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Edição impressa: gestos diferentes que nos fazem iguais

Edição de 8 de novembro de 2019
08-11-2019
 

O Agrupamento Grão Vasco é uma das escolas de referência em Portugal que tem a valência da Língua Gestual Portuguesa (LGP), de forma a proporcionar um bom ensino a 13 alunos surdos. Mas o que para muitos parece fácil, é trabalhado por uma equipa que envolve professores, intérpretes e uma terapeuta da fala

Desde que o Agrupamento de Escolas Grão Vasco se agregou com o de Marzovelos, herdou as valências que existiam naquele agrupamento, entre elas o ensino a alunos surdos.

São 13 os estudantes que têm aulas um pouco distintas das ditas “normais”. A intervenção começa numa fase precoce, pré-escolar, e, neste agrupamento, termina no terceiro ciclo (9º ano de escolaridade).

Ângela Abreu, professora de Língua Gestual Portuguesa, tem como função ensinar alunos surdos para que tenham esta língua como a sua primeira ou segunda. Aqueles cuja primeira língua é a gestual, são ensinados mediante o currículo lançado pelo Ministério da Educação. Já os alunos que têm a língua gestual como segunda, não seguem esse mesmo currículo. “Infelizmente não há nada aprovado ou lançado, acabamos por ajustar [o ensino] às necessidades deles, em articulação com os professores de outras disciplinas, e abordar um pouco as temáticas que vão aprendendo e trabalhando”, começa por explicar Ângela Abreu.

Dependendo de vários fatores, todos têm dificuldades e atingem determinados objetivos, mas daí a importância da intervenção precoce. “Quanto mais cedo aprenderem a língua gestual, mais cedo conseguem avançar”, finca a professora.

A terapeuta da fala, Joana Almeida, acompanha as crianças desde a intervenção precoce até ao 9º ano. É responsável pela avaliação e intervenção na área da comunicação, linguagem, fala e reabilitação auditiva. O seu trabalho depende de fatores como a idade ou a fase em que as crianças se encontram. No entanto, realiza exercícios à base da “discriminação auditiva, ensinar a ouvir através de diferentes sons de fala e ambiente, dos fonemas”, explica.

Alexandra Santiago e Rita Gonçalves são intérpretes de Língua Gestual Portuguesa. Têm como função estar presentes nas aulas lecionadas a traduzir aquilo que o professor diz oralmente para língua gestual aos alunos surdos e vice-versa. No entanto, o trabalho não é apenas dentro das salas de aula, é também fora. Acompanham os alunos em visitas de estudo, ações de sensibilização ou situações como ir à secretaria ou reprografia, uma vez que “há conceitos em que não se conseguem exprimir nem compreender da parte de outra pessoa”, esclarece Alexandra Santiago.

As intérpretes são, também, uma espécie de abrigo para os alunos, pois chegam até elas, para desabafar ou pedir algo com mais facilidade do que a um professor ou funcionário. “Passamos tantas horas com eles que já é quase como se fossem nossos ‘filhos’”, brinca a intérprete.

Helena Maia é professora de Educação Especial. Desde o início da sua carreira que trabalha com alunos surdos. Uma das coisas que destaca é a “ótima relação” que existe com os pais. “O caso mais antigo é de uma criança em que começámos a intervir aos 6 meses e agora está aqui [na escola]. É um caso de sucesso porque os pais vinham com a família, ama, amigos e deslocavam-se para aprender língua gestual também”, comenta.

A integração na comunidade escolar

O trabalho é desenvolvido dentro e fora da sala de aula. Os 13 alunos surdos estão integrados nas salas regulares e essa é, segundo Joana Almeida, terapeuta da fala, “a grande vantagem do bilinguismo”. “[Os alunos] conseguem estar totalmente integrados em ambientes de crianças ouvintes e com pessoas surdas. Acaba por ser uma ponte entre os dois mundos”, sustenta.

Em dias comemorativos são sempre realizadas atividades em equipa, tanto em turma como para todos os estudantes, em qualquer uma das escolas integradas pelo agrupamento, e que demonstram a importância do convívio com ouvintes. “Os alunos gostam de aprender e perguntam como se dizem certas palavras mais básicas”, conta Rita Gonçalves. “Mesmo até em sala de aula por uma partilha de um lápis vêm até nós para aprender a dizer algo como ‘obrigado’ ou ‘desculpa’. Eles próprios têm curiosidade e querem aprender”, acrescenta Alexandra Santiago, a outra intérprete.

Exemplo disso é, também, um espetáculo que envolveu dança, teatro e outros momentos e que foi totalmente traduzido pelas intérpretes de forma a que ninguém seja excluído da comunidade escolar.

O processo de inclusão

As crianças surdas sempre utilizaram gestos para se exprimirem, mas de forma escondida porque era proibido. Antigamente, eram colocadas em centros católicos, orfanatos, entre outras instituições, o que as isolava do resto da comunidade. “Por um lado era bom porque comunicavam entre eles e desenvolviam a língua gestual. Muito do que se conhece hoje surgiu aí, mas nas aulas e em frente aos professores eram proibidos de gestualizar e tentava-se a oralidade. Isto aconteceu durante muitos anos, até perceberem que não era o caminho”, narra Ângela Abreu. Depois dos núcleos de apoio a crianças deficientes auditivas e unidades de apoio a alunos surdos, o Ministério da Educação estipulou a criação de determinadas escolas de referência integradas nalguns agrupamentos do país.

Os alunos surdos de vários pontos do distrito são deslocados das suas residências até ao Agrupamento de Escolas Grão Vasco. “Temos alunos de todo o distrito porque é importante essa união dos surdos no mesmo espaço físico, até para rentabilização de recursos e ensino da língua gestual... se estivessem isolados nas suas escolas, não seria possível. E, por outro lado, continuam na mesma integrados com alunos ouvintes e tudo de bom que isso traz”, justifica a professora de Língua Gestual, comentando ainda que na altura em que as crianças estavam isoladas, muitas “achavam que não iam chegar a adultos porque não conheciam outros surdos, nem outra realidade”. A inclusão no mesmo agrupamento permite a inter-relação entre crianças surdas e outros adultos, como o caso da outra docente que leciona Língua Gestual e é surda.

Além da inclusão nas escolas de Viseu, a equipa responsável pelos estudantes surdos tenta, sempre que pode, participar em convívios e encontros, noutros pontos do país, para proporcionar momentos de partilha e interação.

E como vê a sociedade estes casos?

A grande ambição destas profissionais é conseguir, ao máximo, integrar os surdos na comunidade. O que esta equipa gostaria de concretizar é o seguinte: que o Ministério da Educação introduza no currículo a Língua Gestual Portuguesa, da mesma forma que é lecionado o Inglês ou Francês. Assim, haveria “bilingues na vida de todos desde pequenos”. “As pessoas saíam formadas com conhecimentos de língua gestual como os médicos, os juízes, etc... assim eles [os alunos] não estavam tão restringidos na escolha dos cursos, por exemplo”, atenta Helena Maia.

Por mais evolução que tenha havido, ainda há um longo caminho a percorrer. Joana Almeida chama a atenção para os programas de televisão. “Basta vermos os nossos programas televisivos, até de informação, que só recentemente começaram a ser traduzidos. E não são todos”, diz. “Depois a língua gestual é visual, tem características e gestos muito semelhantes”, acrescenta Ângela Abreu. A localização dos gestos ou a expressão facial são o suficiente para mudar significado de algo e é muito difícil que seja percetível na televisão.





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