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"Temos de deixar de ser o país do faz de conta"

Edição de 15 de março de 2019
 

Entrevista a Paulo Sande

Programa completo


16-03-2019
 

Paulo Sande é cabeça de lista ao Parlamento Europeu pelo partido Aliança, de Pedro Santana Lopes. Numa passagem por Viseu, em ações de pré-campanha para as eleições de 26 de maio, e em entrevista exclusiva ao Jornal do Centro, questiona a forma como foram gastos os milhões de euros que Portugal tem recebido da Europa, a necessidade de haver uma maior fiscalização e as verbas “desviadas” do in terior do país. Assume que é uma grande responsabilidade ser o primeiro candidato do Aliança a ir a votos.

Para chegar a Viseu, veio pelo IP3. Como é que depois de tantos anos a recebermos milhões de euros de fundos europeus ainda temos uma estrada tão degradada a ligar Viseu e Coimbra, duas das principais cidades do interior de Portugal?

Não se percebe que estas duas cidades, das mais importantes do interior, não tenham uma ligação fácil. Este é um exemplo das nossas preocupações sobre o que está a acontecer em Portugal, nesta relação entre o litoral e o resto do país. E esta é uma das razões da minha candidatura, que para além de um desafio exaltante, espero ajudar a que os portugueses tenham acesso a informação que tem estado um pouco distante para não dizer escondida. Portugal recebeu da Europa, durante 30 anos, 133 mil milhões de euros a fundo perdido. Não foram emprestados, foram dados para aplicar e colocar o país mais próximo do desenvolvimento europeu e para que os portugueses vivam cada vez melhor.

E temos conseguido essa aproximação?

Depois de um período de convergência, temos, infelizmente, nos últimos 20 anos assistido a um retrocesso…

Estaríamos melhor fora da Comunidade Europeia?

Sem Europa estaríamos certamente muito pior. O mundo hoje é outra coisa. Nós somos a Europa.

Mas os cidadãos olham para a Comunidade Europeia como uma coisa distante que fica lá em Bruxelas…

Neste novo partido Aliança temos uma nova atitude. Os nossos candidatos a deputados, todos, sendo ou não eleitos, têm o compromisso de durante os próximos cinco anos escrutinar o que vão fazer os deputados de todos os partidos que forem eleitos para o Parlamento Europeu. Nós temos que saber o que andam a fazer sempre e não apenas no final do mandato. Isto para podermos chamar a debate os assuntos que nos interessam, que nos dizem respeito como, por exemplo, a aplicação dos fundos comunitários e os regulamentos que são aprovados na comunidade e que infelizmente só os conhecemos na fase final da aprovação. Nós vamos fazer esse escrutínio permanentemente.

Uma grande fatia dos fundos comunitários atribuídos a Portugal tem por base a existência de zonas pouco desenvolvidas, mas depois as verbas quando chegam ao nosso país são “desviadas” e aplicadas para as zonas mais desenvolvidas como Lisboa e Porto. Andamos a enganar Bruxelas?

Temos de ser responsáveis e não ser o país do faz de conta. Assumimos um compromisso e depois fazemos outra coisa…

Como é que a Comunidade Europeia permite essas situações? Ser enganada?

Bruxelas tem limites sobre o que pode exigir a Portugal. Devemos exigir a nós próprios. Nós temos a obrigação de cumprir com o que nos comprometemos. Temos que exigir transparência para evitar formas encapotadas de financiamento público. Os fundos comunitários não podem servir para pagar despesa de funcionamento do Estado, deixando de lado o investimento económico. O desenvolvimento só se faz com as empresas.

Os autarcas e os governantes não gostam desse discurso. Reclamam sempre para eles a gestão e aplicação de mais e mais fundos comunitários...

O investimento tem de ser reprodutivo. Viseu é um dos exemplos no país pelo número das famosas rotundas. O investimento feito nessas obras substitui o que podia ser feito, por exemplo, na área da educação, criando outros pólos de desenvolvimento regional, com capacidade produtiva para a fixação de jovens? Como é que isso se faz? É investindo em rotundas ou ajudando e estimulando as empresas reprodutivas…

Com esse discurso vai ter sérios problemas com os futuros autarcas do Aliança…

Os interesses instalados tem que ceder perante o interesse maior das pessoas e do país. Porque, de facto, é preciso escrutínio e rever os critérios de atribuição de fundos e garantir que chegam verdadeiramente ao interior. Temos que deixar de ser um país do litoral e passar a ser um país global.

É o primeiro candidato do partido Aliança a ir a votos. Sente, por isso, uma responsabilidade maior?

Tenho consciência disso. O líder do partido, Pedro Santana Lopes, é muito importante neste projeto. São precisos partido novos, mas para ter sucesso, devido ao conservadorismo, tem que ter alguém conhecido que seja a âncora do projeto e que saiba juntar nova gente, nao apenas gente nova, à iniciativa. Sei que é um desafio difícil, tinha e tenho a minha vida resolvida, mas penso que todos temos a obrigação de fazer alguma coisa por este país que amamos. Pode ser piroso o que digo mas é o que penso e sinto.

Paulo Sande

Consultor Político do Presidente da República (desde Março 2016, suspenso em fevereiro de 2019). Professor convidado do Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica Portuguesa, curso de Ciência Política, regente de Construção Europeia (desde 2000). Foi administrador, e posteriormente diretor, do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal. Com uma vasta experiência em relações internacionais, foi também responsável pelo Sector Português da Informação do Parlamento Europeu no Luxemburgo e presidente da Câmara de Comércio de Portugal em Moçambique durante quatro anos.

É também membro do Conselho Superior do Movimento Europeu e consultor do Conselho Coordenador da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social de Portugal, onde coordena grupos de trabalho para a reforma do sistema político e para a União Europeia.





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