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"Demorei demasiado tempo a aceitar que era diferente"

Edição de 12 de abril de 2019
13-04-2019
 

Foi na Feira de Emprego do Palácio do Gelo, onde conheceu Pedro Silva-Santos, que lhe foi lançado o desafio de criar o seu próprio emprego. Mas o clique deu-se quando, depois de participar numa palestra, sentiu necessidade de agradecer o carinho que sentiu.

Optou por um vídeo, uma vez que não dependia de ninguém para o ajudar. Em outubro de 2018 abriu o seu canal de Youtube intitulado “Tecla 3”. “Tecla 3”, que para quem não se lembra, durante muito tempo se associou a um insulto, dirigido a pessoas com deficiência.

Isto porque nos antigos telemóveis com teclas, no número 3 está a inscrição DEF, que se transformaria na abreviatura da palavra “deficiente”. Pedro tem paralisia cerebral, epilepsia e dislexia.

Aprendeu a ler no 9.º ano

Desde cedo que Pedro percebeu que era diferente, contudo, a aceitação não foi fácil, como lamenta o jovem. “Demorei demasiado tempo a aceitar que era diferente, é a única coisa de que me arrependo”, conta. Quando descreveu o seu percurso escolar usou apenas uma palavra “atribulado”. Recorda a escola primária como “o período mais difícil” da sua vida. Sempre que queria brincar e correr, tropeçava e caía – “Dia sim, dia não, rasgava umas calças”. Aprendeu a ler apenas no 9º ano, mas isso não o impediu de seguir o curso profissional na área da multimédia.

“A Mariana Seixas foi o ponto de viragem na minha vida, tanto em termos de instrução, como em relacionais. Finalmente pude mostrar conhecimento. Eu podia não saber ler, mas sabia formatar um computador”, revela Pedro Teixeira.

E foi no liceu onde viveu um dos momentos que mais orgulho lhe dá, aquando da apresentação da sua Prova de Aptidão Profissional (PAP) com um colega. A esta ocasião, Pedro juntou a sua missa de finalista no ensino superior.

Segundo o youtuber, “Já consegui algumas coisas, mas quero sempre mais, sou ambicioso”, e foi isso mesmo que o levou a aventurar-se no ensino superior. Confessa que nunca foi o seu sonho tirar uma licenciatura, mas queria mais uma vez, pôr-se à prova. Fez os respetivos exames de ingresso e não quis acreditar que estava aprovado, “pedi à minha mãe para ir confirmar”.

Ingressou em Artes Plásticas e Multimédia, na Escola Superior de Educação de Viseu, curso que concluiu em julho do ano passado e que provou a ele, e a todos, de que era capaz de tudo. “Quando ouço alguém dizer que não consegue, dá-me vontade de ir lá, fazer e dizer ‘está aqui’. Acho que ainda me dá mais força. Já me aconteceu tantas vezes. As pessoas engolem em seco”, remata Pedro.

A vida é um "unboxing"

Devido à dislexia de Pedro, é o tio ou o pai quem o ajudam tanto na escrita, como na leitura. Foi essa a razão pela qual escolheu o Youtube para ser a sua plataforma de trabalho, visto não depender de ninguém para lhe rever textos. Como explica o jovem, “gosto de transformar uma limitação em desafio e os desafios são para ser ultrapassados”.

O tema principal do canal “Tecla 3” é a deficiência e Pedro mostra-se orgulhoso com o mesmo. “Hoje em dia, chamarem-me tecla 3 é uma coisa boa, significa que vêem o meu canal, que reconhecem o meu canal”. O seu criador assume que os vídeos que mais gosta de fazer são os de unboxing, onde dá a conhecer aos subscritores produtos adaptados a pessoas com vários tipos de deficiência. Talvez porque a sua vida se assemelhe a um unboxing, sendo que se “atira de cabeça, sem nunca saber o que de lá pode surgir”, como o próprio afirma.

Pedro confessa que o vídeo em que mais orgulho tem é o “Feliz Dia do Pai”, que contou com diversos apoios e que consistiu numa ação de sensibilização. Neste momento, o jovem está a promover uma iniciativa de angariação de fundos, que termina a 17 de maio, para conseguir comprar material de vídeo que o permita elevar a qualidade do seu trabalho. No caso de Pedro não conseguir reunir o valor a que se propõe, os donativos retornam, ficando sem nada.

Lidar com o preconceito

O jovem conta dois episódios que o marcaram especialmente. Por duas vezes, a sua condição foi confundida com estado de embriaguez. Uma delas por dois homens que se encontravam na rua a fumar, a outra, pelo segurança de uma discoteca que não o deixou entrar por achar que não estava “em condições”. Pelas duas vezes, Pedro decidiu responder à letra, “sempre com educação e respeito” salienta. Mas, no geral, o jovem diz que sempre sentiu apoio por parte de quem o rodeia, realçando a família e os seus colegas de secundário e universidade.

O youtuber diz que não quer servir de inspiração a ninguém, o seu objetivo é outro: “Quero que a palavra deficiência deixe de ser tabu. Eu sou deficiente, ponto final parágrafo. Não sou especial, não sou diferente, sou deficiente”.





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