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O dono do tempo

Edição de 3 de maio de 2019
03-05-2019
 

Localizada perto da Santa Cristina, a Relojoaria Suíça tem poucos vestígios de estar no século XXI. As paredes estão cobertas de relógios ingleses e franceses do século XVIII e XIX, de cuco, de corda, e até dos mais modernos das décadas de 90 e 2000. Pelas mesas estão espalhadas roldanas, bobinas, pilhas, as várias peças que compõem o coração dos relógios. A acompanhar, a música que passa na rádio que sai de um despertador antigo.

Francisco Sousa começou a reparar relógios com apenas 13 anos. Diz que não era um sonho ser relojoeiro. “Saí da Escola Comercial e foi isto que me arranjaram. Naquela altura, com 13 anos, ninguém tinha sonhos”, conta.

O reparador de relógios assumiu o controlo da Relojoaria Suíça, em 1976. Antes pertencia ao seu patrão. Hoje, com 70 anos, diz gostar muito do que faz e recorda que quando começou a trabalhar, nem relógio tinha. “Comecei como todos na relojoaria, primeiro a limpar a caixa dos relógios, depois a treinar nos despertadores e assim se vai progredindo. Em 1982, com a transição dos relógios mecânicos para os de quartzo tive de ir fazer um curso na Casa Pia em Lisboa”, lembra Francisco Sousa.

Já lhe passaram pelas mãos Rolex, Cartier, Tag Heuer, Tissot, Gucci, mas nenhuma destas máquinas marcou, particularmente, o relojoeiro “temos de ter respeito por todos os relógios”, diz. Embora admita que muitas destas marcas o fascinam.

Nos dias de hoje, e apesar da revolução digital em que vivemos, o relojoeiro confirma que tem clientes de todas as idades e discorda quando lhe dizem que as pessoas já não perdem tempo a reparar os seus relógios. “Isso é como tudo, se a pessoa tiver um relógio bom, de marca, é claro que o vai mandar consertar, são relógios para uma vida, investiram bastante dinheiro naquela peça. Se for fraco nem se vai chatear com isso”, esclarece. E acrescenta, “é claro que antigamente se mandava concertar tudo, só havia um relógio e muitas vezes até era comprado a prestações”.

O reparador destas máquinas assegura que arranja qualquer relógio, independentemente da história ou idade que tenha, “normalmente não ligo à história deles, gosto de os arranjar e ponto”.

Em tempos, Francisco Sousa foi ainda professor deste saber. “Já ensinei muita gente. Formei a maior parte dos relojoeiros na década de 70 e 80. Foi comigo que aprenderam”.

Agora, garante que nenhum dos filhos vai seguir o negócio, acrescentando que não sente pena disso. “Eles têm a vida deles e fazem o que querem, não tenho nada a ver com isso”, sustenta.

Ainda assim, Francisco acredita que este ofício nunca se vai perder, só lembra “que não pode ser aprendido como era antigamente”, mas continuam a haver escolas de relojoeiros e ainda há muitos alunos e formarem-se. E remata, afirmando, “quero fazer isto até poder”.





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