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Veja o vídeo: Rendilhar para fugir à solidão

Edição de 19 de julho de 2019
 
 

Reportagem na Associação de Rendas de Bilros de Farminhão


19-07-2019
 

Estamos a 11 quilómetros do centro de Viseu. É em Farminhão que na Associação local dedicada às rendas de Bilros, cinco mulheres se juntam para não deixarem morrer o hábito de rendilhar. Dentro da Associação, foge-se do calor e do apagar da tradição. As cinco amigas, todas já reformadas, passam, pelo menos, uma tarde por semana, juntas, a bordar com bilros.

“Durante muitos anos, as rendas estiveram paradas. E hoje não temos apoios, nem se quer dar o valor devido”, começa por dizer Ercília Coelho, a responsável máxima pelo revitalizar destes bordados. “Isto é uma arte que existe há duzentos anos, temos de lhe dar continuidade porque é o nosso dever. Antigamente, as mentes eram um pouco mais atrasadas e considerava-se que, por ensinar alguém, se perdia a renda. Hoje não. Nós sentimos que ao ensinar a fazer renda de bilros estamos a preservá-la”, assinala.

Na tarde que alia tradição e convívio, bordam-se memórias. “Venho de Canas de Santa Maria de propósito. São 12 quilómetros, mais ou menos. Quando era nova, já se faziam as rendas aqui, em Farminhão. Sinto-me bem com elas. Estamos juntas há 14 anos. Somos uma família”, diz Aida Ruas. Ao lado, focada no molde da renda, está Maria Aldina Cruz. “Fazemos o sacrifício de aqui vir, mesmo com frio, porque sabemos que, se não viermos, este costume acaba”, assinala sem largar o olhar dos bilros que manuseia para terminar a peça o mais rápido possível.

Os apoios que faltam

2018 foi o ano em que Viseu celebrou o folclore que, como na altura se lembrou, não se resume apenas às danças e cantares, mas envolve outras tradições populares, nas quais se incluem os bordados. “Tivemos a oportunidade, com o Viseufolk, de poder elevar um pouco mais estas rendas, porque não tínhamos mesmo dinheiro para nada. Inscrevemo-nos no projeto e fomos contemplados”, refere Ercília Coelho.

Farminhão vive também de forma especial o folclore. Foi desta localidade que saiu o “Flamiam”, grupo folclórico, ligado aos cantares populares. Flamiam era o nome pelo qual era conhecido Farminhão no século XIII. “Naquele momento incentivaram-nos, mas, depois, não fomos chamados para mais nada. Precisávamos de mais apoios, de ser reconhecidos. O nosso incentivo são estas senhoras que continuam interessadas em trabalhar os bilros”, lamenta.

É precisamente através do grupo folclórico que esta associação das rendas é divulgada. No entanto, estes costumes vivem muito da divulgação mediática. “Quando estive emigrada na Suíça, num dia qualquer, estava a ver um programa na televisão em que o cantor Marco Paulo estava a fazer rendas de bilros e, naquele momento, disse para as minhas colegas que, quando viesse para Portugal, ia começar a bordar, também”, recorda. Em 2005 voltou da Suíça e aprendeu logo a fazer renda. “Se não estivesse aqui e no grupo de cantares, acho que endoidecia. Vinha de um ambiente totalmente diferente e, quanto mais atividades, melhor. Alguém que, como eu, está 24 anos fora, chega a uma aldeia onde não se vê muita gente e não há grande movimento e se não se agarra a qualquer coisa, a cabeça não fica bem”, explica.

Os cavaletes da história

As plantas, que dão colorido à sala, confundem-se com as rendas que agora, além da linha branca, são tecidas com cores. “Isto é um museu vivo”, afirma Ercília. As obras estão expostas nas paredes e há um constante partilhar de memórias. Este núcleo das rendas está ligado à Associação de Solidariedade Social de Farminhão que apadrinhou o projeto do ressuscitar da tradição. Daí que, no tal dia por semana, haja constantes visitas dos utentes do centro de dia da associação. Neste dia, uma das utentes, natural de Torres Vedras, lembra as rendas de Peniche e compara-as com as de Farminhão, referindo ter memórias de ver, na sua terra natal, as bordadeiras aplicadas a tecer este artesanato.

Pelo meio, desfiam-se memórias dos tempos em que Farminhão tinha muitas mais rendeiras de bilros. Trocam-se ideias e afinam-se linhas para que nunca faltem assuntos. No meio da parede, preso com um parafuso, está um rádio que raramente é ligado. A música dão-na quem borda e quem visita as bordadeiras. “As rendas de Farminhão são tecidas ao luar, com linha branca de neve, feita de espuma do mar”, assim cantam em coro. Enquanto isso, as cinco artesãs continuam em frente aos cavaletes, as estruturas de madeira que seguram as almofadas onde se encaixam os alfinetes e os bilros.

A renda nasce da deslocação dos bilros. Neste lugar, a regra é esta: cada senhora usa quatro bilros. “O meu pai, que tem hoje 92 anos, lembra-se que uma tia lhe ensinou a fazer a “renda de vintém”, uma renda ainda mais pequena do que a de bilros, que era feita, sobretudo, para as camisas de dormir”, assinala Maria Pinheiro, que acaba por confessar que nos primeiros tempos em que bordou bilros “só via fios à frente”. O segredo, dizem, está na persistência, até porque, garantem, desde que se queira, toda a gente consegue aprender a bordar com bilros. “O convívio é saudável. Faz tão bem, gostamos de estar aqui”, reforça a artesã.

A tradição adapta-se à modernidade

Para que o hábito de bordar com bilros não acabe, Ercília Coelho ligou-se à Escola Básica de Farminhão. “Já há dois anos que eles vinham aqui, quando havia atividades sem professores. Deu um resultado fantástico. Fizeram peças para a árvore de Natal e peças por alturas da Páscoa. Fugi do hábito da renda de bilros com linhas brancas porque, da primeira vez, senti que não lhes despertou curiosidade. Para que é que eles querem panos? Para pôr numa mesa?”, questionou-se.

Foi então que deu origem a uma nova forma de ver a renda: dar-lhes cor. “Peguei em linhas de cores, dei um ar mais jovem aos bordados. Agora não se cansam de me perguntar se para o ano vai haver. É sinal de que estão interessados e que as rendas estão vivas. Gente interessada, puxa gente interessada”, diz, mostrando-se confiante no futuro. E quanto à habilidade, não pode ser medida pelo género. “Trabalharam tanto rapazes, como raparigas. E a graça está mesmo aí. Alguns rapazes ainda se portaram melhor do que as raparigas. ”, confidencia.

Esta é uma tradição cuja origem se perdeu no tempo. Em Farminhão, um grupo de pessoas luta para que não se perca de vez.

 

 

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