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A história da cidade desvendada de obra em obra

27-07-2019
 

Depois das evidências arqueológicas da muralha romana de Viseu, encontradas junto à Rotunda de Santo António, acreditava-se que, na artéria mais conhecida por “Rua das Bocas”, seriam encontrados novos contributos para a clarificação da história da cidade. As obras de requalificação da Rua João Mendes contaram com a supervisão arqueológica do Município de Viseu, da Direção-Geral do Património Cultural e da empresa Arqueohoje, sob a coordenação da arqueóloga Sónia Cravo. Segundo Sónia Cravo, encontraram-se indícios de estruturas habitacionais, mas para já não há certezas, uma vez que os materiais ainda não foram estudados, no entanto, crê-se que sejam do período Baixo Imperial (século. IV). “São dois ou três compartimentos que não pertenciam à muralha, mas como não alargámos a vala, não conseguimos precisar se estavam dentro ou fora da mesma”. A informação descoberta pode vir a alterar a orientação da cintura muralhada, “mas é uma questão de metros”, diz Sónia Cravo. “Não conseguimos ver para que lado vai a muralha e não havia condições para recolher material que possam trazer grandes revelações”, clarifica. A arqueóloga explica que quando este tipo de trabalhos de acompanhamento é feito, em contexto de obras, está condicionado aos espaços da mesma.
Só em casos excecionais é que há alargamentos, mas contudo é impossível. “O tamanho da vala é mais ou menos do tamanho da rua, não dá para abrir mais”, refere, salientando que o que agora está a ser feito não é um trabalho de investigação, mas sim de minimização de impacto. “É muito complicado por causa das linhas de água e de saneamento, temos que registar tudo muito rapidamente, e é difícil de ver, porque a vala tem sempre água”, esclarece. A obra que vai desde a Rua João Mendes está quase a chegar à Santa Cristina, mas segundo a responsável, nesse local, a muralha está por baixo de um saneamento com “imenso” caudal. Sónia Cravo conta que foi feito o levantamento topográfico, todavia a informação ainda não foi tratada, uma vez que os trabalhos estão em curso, sendo por isso prematuro tirar conclusões.

Distinguir o valor histórico do patrimonial

Na opinião do arqueólogo Pedro Sobral, fundador da Eon, Indústrias Criativas, dedicada à gestão de projetos museográficos e à valorização de sítios e monumentos arqueológicos, “a grande novidade” nas descobertas feitas agora é o facto de a muralha aparecer na rotunda de Santo António, em direção à Igreja de Santo António”. Quanto à musealização do que apareceu na rotunda, o arqueólogo Pedro Sobral acredita que “não se pode valorizar tudo por sistema”. “Se valorizarmos todos os vestígios, mesmo aqueles que estão muito destruídos, quando aparecer um vestígio digno de ser restaurado, já não há aquele impacto para o proteger”, defende. Segundo Pedro Sobral, “é preciso ter a noção da importância patrimonial. Um achado pode ter uma importância científica grande, mas não ter valor patrimonial e um valor turístico fraco”, explica, ressalvando que “o importante é fazer os registos e publicá-los nos meios científicos e de divulgação”. “Não havia dinheiro que chegasse se nos puséssemos a musealizar tudo o que aparece”, conclui. Para o arqueólogo os achados dão pistas diferentes sobre a passagem da muralha, mas são dados sobretudo de ordem teórica e científica, sem grande valor patrimonial.





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