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Ritual da "Soenga" do nascer ao pôr do sol

Edição de 10 de maio de 2019
12-05-2019
 

É já no próximo fim de semana, nos dias 17 e 18 de maio, que se procede à cozedura tradicional de louça de barro preto em Tondela

O cerimonial da “Soenga” começa logo de manhã muito cedo, quando surgem no horizonte os primeiros raios de sol. Todos querem fazer parte de um acontecimento nobre e ancestral. É a hora dos oleiros colocarem na sequeira as peças de louça em barro preto “a cozer”.

Como todos os anos, o ritual da “Soenga” repete-se à hora certa, dando-se início a um complexo processo de cozedura de peças antigas, estragadas ou partidas que são reunidas todas juntas numa grande cova aberta no chão. A louça negra de Molelos tem de ser aquecida antes de se iniciar a cozedura propriamente dita.

O objetivo “é não estoirar”, aquando do contacto inicial com o lume, sempre forte e violento. E como os antigos sabem, as práticas de um saber fazer que em tudo foi recuperado por uma nova geração de oleiros. A iniciativa pertence, mais uma vez, à Câmara Municipal de Tondela em parceria com a Junta de Freguesia de Molelos, as olarias Artantiga, Olaria Moderna e Barraca dos Oleiros, que todos os anos se lançam neste desafio de, mais do que recriarem os ambientes de outrora, em homenagem aos antepassados oleiros da freguesia, realizam com a arte e mestria de jovens artesãos e ceramistas, uma grande cozedura em soenga.

“A soenga também tem cheiro”

O auge da “Soenga” surge quando a temperatura no interior do buraco/cova pode atingir entre 850º e os 900 graus celsius, depois de cobrir com terra a totalidade área onde acontece a cozedura. “É a redução - pela ausência de oxigénio no seu interior - que leva às transformações físico-químicas dos óxidos metálicos componentes das argilas, e em última análise, à cor negra da louça”, como contam os artesãos habituados a esta arte antiga.

Aquando da abertura do buraco, ou cova, cerca de seis ou sete horas depois sente-se um odor a monóxido de carbono que paira no ar. Como diz a tradição e afirmam os antigos: “cheira a soenga”.

Só depois do sol poente, por volta das 19h30, é que a população se costuma concentrar ao redor da “Soenga”, para assistir à desenforna. Com pás e enxadas, os oleiros retiram cuidadosamente a terra e os pedaços de torrões que ainda resistiam.





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