18 jan
Viseu

Cultura

Fotojornalistas mostram o Dão tal e qual como ele é

por Redação

05 de dezembro de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

A folhagem das videiras rodeia-lhes o rosto, a luz do sol cerra-lhes o olhar e Adriano Miranda rouba-lhes um sorriso. Apreciamos a roupa pálida e encardida pela terra, a pele enegrecida e rendemo-nos à cumplicidade entre os dois. Abraçaram-se para preservar a verdadeira alma do Dão. Na verdade, é mais do que isso. Ali, estão duas mãos a amparar a próxima geração. Chega-nos a esperança e o futuro da região do Dão. “É um casal jovem e é a última fotografia do livro, ou seja, é a continuidade e o Dão é tudo isso”, lança Adriano Miranda, fotojornalista do jornal Público e autor da fotografia que rematou A Voz do Dão, o diálogo da uva e do vinho – um livro feito por duas lentes, em dupla com Nuno André Ferreira, fotojornalista da Agência Lusa e Correio da Manhã. 

Partiram sem um guião e “fomos fotografando” à procura do verdadeiro Dão. São cerca de 270 páginas sobre “quem realmente produz e quem realmente faz com que a coisa aconteça”. Em poucas palavras, vemos um Dão completamente cru, “sem imagens muito promocionais ou muito turísticas”. Foi um ano à conversa com a Voz do Dão, no meio de vinhas abrigadas pela vegetação. Por vezes, conversava-se na adega “lá de casa” porque “queriam que provássemos o vinho”. Da vinha à adega é um passo e, na verdade, chegava-se ao fim do dia com apenas “quatro ou cinco fotografias”, diz Nuno André Ferreira, até porque “acabámos por criar alguns laços”. 

Bateram à porta de quintas com ‘bom nome’, desde a Casa de Santar até à Quinta da Fata. Mas, não deixaram de percorrer os terrenos de médios e pequenos produtores para “aprender com as pessoas que estão a trabalhar”. Fotografaram adegas tecnológicas, mas perderam-se na ruralidade do Dão, “no prazer de fazer a vindima, da família se juntar, de jantarem juntos na adega e é isso que está na alma das pessoas”, confessa Adriano Miranda. 

Com este livro, passamos os olhos por capelinhas locais, trajes tradicionais, vinhas infindáveis, uvas ressequidas a perdoar a apanha tardia, casacos e chapéus a repousar nas vides, o caneco de vinho a acompanhar a marmita, garrafões e baldes perfeitamente empilhados, cestos perdidos nos corredores da vinha, pés ensanguentados pelo vinho depois de uma ida ao lagar, tratores carregados de amor pelo Dão, granito e castas, rugas na pele que se assemelham aos relevos encrespados das videiras e paramos nas mãos a erguer cachos que deixam escoar “o vinho que nós conhecemos”. “O diálogo da uva e do vinho é precisamente o processo todo, desde a plantação da vinha até ao vinho engarrafado e é isso tudo”, aponta o fotógrafo. 

Já são poucos os que trabalham pelo Dão, “até porque há gente que tem prejuízo e que quase paga para trabalhar ali”, confidencia Nuno, garantindo que é o amor pela região que as faz continuar. 

Entre as paragens pela região do Dão, cruzaram-se com as videiras da Associação Portuguesa e Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Viseu (APPACDM). Acostumados a fugir da normalidade, fotografaram jovens “em contexto quase pedagógico, onde grande parte das uvas que saem das vinhas deles são vendidas a uma cooperativa”, refere.

Deram voz “a uma realidade que muita gente não conhece”, insiste Nuno André Ferreira. “É muito genuíno, é muito terra, é muito tradicional, é o Dão”, remata Adriano Miranda. 

O trabalho contou com o apoio do programa Viseu Cultura, da linha Criar, e pela Comunidade Intermunicipal (CIM) Viseu Dão Lafões.

 

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