. Desde que chegou o que é que mais o surpreendeu?

Praticamente nada. Quando cheguei já tinha feito um trabalho de preparação e contactos com o atual segundo comandante, de maneira que estava ao corrente de tudo. Por isso não posso dizer que alguma coisa me tenha surpreendido.

Nem pela positiva nem pela negativa?

Pela positiva, naturalmente, que muita me coisa me surpreendeu. Quando comecei a viver o dia a dia, a abrir portas e a conviver com as pessoas... aí sim, tive muitas surpresas.

Então não teve que “arrumar” a casa?

Não. A casa estava muito bem arrumada.

O RI14 é um dos quartéis mais antigos do país. Já o conhecia?

Tinha cá estado uma vez, há cerca de 30 anos.

É um regimento que se adaptou aos novos tempos?

Sim. O regimento tem ao seu serviço uma das plataformas mais modernas, quer do Exército português, quer ao nível dos exércitos europeus e mundiais.
Quando há um reequipamento de meios, que é do que estamos a falar, têm de ter uma duração muito longa, porque têm de estar preparados para o combate, têm de ser resistentes, embora ao longo de todos estes anos do seu tempo de vida útil, em determinadas alturas, tenham de sofrer upgrades. São equipamentos tecnologicamente avançados e que, naturalmente, como a tecnologia anda muito depressa, têm de sofrer algumas melhorias.

É hoje um quartel de elite, uma vez que acolhe batalhões ao serviço de missões internacionais?

É um quartel de elite porque tem meios modernos. Claro que as missões internacionais também contribuem para que seja considerado um quartel de elite. Temos meios que saíram aqui do Regimento e que estão, atualmente, ao serviço na República Centro Africana, como é o caso das viaturas pandur.

Já está definida a próxima missão?

Não estão a ser aprontados aqui em Viseu, mas, sim, em Braga, para a terceira força nacional destacada para o Afeganistão. São 55 militares que fazem parte do RI14.
Temos, também, em missão, atualmente, na República Centro Africana três militares. E temos, ainda, dois no Regimento de Infantaria de Chaves a serem aprontados para a operação no Iraque (Operation Inherent Resolve), na nona força nacional destacada.

Isso pode facilitar o recrutamento de jovens voluntários?

Pode ser um dos fatores de recrutamento, mas não há missões de primeira nem missões de segunda. Há missões.
Os nossos jovens, quando são recrutados, cada um é um caso. A geração atual tem uma forma de estar e de pensar a vida diferente da minha, naturalmente. Esta geração vem para o serviço militar porque quer ter ação, que pode não ser só no exterior, porque para isso têm de ser sujeitos a período de treino específico e exigente. E é essa ação que o jovem vem à procura.

Esse tempo de treino varia de acordo com a missão?

Por norma, o período de preparação são seis meses. O tipo de treino e as tarefas são adaptadas ao tipo de missão que vai ser desempenhada. Não nos podemos esquecer que há sempre um patamar para o qual teremos que estar sempre preparados.

Os militares quando entram no serviço militar é por um período de tempo limitado. No final desse tempo (que podem ser seis anos e um opcional de voluntariado) têm de sair e serem substituídos por outros. Acha que este pode ser um dos fatores que dificulte o recrutamento voluntário?

Há menos nascimentos e, naturalmente, que daqui a 20 anos, que é quando a nossa base recrutável estará pronta (jovens entre os 18 e os 25 anos), vai-se refletir na capacidade de recrutamento. O facto de serem seis, sete ou o que está prestes a ser implementado - o regime de contrato especial que pode ir até aos 18 anos -, com a tecnologia que hoje em dia os nossos sistemas de armas têm, há determinadas especialidades que para haver retorno do investimento, deverá existir um período mais alargado de tempo ao serviço militar. Há determinadas especialidades que, fruto desta modernização, terão de ter um período mais alargado.

Já se despediu de muitos militares desde que aqui chegou?

Nestes dois meses já me despedi de alguns que completaram o tempo máximo permitido nas fileiras e vi lágrimas no canto do olho de alguns porque gostariam de continuar.

Mas acha, ou não, que pode ser este um dos fatores que dificulte o recrutamento voluntário?

Não é essa a base de recrutamento. Muitos deles [militares] vêm com o objetivo de irem, depois, para as forças de segurança, como a Guarda Nacional Republicana ou para a Polícia de Segurança Pública. Outros para puderem trabalhar e estudar ao mesmo tempo ou outras formas de ganhar competências. Temos várias possibilidades como é o caso de operadores de máquinas de engenharia, as várias categorias de certificados de condução, cursos muito valorizados lá fora, que podem ser ferramentas que depois podem utilizar no regresso à sociedade civil.

Alguns já saem com alguma idade...

Daqui a dois meses um dos militares vai sair já com 31 anos. Mas das conversas que vou tendo com eles, porque principalmente na saída gosto sempre de falar com eles sobre as suas perspetivas, do que me tenho apercebido, eles saem já com a ideia do que vão fazer. Quase todos acabam por me dar razão, principalmente aqueles que saem e agora é que vão estudar, que se calhar já podiam ter começado a estudar há mais tempo, para agora puderem ter, mais rapidamente, a sua integração normal no mercado de trabalho.

O RI14 recruta tanto em Viseu como na Guarda. Onde é que funciona melhor o recrutamento?

Em ambos funciona bem. Se a base de recrutamento a nível nacional está mais baixa, aqui também há uma diferença entre a base de recrutamento em Viseu e a base de recrutamento na Guarda. Naturalmente que o facto de Viseu, tendo um regimento e a Guarda não, vai ser uma mais valia para o Gabinete de Atendimento ao Público de Viseu. Mas ambos fazem o seu trabalho de forma muito meritória. Os militares que temos em ambos os gabinetes são escolhidos porque são pessoas que, para além de gostarem do que fazem, são comunicativos e são uma mais valia. Dentro do Exército há um prémio anual de recrutamento e nos dois anos em que foi instituído o Gabinete de Atendimento ao Público de Viseu foi o distinguido. 

De tempos a tempos fala-se da possibilidade do regresso do serviço militar obrigatório. Qual é a sua opinião?

Neste momento, o serviço militar obrigatório não é a nossa base de recrutamento. O nosso sistema é o de voluntariado e contrato. Portanto, não é um assunto que esteja em cima da mesa. Aliás, aquele que está em cima da mesa é o de aumentar o tempo de permanência ao serviço das forças armadas em regime de contrato especial e que poderá estender o período de permanência nas fileiras até aos 18 anos.

Outro assunto que, esse sim, está em cima da mesa, que é a questão dos fogos florestais. Qual é o papel que o RI14 pode ter na prevenção e no combate?

O papel que pode ter é o que está definido na lei. Pessoalmente, tenho uma máxima que é: a melhor forma de resolver um problema é não o criar. A prevenção será sempre aquela que deve ser tida em primazia até porque há missões e tarefas militares que são perfeitamente adaptáveis a este ambiente, como é o caso das missões de reconhecimento e de vigilância, que são adaptáveis em apoio das populações.

Mas o que está na lei é o suficiente?

O que fazemos é o que está previsto e é possível ser feito. Faz parte da prevenção e do rescaldo. Aquilo que eu entendo que deve ser dada primazia é à prevenção. É preferível que a coisa não aconteça.

Esta semana, em que se comemorou o Dia do Regimento de Infantaria, abriram as portas da “vossa casa”. Também o preocupa essa questão da relação com a comunidade viseense e com a região?

O RI14 faz parte da comunidade. É da sociedade civil que nós emanamos. Andamos com roupas diferentes da sociedade civil, mas em determinados dias vestimo-nos exatamente da mesma forma. Mas esta relação com a cidade de Viseu é multisecular. Nesta altura há mais divulgação e é mais visível, mas ao longo do ano abrimos as portas muitas vezes durante a semana e saímos de portas, seja em exercícios ou em atividades de divulgação. O RI14 tem uma vasta área de responsabilidade, que são 27 concelhos, entre os distritos da Guarda, de Viseu, Coimbra e Castelo Branco. Naturalmente, que temos uma relação privilegiada com a cidade de Viseu porque é aqui que estamos diariamente. Quer os nossos militares, quer o comandante também vão estando em determinados eventos sejam eles locais ou da região. É desta forma que vamos mantendo esta relação de 177 anos consecutivos na cidade.

Sente que os viseenses têm interesse pelo Regimento de Infantaria, pelo que aqui se passa, mesmo no que diz respeito à adesão nas atividades desenvolvidas?

Sim. Aliás, ainda no domingo (17 de março), na Corrida dos Viriatos, tivemos uma adesão de cerca de 400 atletas.

Ainda nesta questão do envolvimento na sociedade, um dos métodos de cativar e de divulgar aos jovens passa por irem às escolas... Não sente que esse método pode estar ultrapassado? Não haverá a necessidade de mudar o modelo?

Esta é uma das linhas. Temos várias para cativarmos a nossa base recrutável que são os nossos jovens. Vamos às escolas, as escolas vêm até nós, mas há outros métodos que passam, por exemplo, pelas redes sociais. Talvez o Facebook já não esteja tão utilizado, mas se calhar o Instagram e outras redes que, se calhar eu ainda não as conheço, mas que na nossa repartição de recrutamento do Exército estão bastante atentos. Também a nível nacional, fazem um trabalho excelente e tentam chegar a todo o lado. Ainda agora fizeram um spot publicitário que está a ser disponibilizado nas salas de cinema e que há-de chegar à televisão, sobre as mulheres no exército. Isto faz tudo parte de uma rede em que cada um tem a sua tarefa.

Falando na questão das mulheres, quantas estão no RI14?

Dezoito fardadas e oito civis.

E quantas em lugares de chefias?

Duas que estão na secção de alimentação e que coordenam as equipas.

Ainda há dificuldades na gestão de relacionamento entre os militares do sexo masculino e do sexo feminino? Ou esta já não é uma pergunta que se faça?

É quase isso, porque praticamente nunca existiu. Nos meus 34 anos de exercício militar, todos foram com mulheres ao serviço. É uma coisa que é perfeitamente normal. Estamos fardados da mesma forma, elas fazem os mesmos exercícios que nós fazemos, desempenham as mesmas tarefas que nós desempenhamos, naturalmente que têm mais jeito para umas coisas do que nós, mas nós também temos mais jeito para outras coisas. Mas isto faz parte da diferença entre os dois géneros, mas por norma as Forças Armadas andam à frente da sociedade civil. Fomos pioneiros a trazer o género feminino para dentro da instituição e a dar-lhe as mesmas condições. Um coronel do género masculino tem exatamente as mesmas condições de uma coronel do género feminino.





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