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ROADS vai chegar onde houver ciganos

Inclusão, Cáritas

15-04-2018
 

 

O que é o projeto ROADS?

Foi pensado pela Cáritas já há algum tempo. Não é para aplicar apenas ao Bairro de Paradinha. Temos uma equipa que trabalha só esta comunidade há muitos anos mas temos outras equipas do Rendimento Social de Inserção (acordo com a Segurança Social) e que trabalham a outra comunidade cigana que tem características muito mais rurais, como por exemplo a que existem em Silgueiros, S. João de Lourosa,Vila Chã de Sá... O projeto começa precisamente neste envolvimento que a Cáritas já tem e então porque não envolver mais e trabalhar toda a comunidade em vários eixos.

 

E quais são esses eixos?

A educação, que já há muitas coisas que estão a ser feitas nomeadamente os cursos EFA (Educação e Formação de Adultos) com os quais pretendemos minorar o absentismo escolar e a analfabetização. Claro que sozinhos não conseguimos e precisamos das parcerias. Temos também o eixo da cultura porque ela é a forma mais fácil de chegar às pessoas. É através das crianças e através da cultura que conseguimos chegar a algum lado. É aquele velho ditado “quem meus filhos beija minha boca adoça” . Temos também o eixo do emprego. A comunidade está muito formatada para as vendas e nós sabemos que isso nem sempre é fácil. Portanto, temos se calhar, de quebrar um bocadinho a barreira cultural. Já temos uma ou outra experiência de pessoas a trabalhar por conta de outrem como, por exemplo, em aviários. Se estas experiências correrem bem temos de agarrar nelas e motivar outras empresas a quebrar tabus. Queremos trazer a Associação dos Empresários Católicos a trabalhar connosco.

Na habitação, aqui entra a Câmara Municipal não só por causa da manutenção do Bairro e na cedência dos espaços, mas também com os ciganos da zuna rural para arranjar caminhos ou legalizar algumas habitações, a luz elétrica ou água.

Na saúde vamos trabalhar a questão das gravidezes precoces e o planeamento familiar.

 

Quantas pessoas podem ser envolvidas neste projeto?

Quando esta ideia surge dentro da Cáritas, lançámos a ideia ao nosso primeiro parceiro que foi a Câmara municipal de Viseu que a lançou, por seu lado, na rede social do CLAS para que cada vez mais parceiros pudessem fazer parte deste projeto. Curiosamente, no âmbito desta rede social, uma das problemáticas que a maioria dos parceiros levantou foi a urgência do trabalho com as minorias étnicas.

Também já divulgámos também o ROADS junto da plataforma supramunicipal Dão Lafões e Douro.

O projeto tem um prazo de dois anos e vai, seguramente, abranger mais de 400 pessoas de etnia cigana. Se for aceite a nível interconcelhio, então vai envolver muito mais porque estamos a falar de comunidades em Nelas, Mangualde e por aí fora... A divulgação do projeto está-se a fazer agora.

 

Uma coisa é trabalhar com a comunidade onde a Cáritas já está literalmente inserida há 20 anos. Mas como vai ser com as outras comunidades com características diferentes?

Estão mais dispersas, vai ser mais difícil. Mas se no Bairro de Paradinha pode parecer mais fácil trabalhar porque estão todos juntos, isso também acarreta problemas porque acaba por ser quase um gueto e todos juntos têm outra força. Nas outras comunidades, onde trabalham as equipas de reinserção, também há relação mas mais distante...

Uma das coisas que se fala é, por exemplo, as aldeias que estão mais ou menos desabitadas serem a casa destas ciganos que estão dispersos por acampamentos. Há aldeias que estão a ficar desertificadas porque não arranjar as casas e convidá-los a ir para lá? Por exemplo... isto resolviam-se aqui dois problemas. Mas é preciso ponderar.

 

Isso é possível, sendo o nomadismo uma das caraterísticas?

Já não é assim tanto. Já não são errantes, vivendo em barracas ou noutro local com condições degradadas... a casa deles é ali.

 

Ao colocá-los numa aldeia não sentirão aquela asfixia das paredes ou até a exclusão?

Eu acho que não. As barracas que eles constroem são à semelhança da nossa cultura. É uma casa com paredes, telhado, lareira, mesa e depois dividem é com cortinas. Agora, esta é uma ideia que está a surgir no ROADS e tem de ser trabalhada com a comunidade. Não é empurrá-los nem obrigá-los. São processos lentos.

 

 

Comemoraram o Dia do Cigano em Paradinha. Uma festa com a comunidade...

Apesar de termos o trabalho com a comunidade no Bairro há muitos anos, nunca tínhamos comemorado do Dia do Cigano. É evidente que esta festa teve muito mais interesse porque eles próprios participaram na elaboração e desde o primeiro momento que disseram logo que sim que estavam interessados em colaborar. As bandeirinhas foram feitas nas atividades que temos aqui diariamente no nosso centro comunitário. Aliás, todos os equipamentos e móveis são feitos com os moradores que frequentam o centro. Este ano o dia foi comemorado aqui, para o ano pode ser em Silgueiros ou em Vila Chã de Sá ou onde houver uma comunidade grande também.

 

 

Como é que a Cáritas consegue ser a única instituição que continua o seu trabalho no Bairro?

Com alguma dificuldade. Há dias complicados, sim, há nervos, há agressividade... mas estamos aqui e conseguimos cá estar porque foi criada uma relação. Ou seja, a Cáritas acompanha as famílias há várias gerações. Miúdos de antes que agora já são pais. Temos frutos, sim, por exemplo, há muitas mais crianças a irem à escola, depois há uma relação criada com afetos. Por exemplo, os trabalhos que eles qui desenvolvem são o que gostam de fazer. É a música, é a culinária...

É conhecido os imensos problemas por causa das ligações ilegais de luz e água. Foi arranjada uma forma em parceria com a Segurança Social, com a Câmara e com a Cáritas de realizar reuniões e propor soluções, mostrando que é preciso ter direitos mas também deveres e que as ligações ilegais têm de acabar. O mesmo acontece com as rendas de casa que não podem deixar de pagar.

Isto é todo um processo que não se pode impor, que tem de se ir fazendo.






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