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Veja o vídeo: em Molelos há uma linguagem secreta

Edição de 2 de agosto de 2019
03-08-2019
 

Há mais de 100 anos o povo de Molelos criou um dialeto próprio – o galramento - que tinha a ver, essencialmente, com trabalho. “O ofício mais importante que temos na nossa terra é o caiador (trolha). Embora hoje a palavra caiador esteja em desuso, há um século esta era a arte com que se ganhava dinheiro”, começa por dizer António Coimbra de Matos, também conhecido como Macarinho, um dos impulsionadores do galramento.

António Marques Dias, apelidado de “Typer”, conta que começou a trabalhar como caiador aos 11 anos e já existia o dialeto. “Quem o falava na altura já tinha entre os 50 e 60 anos, por isso isto já é capaz de ter um século de existência. Quando entrei no ofício, aprendi a linguagem. Adaptei-me e ao longo dos anos fui aprendendo e demos continuação ao dialeto”, narra.

A origem do galramento

A maioria dos termos advêm do latim, mas podem derivar do espanhol, francês ou inglês. “Perna, em francês, é ‘jambe’. Nós dizemos gâmbia. É parecido”, diz António Macarinho, acrescentando que o dialeto nasceu de “um embrulho de palavras”.

O Caramulo foi preponderante para a história do galramento. “Íamos daqui de baixo (Molelos) até ao Caramulo trabalhar. Os sanatórios foram construídos, praticamente, por gente de Molelos. Havia esta maneira de falar para esconder qualquer coisa dos patrões e, na altura, também da velha senhora – da polícia, como a PIDE por exemplo – em que se tinha de omitir o que se falava ou pensava para não ser preso”, explica.

A linguagem funcionava, portanto, para que aqueles que se encontravam numa hierarquia superior, no que toca ao trabalho, não compreendessem o que os empregados diziam. “Havia cinco pessoas a trabalhar num andaime, mas um avistava o patrão e logo dizia ‘Augaciar polace o caneiro’. Portanto o patrão não percebia nada e nós sabíamos que ele se aproximava”, exemplifica António Macarinho.

Esta linguagem secreta caracteriza o povo de Molelos. Antigamente era utilizada no contexto de trabalho, não só pelos caiadores mas também pelas sardinheiras (peixeiras) que subiam à serra. Apesar de ser mais utilizada pelos homens, as mulheres compreendiam-na devido ao companheirismo. “As peixeiras já que iam connosco até ao Caramulo, com a canastra à cabeça, ouviam os diálogos e mais tarde falavam de forma tão correta quanto os caiadores. Até no preço da sardinha ou carapau introduziam termos”, comenta.

Hoje, apesar de estar incrementada na juventude, segundo um dos habitantes que ainda sabe o dialeto, a gíria já não é utilizada nas ocupações. E não é só na gíria que há diferenças entre ser caiador há mais de meio século e agora. “Íamos a pé daqui ao Caramulo, cerca de 12 quilómetros, com uma bolsa às costas e descalços. Tinha a ver com uma tradição... e depois a porrada que levávamos. No trabalho estávamos sempre a levar. O caiador, a partir da altura em que tinha 18 ou 19 anos já era um oficial e batia aos pequenitos – galfarrito (rapazito)”, lembra António Macarinho.

O dialeto, sempre associado a cargos, tem como palavras mais importantes “augaciar” e “polace”. Os termos que, para este molelense, se aplicam em todas as histórias faladas no galramento. O “gista” era o mestre ou o professor e o “caneiro” o patrão. Já o “mocas” era o padre. Quando aplicavam estas palavras, alertavam os outros de que chegava alguém superior.

O secretismo do dialeto de Molelos tinha, também, a ver com confiança. “Ai de alguém que desvendasse o segredo. Ninguém podia contar ao patrão, senão era logo uma malha”, remata em tom de brincadeira.

As novas gerações

Os jovens, atualmente, têm noção desta cultura. Há pouco tempo a Escola Secundária de Molelos promoveu um convívio entre alunos do estabelecimento de ensino com António Macarinho e com pessoas da terra para dar a conhecer o dialeto.

“Nesse contexto, juntou-se uma plateia de velhotes e miúdos. Muitos deles já sabiam o que era. Foi engraçado ver os alunos a ouvir, com atenção. Alguns até sabiam responder a questões”, diz o dinamizador. Segundo o próprio, deve arranjar-se formas de não perder o dialeto, sobretudo através das escolas, ainda que hoje já se vai falando mais um pouco. Uma das formas que Macarinho encontrou para promover a linguagem foi falar assim nos sítios locais, por exemplo.

Mas já antes, quando nos anos 70 se mudou de malas e bagagens para o Luxemburgo, foi a partir deste país que escreveu alguns textos no dialeto de Molelos que depois eram divulgados em publicações tondelenses. Da sua autoria constam canções, poemas ou pequenas narrativas. “Galfarrito” é um dos poemas e que pode depois ver e ouvir Macarinho a declamar na reportagem que a Aqui TV fez no local.

Já António Typer diz que não precisou de passar as aprendizagens aos filhos. “Quiseram, aprender, foram perguntando, a mim e aos mais velhos, e deram continuidade”, explica. “Eles juntam-se com grupos de amigos e vão falando assim”, acrescenta.

Para dois dos guardiões desta linguagem, o dialeto de Molelos deve passar de gerações.

 

Veja a reportagem em Aqui TV

 

 

Algumas palavras do dialeto de Molelos

Augaciar - cuidado, atenção

Canavarra - cântara

Fagonhir - cozinhar

Gavia/o - rapariga/rapaz

Lanfiar - comer

Zular - beber água





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