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O património monástico do Vale do Varosa

Edição de 28 de junho de 2019
30-06-2019
 

Ao percorrer o Vale do Varosa avista-se o Mosteiro de S. João de Tarouca, situado na encosta da serra de Leomil. Quem visita o complexo inicia a viagem no Centro Interpretativo. “É importante começar aqui para compreender toda a arquitetura e vivência do Mosteiro de S. João de Tarouca”, começa por dizer Patrícia Brás, técnica do Museu de Lamego, instituição responsável pelo complexo monástico.

Em 1996 deu-se início à recuperação do Mosteiro, classificado como Monumento Nacional, uma das maiores e mais complexas escavações arqueológicas que se estende por mais de 3 mil metros quadrados e nove anos de descobertas. A escavação ininterrupta pôs “a descoberto a planta original do Mosteiro medieval, bem como a evolução da arquitetura do mesmo. Isto permitiu chegar à reconstrução tridimensional do Mosteiro de como seria”, refere Patrícia Brás, enquanto se observam as imagens num dos painéis interativos.

Dos objetos encontrados na escavação a guia destaca dois que considera serem “descobertas únicas no mundo”: um anel de oração em prata (com um conjunto de letras maiúsculas à volta que correspondem ao início de versos e tudo junto dá uma oração) e uma panela de barro.

O edifício que ainda se mantém de pé

A Igreja do Mosteiro de S. João de Tarouca era o espaço mais importante do mosteiro cisterciense. Começou a ser construída no período medieval, em 1154, mas o que se observa hoje é o resultado da reformulação a partir do século XVII. “No período medieval, uma igreja cisterciense não tinha qualquer espécie de elemento decorativo. Não era permitido aos monges terem esses elementos porque se considerava que os distraíam no caminho que tinham de percorrer até Deus”, clarifica Patrícia Brás.

A Ordem de Cister seguia a máxima do ora-elabora: oração e trabalho. Por isso, a arquitetura cisterciense vai espelhar a divisão entre monges professos e conversos. “Assim, vamos ter na igreja portas diferentes de acesso para monges professos e conversos. Geralmente, a ala dos professos desenvolvia-se à cabeça da igreja – podemos imaginar que se eles se dedicavam à oração, tinham de ter uma porta de acesso diretamente do complexo monástico até à igreja – e a dos conversos, responsáveis pelo trabalho, era pelos pés da igreja, uma porta que ainda hoje é possível ver, mas que está emparedada”, esclarece a técnica.

Dentro da igreja é possível observar, também, os painéis de azulejo das olarias de Lisboa que, segundo a guia, narram a lenda da fundação do Mosteiro. “No caso do mosteiro de S. João de Tarouca, um raio caía todos os dias no mesmo lugar. Assim foi decidido o local da construção do mosteiro. Mas, fugindo da lenda, a realidade não era esta. Para a construção do mosteiro cisterciense, havia duas condições essenciais: ser num vale encaixado, fértil, perto de um curso de água, para garantir a autossuficiência; estar afastado dos aglomerados populacionais para cumprir o princípio de isolamento”, conta.

As ruínas monásticas

O ano de 1834 ditou a decadência do Mosteiro de S. João de Tarouca. As dependências monásticas foram vendidas em hasta pública e os seus edifícios explorados como pedreira até ao início do séc. XX.

Do miradouro é possível ter uma visão global sobre a ruína e área arqueológica. O complexo monástico foi sofrendo alterações ao longo do tempo, principalmente a partir da reestruturação da Ordem de Cister a nível nacional. Destaca-se o colossal dormitório do séc. XVIII que tem a curiosidade de ser “uma espécie de, permitam-me, duplex. Tem uma área de descanso e outra de trabalho”, comenta Patrícia Brás. Também no final do séc. XVII foi construída a noviciaria porque o Mosteiro foi um importante foco de formação.

Para terminar a visita pode, ainda, percorrer o caminho até à cerca de clausura e visitar o projeto do horto monástico que permite devolver a paisagem do séc. XVIII ao Mosteiro de S. João de Tarouca.





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