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"O Museu Grão Vasco so é nacional no nome"

Edição de 7 de dezembro de 2018
 

Entrevista a Odete Paiva

Programa completo


07-12-2018
 

Odete Paiva dirige o Museu Nacional Grão Vasco desde 1 de dezembro, depois de ter sido vereadora da Cultura no primeiro mandato de Almeida Henriques. A responsável projeta um museu mais internacional e mais qualidade nas visitas guiadas.

O que é que leva da sua experiência enquanto vereadora da Cultura do município de Viseu para a direção do Museu Nacional Grão Vasco?

A diversidade dos museus municipais permitiram fazer trabalho a diferentes níveis. Por exemplo, a Quinta da Cruz era um espaço que estava fechado quando comecei a ser vereadora e abrimo-lo com perfil de arte contemporânea, enquanto que ao Museu do Linho, por exemplo, foi dado um carácter ainda mais etnográfico. Essas experiências são sempre importantes do ponto de vista profissional e do estudo e trabalho com coleções que, sendo diferentes, exigem o mesmo rigor académico.

Uma das questões abordadas quando foi conhecido que ia ser diretora do Museu, foi a relação que a instituição ia ter com a autarquia. Na altura, Almeida Henriques garantiu que ia ser uma relação igual à que tem com outros museus. É mesmo assim?

Sim, obviamente. A relação institucional entre a diretora do Museu Grão Vasco e o presidente da Câmara será obviamente a melhor. Assim como a relação do Museu com a própria autarquia. É uma relação claríssima e corretíssima.

O Museu Grão Vasco assinalou cem anos recentemente. O que é que projetou para este espaço?

Tenho a certeza de que vai renovar-se. Tenho um novo projeto para ele e foi com ele que venci o concurso para dirigir o Museu. Estamos a trabalhar na programação de curto prazo, por exemplo, com exposições temporárias. Queremos também qualificar a experiência de quem visita o espaço para, a partir de abril, podermos receber melhor os visitantes. Estamos a tentar abrir o Museu às terças feiras de manhã. Quanto mais horas tivermos o Museu aberto, melhor será.

Falou na qualidade da visita. E em termos de quantidade, há alguma meta quanto ao número de visitantes a atingir?

Não, não tenho definido em números mas em qualidade. Espero que, quem visite o Museu Grão Vasco, seja de que nacionalidade for, conheça o Vasco Fernandes e saiba a importância da sua obra a nível nacional e internacional. Estamos a trabalhar para aumentar o número de visitantes pelo passa a palavra, que hoje em dia é uma das formas de atrair públicos.

E para melhorar as visitas está previsto dar formações para requalificar os recursos humanos ou contratar novos trabalhadores?

A formação faz sempre sentido. Mas, infelizmente, não está previsto o recrutamento, para já. Por vezes temos recursos que é só preciso redistribuir e aproveitar as capacidades e as competências que nem sempre existem. As pessoas não estão a dar o seu melhor e é preciso haver disponibilidade para que se façam outras abordagens àquilo que é o seu trabalho. Com os recursos humanos que temos neste momento é possível perspetivar uma visita mais interessante.

Como é que foi acolhida nestes primeiros dias enquanto diretora do Museu?

Senti-me em casa desde a portaria até aos serviços técnicos.

O que é que vai aproveitar das direções anteriores do Museu para utilizar no seu mandato?

Destaco o trabalho de Dalila Rodrigues, foi uma diretora extraordinária porque deu ao espaço outra dinâmica, que é uma caraterística do Museu desde essa altura. Retomar essa mesma dinâmica é um dos meus objetivos.

Mas houve outras direções...

De Agostinho Ribeiro destaco a abertura à comunidade, conseguiu trazer muitos parceiros para o Museu. Paula Cardoso não teve a autonomia que provavelmente gostaria de ter porque nunca sabia que o concurso para novo diretor abria e nunca sabia a sua posição dentro do Museu. Fez exatamente aquilo que lhe pediram que fizesse. Entregou-me o Museu de uma forma muito tranquila e temos estado a trabalhar durante estes dias e estará no Museu e será sempre uma ótima colaboradora, com certeza.

Associamos sempre as vereações de câmara às assessorias. Quer criar uma assessoria, agora enquanto diretora do Museu Grão Vasco?

Os recursos humanos fazem com que eu tenha de pensar o contrário. Em vez de fazer só a gestão, terei que pôr mãos à obra e trabalhar junto com os técnicos para produzirmos conteúdos relevantes para o Museu, para a cidade e a nível nacional. Acho que a ideia de que temos um Museu Nacional só se concretizou no nome.

O que falta fazer?

A coleção do Museu Grão Vasco é de enorme relevância. Falta fazer chegar a importância desta mesma coleção a todos os pontos do país e a um nível internacional que é isso que pretendemos fazer com esta nova abordagem turística. É a minha missão, neste momento.

E isso não exigirá recursos financeiros e humanos?

Exige, com certeza. Vamos tentar negociar o mais possível com a Direção Geral do Património Cultural e sensibilizá-los para a importância do Museu. É também essa a minha função. E espero ter esses recursos para cumprir a missão.

Tem-se discutido em Portugal a liderança no feminino. É mais uma mulher a liderar um projeto muito relevante como um Museu Nacional. A questão sobre se é uma mulher ou um homem a liderar ainda faz sentido ser falada?

Pessoalmente, não é relevante saber se é uma liderança no masculino ou no feminino porque acho que as instituições devem ser lideradas por quem tenha competência. Ponto final. Se em Portugal há algum défice na liderança das mulheres, sim, concordo. Em geral as mulheres não ocupam o topo das hierarquias. Dentro desta área há uma “cultura” no feminino porque temos uma ministra, temos uma diretora geral e uma diretora do Museu e a equipa técnica do Grão Vasco é maioritariamente constituída por mulheres. Acho que as mulheres têm outra perspetiva das coisas, não é necessariamente melhor ou pior, é apenas outra perspetiva. A complementaridade é muito importante e, se nós olharmos para a coleção do Museu Grão Vasco, a maioria é assinada por homens. A Cultura é a nossa identidade, independentemente do género.

Qual é a sua relação com a obra de Grão Vasco?

A obra de Grão Vasco é absolutamente incontornável a nível nacional, é um dos pintores de referência do século XVI português. Temos uma jóia absolutamente extraordinária. Não há ninguém que se compare a Vasco Fernandes.

Se tiver que escolher uma das obras de Grão Vasco, qual elege?

Pela altura do ano que vivemos, escolheria a “Adoração dos Magos”. É uma obra extraordinária por várias razões, desde o contexto do retábulo, ao índio brasileiro, à riqueza e por tudo o que representa na História de Portugal e porque é Natal. No nosso espírito beirão é um presépio absolutamente extraordinário.





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