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Uma aldeia parada no tempo

Edição de 24 de maio de 2019
24-05-2019
 

Numa das encostas da cidade de São Pedro do Sul, rodeada pelo Rio Vouga, fica a aldeia de Bandulha. Outrora habitada por 30 a 40 pessoas, hoje resta a beleza da paisagem e a “guarda” de José Pedro com o seu cão Rex. É o único habitante que mantém viva e cuida da aldeia. Bandulha está a 15 quilómetros da cidade de São Pedro do Sul, rodeada de natureza é mais um dos exemplos da desertificação das aldeias em Portugal. É uma aldeia com habitações em granito e quintas primitivas, mantendo-se a arquitetura e o espaço circundante com o aspeto original.

Em tempos remotos eram cerca de 10 famílias. Era uma das aldeias mais habitadas da freguesia de Arcozelo. Entre crianças e adultos, havia convívios, reinava a entreajuda, havia festas, prevalecia a felicidade, como lembra, José Pedro, o único que ainda vive na aldeia e que tem à volta dos 50 anos. “Antigamente era muita gente. Eram 30 ou 40 pessoas, agora ficou, assim, abandonado... estou cá sozinho”, desabafa.

O caminho era de difícil acesso, cheio de buracos, e quando chovia nem sequer se conseguia passar. Não havia padeiros, nem carrinhas de transporte de alimentos, ou melhor, havia mas não iam lá. As famílias tinham que se deslocar até Arcozelo para comprar o pão e outros bens essenciais a uma pequena mercearia que lá existia, (que também acabou por fechar).

A antiga escola, uma das mais bem posicionadas da época, rica em natureza, diversão e crianças, era uma fonte de alegria para os que lá viviam, principalmente para os mais velhos, que se punham à janela a ver as crianças brincarem. Era o jogo da macaca, da apanhada, futebol humano, jogo do berlinde, ou até mesmo às escondidas, era uma animação proporcionada pelos mais pequenos. Nada mais encantador que ouvir as crianças a dar gritos de alegria com os amigos. Quando chegavam da escola, deixavam as coisas em casa e iam mergulhar ao rio, lembra quem por lá passou.

Anos mais tarde construiu-se um parque de merendas, por ser um sítio calmo e acolhedor, fizeram-se uns bancos, uma churrasqueira à moda antiga e um escorrega para os mais novos brincarem, apesar do caminho ser de difícil acesso e na maioria das vezes ser percorrido a pé, era ali que se juntava muita gente, tanto da terra, como oriundos de terras vizinhas.

“Havia quintas de agricultura enormes, que muitas das vezes era o meio de sobrevivência de muitas das famílias que lá habitavam. Colhiam-se os alimentos, as crianças ajudavam os pais na colheita, em dias de maior azáfama, como vindimas ou na apanha das batatas, juntavam-se os vizinhos, entreajudavam-se e junto à noite jantavam”, descreve José Pedro. Todos os anos era celebrado o dia da família, um evento que continuou até há oito anos. “Juntavam-se os pais, os filhos, netos e bisnetos, assava-se a sardinha e comia-se junto ao rio, ou em casa de alguém, era uma alegria”. Em 20 anos, tudo foi mudando. Uns casaram, outros saíram e houve quem procurou outros sítios com melhores condições de vida.

A verdade é que já nada permanece igual. As casas estão a ruir, os caminhos a degradar. “Os últimos a sairem foi o Bruno e os filhos... os meninos eram a única esperança de dar vida à aldeia um dia mais tarde”, confessa nostálgico.

Há mais ou menos cinco anos, alcatroou-se a estrada, alargaram-se os passeios. Facilitou a vida a muita gente, no entanto, já ninguém lá vive. E o rio deixou de ser um ponto de visita, pois o único caminho que dava para passar encheu-se de ervas e só cortadas é que permite de novo o acesso.

Da Bandulha para Arcozelo

Já em Arcozelo, a escola acabou por fechar por falta de crianças. As poucas que lá vivem tiveram que ir estudar para S. Pedro do Sul. A antiga escola estava inicialmente pensada para casas para pessoas sem-abrigo ou com poucas condições financeiras, mas, mais tarde, mudou-se de ideias, e construiu-se um centro social que hoje ainda não entrou em funções.

O único dia em que a aldeia recebe imensos visitantes é na festa da padroeira, Santa Eufémia. Se no dia da Santa, 16 de setembro. for a um domingo, ou no domingo logo a seguir a esse dia, as pessoas chegam de todo o lado, é das maiores festas da região. É uma santa em que toda a gente tem fé e acredita nos seus poderes. A procissão é desde a capela de São Pedro do Sul, até a capela de Arcozelo, cerca de 10 quilómetros a pé, acompanhada pela banda filarmónica. A tarde é cultural com a presença de ranchos folclóricos, venda de regueifas, leilão dos bolos oferecidos pelas pessoas, e karaoke. Muitas dessas pessoas aproveitam para visitar a Bandulha e comerem no parque de merendas.

E de volta à aldeia

Apesar de desabitada e obstruída, a Bandulha ainda é visitada por aqueles que gostam de fazer caminhadas pela natureza, andar de bicicleta ou, até mesmo, conhecer, como diz José Menezes, um pedestre assíduo da aldeia. “Já venho passear para aqui há cerca de 10 anos e a principal razão é a paisagem, o oxigénio, a tranquilidade. Para passear isto é muito bom, agora para vir de carro já não perco o meu tempo”.

Para aqueles que já lá moraram durante muitos anos, é sempre uma alegria visitar aquilo que um dia se deixou para trás, em busca de uma vida melhor. Agora, é tempo de mostrar aos filhos a sua aldeia natal ou o que resta dela. “Sempre tive orgulho da minha aldeia, mas precisava de ir à procura de uma vida melhor, para proporcionar o melhor aos meus filhos. Sempre que posso vou lá ver como estão as coisas, aproveito levo a família e vamos todos fazer uma caminhada”, conta Carlos Teixeira.

A Bandulha passou de uma aldeia habitada por algumas famílias para uma aldeia sombria. Apesar de só ir a casa para dormir, José Pedro garante que não a trocava por nada. “O dia passo cá pouco, trabalho mais. Aqui e só dormida, mas passo bem, trabalho as terras e assim ando entretido com o meu cão. Se me oferecessem um apartamento em S. Pedro eu não ia aceitar, gosto muito do meu sossego…”, assegura, reforçando a ideia de não ter medo de lá morar sozinho. “Não, não há medo nenhum, ninguém me faz nada”, diz convicto.





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