05 dez
Viseu

Coronavírus

Governo prometeu, mas ainda não cumpriu. Municípios avançam com testes nos lares de idosos

por Redação

11 de abril de 2020, 07:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Na semana passada o Governo garantia que dentro de dias seria estendido a todo o país o programa de testes à Covid-19 nos lares de idosos, numa operação que teve início nos distritos de Lisboa, Aveiro, Guarda e Faro. Uma semana depois, na região de Viseu, ao que o Jornal do Centro apurou, poucas foram as entidades alvo de testes, apesar dos constantes e desesperados apelos das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), Misericórdias e até das Câmaras Municipais. O Estado, através da Direção Geral de Saúde (DGS) e do INEM, optou por rastrear apenas os lares com casos confirmados da doença, como são os casos da Misericórdia de Resende e do Lar de S. José Santiago de Cassurrães, em Mangualde. Em ambos os casos, foram testados utentes e funcionários.

Preocupados com o alastrar da pandemia de Covid-19, que já matou centenas de pessoas em Portugal, várias autarquias do distrito decidiram avançar pelos próprios meios com a realização das análises a quem frequenta estas organizações que atuam no setor social.

O presidente da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social de Viseu (UDIPSSV), José Costa, lamenta a falta de realização de testes na região, mostrando-se preocupado com o problema. “Os lares são uma situação que tem que ser levada em consideração porque são os locais onde estão as pessoas mais fragilizadas e de risco. Lamento que Viseu não tenha tido essa ação governamental”, afirma.

Também o presidente do secretariado regional de Viseu da União das Misericórdias critica a inexistência de testes e a falta de equipamentos de proteção individual. “Onde estão os equipamentos que disseram que iam enviar? Onde estão os testes para realizar aos utentes e aos colaboradores? Onde estão os canais de resposta para estas pessoas que trabalham todos os dias a cuidar dos utentes?”, questiona José Tomás.

O também provedor da Santa Casa da Misericórdia de Mangualde diz estar “farto de manifestar descontentamentos” às mais diversas entidades e conta que a instituição viveu no início da semana “um momento crítico” com a mudança dos colaboradores que estiveram duas semanas a trabalhar.

“Os que chegaram foram alvo de um intenso questionário sobre com quem estiveram e onde estiveram e só não foram feitos testes porque não foi possível. Este é um momento crítico, com fragilidades associadas e que nos deixa ainda mais preocupados. Por isso, solicitei à autarquia e a um laboratório privado a realização de testes a estes colaboradores, como seria prudente. Lamentavelmente, não houve capacidade de resposta”, adianta.

Apesar de preocupado, José Tomás mantém a “esperança de que tudo correrá bem” e recorda o provérbio popular que diz que “a sorte protege os audazes”.

 

Câmaras “socorrem” IPSS

Para contornar a falta de realização de testes foram várias autarquias da região que se chegaram à frente. Uma das últimas a manifestar essa intenção foi Sátão, que promete comparticipar na totalidade a despesa do despiste à covid-19 para todos os trabalhadores dos lares do concelho e de apoio domiciliário.

“O município de Sátão envereda todos os esforços e já pediu ao Ministério da Saúde e ao coordenador regional de combate ao novo coronavírus na zona Centro para que se realizem os testes à Covid-19 a todos os trabalhadores das instituições sociais do concelho”, refere a Câmara numa nota publicada nas redes sociais, acrescentando que irá suportar “a despesa desses testes”. “Com esta medida, o município pretende travar a possível contaminação e propagação da pandemia e proteger a população mais vulnerável”, conclui.

A autarquia de Vouzela também assumiu os custos com a realização de mais de 350 testes a funcionários e utentes das instituições sociais, num investimento que visa “mitigar a possível contaminação e propagação” da Covid-19.

“Com a estratégia que tem sido seguida a nível nacional até agora, vê-se o que está a acontecer nos lares todo do país: são contaminações, as pessoas ficarem em risco e muitas delas acabarem por falecer porque são pessoas mais suscetíveis”, refere Rui Ladeira, presidente da Câmara.  

No caso de Vouzela, os testes começam em 200 pessoas e depois avançam para as restantes 150, num investimento de milhares de euros. A ideia é ter uma fotografia do que se passa nas instituições sociais para “evitar que haja uma disseminação deste vírus”. “Se houver casos positivos tem que se cumprir o que a DGS indica”, salienta ainda o autarca.

“Cansado” de esperar pelo Estado, em particular pela Administração Regional de Saúde do Norte, o município de S. João da Pesqueira também avançou com o rastreio da doença nos lares do concelho. As análises feitas permitiram identificar já um caso de infeção. Os testes foram feitos a todos os utentes e funcionários dos lares e centros de dia existentes em solo municipal, num total de 400 pessoas de cinco IPSS.

“Foi comunicado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social que iriam avançar com testes para todo o país, mas percebemos que primeiro começariam nos grandes centros, e eu até posso perceber isso, e depois é que estenderiam ao restante território e como isso tardava entendi avançar com um laboratório privado, a expensas da Câmara, para a realização de testes”, explica Manuel Cordeiro, presidente da autarquia, realçando que “os idosos e os trabalhadores das IPSS são uma prioridade e o município não poderia ficar mais tempo à espera” do Estado.

 

Mais queixas

À semelhança de S. João da Pesqueira também Armamar avançou com o despiste ao novo coronavírus, mas apenas para os trabalhadores das instituições sociais e profissionais de saúde. “A nossa intenção nesta fase é fazer uma triagem das pessoas que mantêm contacto com a população mais vulnerável, como são os nossos idosos, e daquelas pessoas que estão mais expostas, que são os profissionais de saúde. O que pretendemos fazer é esta triagem e despiste para perceber se nestas áreas tão sensíveis [lares e unidades de saúde] possam existir pessoas infetadas”, justifica João Paulo Fonseca, presidente da Câmara Municipal de Armamar.

O município vizinho de Tabuaço também manifestou a vontade de avançar com o rastreio nos lares, mas a operação que o presidente da autarquia, Carlos Carvalho, queria que avançasse com rapidez acabou por ser atrasada pela falta de reagentes para fazer testes. O autarca lamenta que até agora as promessas do Governo ainda não tenham sido honradas e que mais uma vez tenham que ser “os municípios a chegar-se à frente e tomar as rédeas”. “Nós entendemos que devíamos testar a nossa população residente, utilizadora dos lares e os seus funcionários. Infelizmente não conseguimos fazer os testes que queríamos porque eles não existem”, avança.  

O Jornal do Centro pediu explicações ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sobre a realização de testes à Covid-19 na região de Viseu, mas nunca recebeu qualquer resposta da tutela às várias perguntas formuladas.

 

Demora na realização dos exames

No distrito para além das queixas contra o Estado. Há também registo de críticas de cidadãos, com suspeitas de Covid-19, que esperam vários dias para terem acesso aos resultados dos testes que efetuaram. Ao Jornal do Centro chegaram relatos de pessoas que esperaram mais de 72 horas para saber se estavam ou não infetadas com o novo coronavírus, apesar de laboratórios, como a Germano de Sousa, garantirem um prazo inferior.

José Germano Rego de Sousa, administrador do grupo com o mesmo nome, explica que inicialmente se registaram alguns problemas devido à falta de reagentes e que levaram a um atraso das análises. “Os problemas iniciais já estão ultrapassados. Estamos a fazer testes em 48/72 horas”, refere.

Só em Viseu este laboratório, que faz a despistagem da pandemia há mais de uma semana, faz 80 testes diários. As amostras são recolhidas na cidade de Viriato, mas as análises são feitas no Porto e em Lisboa.

A Germano de Sousa garante estar “a fazer um esforço grande para aumentar a capacidade do laboratório. Por dia analisamos dois mil testes e vamos aumentar a capacidade para mais mil”, vinca José Germano Rego de Sousa, salientando que uma das grandes prioridades da empresa nesta altura são os lares de idosos, considerados locais de risco.

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