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"Temos de dar algum desconto a certos episódios de violência"

Edição de 22 de março de 2019
22-03-2019
 

José Alberto Ferreira lidera a Associação de Futebol de Viseu há 16 anos. O dirigente lamenta que não haja árbitros de Viseu a apitar na Primeira Liga de Futebol e analisa os mais recentes casos de violência no futebol distrital. Assume também que deveria ter estado mais atento às dívidas dos clubes.

O Jornal do Centro, na última edição impressa, noticiou um caso de violência com ameaças que envolviam armas de fogo. Qual foi a sua reação ao saber deste acontecimento?

Com alguma perplexidade, mas também dando algum desconto àquilo que é o empolamento dessas situações. Estamos atentos, vamos tomar as medidas que entendermos ser necessárias para sanar tudo isso do fenómeno desportivo.

Este ano tem aumentado o número de casos de violência e que também envolvem racismo e discriminação, como por exemplo aconteceu num jogo do Mortágua. Que medidas é que de facto foram tomadas para que isto não se volte a repetir?

Está no processo de inquérito e os intervenientes vão ser ouvidos. A partir daí será apurada a responsabilidade de quem, de facto, cometeu esses atos. Por vezes empola-se um pouco as coisas, vamos aguardar com serenidade e, no fim, o Conselho de Disciplina tomará as medidas necessárias.

Enquanto presidente da Associação de Futebol de Viseu que contactos estabeleceu depois destes casos acontecerem?

Procuro estar informado, falei com os intervenientes, sobretudo com os presidentes para me inteirar das situações. Espero que a Justiça funcione para que se apurem as responsabilidades.

O seu cargo acaba por ter, sobretudo, um poder de influência. O que é que não está nas suas mãos?

Não controlo tudo aquilo que os agentes desportivos fazem. Por vezes, há pessoas extremamente calmas que, no desporto, ficam agitadas e alteradas, viram feras, viram bicho. Nesse sentido, temos de dar algum desconto.

Mas o racismo é crime...

Exatamente. Quando vamos para situações dessas temos de agir e não podemos ficar indiferentes a isso mas temos os órgãos próprios para tratar dos casos. Penso que, mais quinze dias, e temos uma decisão relativamente a esse caso.

Há mais. Foi notícia um caso de alegada escravatura em Canas de Senhorim. Preocupou-o enquanto líder máximo do futebol distrital?

A ser verdade tudo aquilo, sim, preocupou-me. Agora, não sei se as coisas serão bem assim. Talvez tenha sido um pouco empolado. Vamos aguardar.

Quando aos domingos vamos ver um jogo da formação é comum ouvir insultos que muitas vezes roçam o ódio por parte dos pais dos jogadores. Isto resolve-se de que forma?

Há até agressões entre pais e isso não abona nada em favor do que o futebol deve ser para os jovens. Os pais transfiguram-se e nós estamos constantemente a alertar para isso.

Falava há pouco de pessoas que se alteram a ver futebol. Os miúdos têm como referências pais e treinadores. Ora, se alguns agem como se de um campo de batalha se tratasse, como se melhora esta realidade?

É um processo de “deseducação” dos jovens. Eu acho que os treinadores não devem tomar essas atitudes. O problema é que os treinadores dão uma instrução e os pais fazem o contrário e exageram um pouco no acompanhamento dos filhos. Deve confiar-se no trabalho dos clubes e de quem os treina. Às vezes, os pais vêm nos filhos Cristianos Ronaldos em potência...

Para evitar um alastrar de conflitos está a polícia. Em que jogos é obrigatório haver policiamento?

A lei não obriga a presença de polícia, mas nós entendemos que há jogos que devem ter policiamento, sobretudo, os que, pelo histórico, pela proximidade geográfica e classificação podem originar problemas.

Há clubes que se queixam de, ao domingo à tarde, os árbitros irem apitar jogos já cansados pelo excesso de partidas que dirigiram. Recorre-se aos mesmos árbitros para poupar?

Não, é porque não temos árbitros suficientes para fazerem só um jogo por fim de semana. Viseu tem, também, árbitros que já pertencem aos quadros da Federação e que não estão disponíveis.

A arbitragem sempre foi uma das suas bandeiras. No entanto, ainda não temos árbitros de futebol a apitar jogos da Primeira Liga. Porquê? É o sistema?

Devido a vários fatores, mas não significa que os nossos árbitros não tenham qualidade. Temos é de lutar contra associações bem mais poderosas que têm, por exemplo, mais observadores. Há muitas vezes algum lobby, é o sistema.

Foi intransigente com o Nelas ao impedir as equipas do clube de competirem enquanto não regularizassem a situação financeira. É para manter esta posição com quem não cumprir?

Não abandonarei esta bandeira. A Associação de Futebol de Viseu (AFV) chegou, no ano passado, a uma quase rutura financeira porque havia atrasos de pagamentos. Temos meia dúzia de clubes que é responsável por metade do total da dívida dos clubes à AFV. Chegámos a ter quase meio milhão de euros por receber. Impusemos regras que foram aprovadas em Assembleia Geral porque não podemos fazer “dumping desportivo” ao facilitar a uns clubes quando outros cumpriam as suas obrigações. Trata-se de verdade desportiva. Ninguém pode gastar mais do que tem. Estabelecemos uma regra: nenhum clube se poderia inscrever nas competições sem pagar o que devia.

Nem tudo são más notícias. O número de praticantes de futebol tem aumentado no distrito. Como explica isso?

Curiosamente, tem aumentado na formação e diminuído nos seniores e estamos perto de atingir os sete mil atletas. Há dez anos não chegávamos aos cinco mil. Desenvolvemos vários programas, praticamente, em todos os concelhos. Lançámos, recentemente, o projeto “Há Bola na Escola”. O que pretendemos é colocar os jovens a praticar atividade física para evitar o sedentarismo e a obesidade.

A Federação Portuguesa de Futebol premiou a AFV pela prática de futebol feminino no distrito. Sempre foi uma das suas prioridades?

O nosso objetivo é tentar que, em cada concelho, haja a prática de futebol feminino. Aliás, somos o distrito de onde é natural o atual selecionador da equipa feminina de Portugal.

Está aí a Academia. Vamos ter uma cidade do futebol também em Viseu?

Vamos ter uma aldeia do futebol. É um projeto estruturante para que possamos dar mais e melhor formação a árbitros, treinadores, seleções distritais. Todos sabemos que Viseu ainda precisa de infraestruturas desportivas e não podemos permitir que duas ou três equipas treinem no mesmo campo e o mesmo acontece com os árbitros que têm dificuldades em treinar em Viseu.

Está a chegar ao fim mais um mandato à frente da AFV. Vai recandidatar-se?

Entendo que 16 anos é muito tempo e sinto que é preciso vir gente nova. Quero até ao fim do mandato deixar a Academia pronta ou perto disso.

Mudava alguma coisa nas medidas que tomou?

Sim, por exemplo, não permitir que os clubes fossem criando tantas dívidas e torná-los mais cumpridores. Durante três anos passei o dia fora de Viseu (foi presidente na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro) e talvez não tenha dado a devida atenção. E penitencio-me por isso.

Foi o seu maior erro?

Talvez tenha sido. Nesse período ou deveria ter-me afastado de vez da Associação ou não ter exercido as funções que exerci.





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