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As ruínas que conservam um túmulo e obras de mestres de Ferreirim

Edição de 9 de agosto de 2019
11-08-2019
 

Estamos na freguesia de Ferreirim, concelho de Lamego, para descobrir o Convento que é paragem obrigatória, após o Jornal do Centro explorar os Mosteiros de São João de Tarouca e Santa Maria de Salzedas.

A origem do convento “remonta a 1525, ao tempo em que o poderoso Conde de Marialva, Francisco Coutinho, doa terrenos aos franciscanos para aqui o fundarem”, começa por dizer Alexandra Falcão, diretora do Museu de Lamego, responsável pelos monumentos que fazem parte do projeto Vale do Varosa.

Ainda que o espaço seja impactante, da igreja primitiva não subsistiram muitos elementos, a não ser o pórtico principal, o túmulo dos fundadores (Conde de Marialva e sua mulher, Dona Beatriz de Meneses) e oito tábuas dos retábulos que decoravam o altar mor e laterais.

“A igreja hoje tem um aspeto completamente distinto, barroco, porque foi profundamente alterada ao longo de todo o século XVIII. As obras iniciaram-se em 1702 e durante todo o século a igreja e o convento foram convertidos num estaleiro a que ocorreram inúmeros artistas e artífices de todo o reino para participar nas obras de engrandecimento e embelezamento da igreja e convento”, explica a diretora do museu. O espaço apresenta, assim, uma estética barroca, ainda que “tenha respeitado o despojamento característico dos franciscanos numa igreja de uma só nave com transepto não saliente e o teto em madeira”, acrescenta.

A presença dos fundadores do Convento é um elemento a salientar, situado antes do altar. O túmulo do Conde de Marialva e de Dona Beatriz de Meneses é uma peça notável. “Concebido como um portal do renascimento, ainda mantém alguns elementos do período gótico, como a arca em arqueta suportada pelos leões... depois toda a restante composição evoca o renascimento”, refere Alexandra Falcão. Há um apontamento especial que, segundo a guia, passa despercebido: a presença de um friso exótico onde se veem perfis de ameríndios.

A decoração dos retábulos da Igreja

Entre 2013 e 2015 criou-se o Centro Interpretativo do Convento. Localizado no andar superior da igreja, dedicou-se uma sala aos Mestres de Ferreirim que conserva parte do conjunto retabular de inícios do séc. XVI, obra encomendada pelo Infante D. Afonso, filho de D. Manuel, e executada em parceria por Cristóvão Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes. Os responsáveis pela decoração dos retábulos da igreja contratualizaram um para a capela mor e dois para os altares laterais. Da capela mor não sobreviveu qualquer pintura.

“Trabalharam esta encomenda em Ferreirim numa parceria que ficou célebre como Mestres de Ferreirim. Estas pinturas são notáveis de um período de época de ouro na arte portuguesa, a melhor pintura primitiva que existe em Portugal e que sobreviveu, uma pintura de transição entre o gótico e a introdução de características do renascimento”, esclarece a diretora do Museu de Lamego.

Através dos painéis expostos percebe-se a “grandiosidade, a monumentalidade e o impacto que a pintura deve ter tido há 500 anos numa igreja em Ferreirim”, comenta.

O convento era responsável pelo conforto espiritual das povoações, dessa forma, ciclicamente, as pessoas podiam apreciar as pinturas. A igreja era iluminada por velas que, ao incidirem sob as pinturas, davam a sensação de que as figuras se mexiam. “Isso contribuía para que as pessoas pensassem que eram verdadeiras e ouviam as suas preces e interceder junto dos céus para salvação das almas”, refere.

De destacar a obra “Morte da Virgem”, rica em termos iconográficos. “A Virgem e São João Evangelista a segurar a vela em comum, um apóstolo ao fundo da cama a ler... numa banqueta está um jarro de barro e frutos que dão composição naturalista à pintura”, descreve Alexandra Falcão. A romã, por exemplo, simboliza lágrimas derrubadas e o pomo da maçã, o amor.





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