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Teatro Viriato faz visita “Às Cegas” pelo Museu Nacional Grão Vasco

06-02-2019
 

Ver os retábulos, de olhos vendados, do pintor Vasco Fernandes, vulgo Grão Vasco, é a proposta conjunta do museu nacional de Viseu, a que o artista deu nome, e do Teatro Viriato, com a criação de Leonor Barata.

A viagem começa de olhos bem abertos com a criadora do espetáculo a revelar todo o seu entusiasmo na descrição de um “exemplar de Bruegel, uma obra prima de 1568, que retrata a parábola dos cegos, quando um cego guia outros cegos, e todos acabam por cair no abismo”.

Leonor Barata descreve e o público entreolha-se e ri - afinal, a parede está em branco e nada do que é narrado é possível de visualizar, enquanto a guia dos visitantes, Sara Lourenço, 86 anos e cega há 13, escuta com atenção as palavras de Leonor Barata.

No final da “visita” a este exemplar do pintor holandês, o público é convidado a vendar os olhos e a prosseguir a visita, de olhos fechados, para “uma espécie de ritual onde se fica às cegas para ver a luz”, explicou Leonor Barata que realçou que “ficam às cegas para verem melhor”.

“O essencial é invisível aos olhos”, lembrou a criadora do espetáculo, citando Antoine de Saint-Exupéry, na obra “O Principezinho”, para levar o público a “ver o museu, que é naturalmente um lugar em que os olhos são primordiais”. Ou seja, para “ver o museu de uma outra forma”.

No ensaio realizado para a imprensa, a visita demorou uma hora e centrou-se no retábulo de Grão Vasco, constituído por 14 painéis que contam a vida de Jesus, desde o anúncio do anjo a Virgem Maria, de que iria engravidar, até à ressurreição, após a morte num crucifixo. 

O público é levado a viajar ao tempo em que Jesus nasceu e viveu, através de uma narrativa que tem como auxílio uma seleção musical contemporânea, provocando algumas gargalhadas, com as pessoas a serem também desafiadas a cantar, no decorrer da descrição de uma pintura que remonta ao início do século XVI.

Convidados a tirar as vendas, o público percebe que está de costas para o retábulo de Grão Vasco e que recriou na sua imaginação todas aquelas pinturas.

"Cada um imagina os quadros à sua maneira, porque quem sempre foi cego não tem uma memória para poder recriar as imagens” que hoje foram descritas, explicou a guia que ficou cega aos 73 anos.

“Estamos num tempo em que todas as deficiências são possíveis de ultrapassar e, neste caso, a mensagem que deixo é que podemos ver, sem ver realmente. Só pela descrição, podemos ver as cenas e podemos imaginá-las, e aqueles que já viram imaginam segundo as recordações que têm, e quem nunca viu imagina à sua maneira. Mas veem”, disse Sara Lourenço.

Aos jornalistas, a antiga enfermeira natural de Leomil, em Moimenta da Beira, explicou que “o suposto quadro ao cimo das escadas, aquele que não estava lá mas foi descrito, foi visto”.

“Eu vi aquele quadro e vi a inclinação que tinham todos aqueles cegos que estavam inclinados para cair, porque é possível ver sem ver. Eu costumo dizer que tinha dois olhos e agora tenho dez”, disse Sara Lourenço enquanto mostrava as pontas dos dedos.

“Andar com os olhos vendados é sempre uma experiência nova. Percebi que se fica muito mais atento a outros sentidos e vi o museu de uma outra forma: as tábuas fazem muito mais barulho do que aquilo que costumamos ouvir, os textos são muito mais intensos, os cheiros têm uma intensidade diferente e é, claramente, uma outra forma de sentir o museu”, admitiu a diretora, Odete Paiva.

Para Leonor Barata, “a visão é um sentido muito tirânico, quando se olha parece se recebe toda a informação, sendo que há imensa informação que não se recebe, porque só se está a convocar a visão e, no museu, isso é gritante”.

“Quando chegamos a um museu é só para olhar, porque não podemos falar, não podemos tocar, não podemos fazer barulho e, portanto, é num espaço de um museu que a visão ganha essa dimensão mais primária ou basilar e, a ideia, foi tentarmos conhecer o museu através de outros sentidos”, explicou.

Leonor Barata acrescentou que um outro desafio é o de as pessoas “saberem se são capazes de confiar, de confiar cegamente, se são capazes de fazer esta viagem guiadas pela mão” de um outro, uma vez que o público segue em fila, agarrado ao cotovelo de quem tem ao seu lado.

Cada sala tem a sua abordagem, explicou a criadora. Neste ensaio só uma foi visitada mas, em algumas, é a narrativa da história que se impõe; noutras é o olfato, noutras ainda é o som, através da música, mas “é uma espécie de provocação, para se saber se é capaz de confiar”.

“Às Cegas” é uma proposta do Teatro Viriato, que desafiou Leonor Barata e Henrique Amoedo, do projeto Dançando com a Diferença, para visitar o Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, no dia 9 de fevereiro.

A partir de março, e ao longo de vários meses, o projeto vai ter sessões para alunos do ensino secundário e universitário.





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