A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

"Viseu deveria dar um salto e ter uma programação de temporadas maiores"

Edição de 11 de janeiro de 2019
 

Entrevista a Paula Garcia

Programa completo


11-01-2019
 

Há 20 anos instalava-se no Teatro Viriato, em Viseu, um projeto cultural que tinha como ideia “arriscar”. Duas décadas depois, a atual diretora, Paula Garcia, diz que este continua a ser o ADN de um dos projetos culturais descentralizados do país que mantém uma programação regular.

Como vai ser a programação dos 20 anos do Teatro Viriato?

Este ano vai refletir um percurso feito a partir de vários eixos de ação. É uma programação de chegada mas também de partida, no sentido que toda a atividade que vamos desenvolver tem o o pressuposto de questionar o futuro. Há muitos projetos que nos vão permitir lançar um pensamento sobre a própria casa no futuro. Estes 20 anos são o espelho de um percurso mas também do início de algo.

Que momentos destaca?

Vamos abrir a temporada com uma encomenda nossa. Interessa-nos muito esta ideia do Teatro Viriato como uma casa que tem preocupações a nível social, respeito pelo pensamento divergente. A relação com o artista, com a obra artística e a ligação ao público sempre foi uma preocupação nossa e esta encomenda surge disso mesmo. Trata-se de uma criação do músico Júlio Pereira em torno da obra de Zeca Afonso. É uma obra musical também a propósito dos 45 anos do 25 de abril e que mostra que a música é uma disciplina artística que tem um poder de intervenção.
Depois temos a presença da Companhia Paulo Ribeiro. Não podemos nunca dissociá-la destes 20 anos. Primeiro porque o Paulo Ribeiro foi quem esteve na génese deste projeto que depois o Centro de Artes e Espetáculos de Viseu (CAEV) deu corpo jurídico. A Companhia instalou-se, precisamente em 1998, no Teatro Viriato. A Companhia vai ter dois momentos. Já em janeiro a estreia de uma coreografia de Luís Antunes que é um trabalho que vai ter uma conotação com a história da dança e a relação com o corpo e como ele se manifesta em vários contextos. Depois, volta a estrear em setembro uma coreografia dos novos diretores São Castro e António Cabrita e a proposta foi a de trabalhar uma obra de Beethoven e vai contar ao vivo com a atuação do Quarteto de Cordas de Matosinhos. A Companhia está, também, mais uma vez, na co-organização do Summer Lab (laboratório de dança).

Esta relação entre o Teatro e o artista na cidade e da cidade está cada vez mais enraizada?

Sim e parece-nos fundamental. O Teatro Viriato tem uma responsabilidade para com o tecido artístico da cidade. É um trabalho que é feito ao longo do tempo, de fundo, de atenção, de apoio e de acompanhamento. É, seguramente, uma das preocupações do Teatro Viriato.

Além da música e da dança, há mais nesta programação anual?

Esta programação cumpre uma relação com todas as disciplinas das artes performativas. Temos a ópera, o novo circo com quatro espetáculos, dois internacionais e dois nacionais; vamos ter o teatro, obviamente, e ações de formação, muitas estreias e um projeto de reposição.

Qual?

Há projetos que são simbólicos no percurso do Teatro e há um que ainda é bastante falado entre os pares que é a “Caixa para Guardar o Vazio” da Fernanda Fragateiro, um trabalho criado pelo Teatro Viriato em 2005 em co-produção com outras estruturas da cidade e que teve depois uma itinerância internacional. Vamos repor este trabalho que já tem datas a nível nacional e internacional asseguradas. É um trabalho que simbolizou a abertura dos serviços educativos às artes performativas em Portugal. Para nós é um trabalho muito simbólico.

Devem existir vários momentos simbólicos ao longo destes 20 anos...

Foram imensos. É estranho para mim referir um ou outro porque eles são mesmo muitos. Faço também parte deste percurso há 20 anos e não é fácil referir um ou outro espetáculo… o Teatro teve momentos muito altos, bons momentos, muito fortes, onde arriscámos. E isto é que é importante para o desenvolvimento do projeto porque o Teatro cresce, arriscando.
E nesta programação das comemorações percebe-se que o Viriato é uma casa engajada com outros parceiros culturais seja a nível nacional ou da região, seja com instituições. Esta relação é um compromisso de continuidade. Para nós é impossível não estar com o Cine Clube de Viseu ou com o Museu Nacional Grão Vasco, assim como com o Festival da Primavera ou em diálogo com o Trigo Limpo Teatro ACERT, a Binaural ou o Teatro Regional da Serra de Montemuro.
Estamos, também, este ano numa nova rede de mediação cultural, a rede Amarelo.

Porque é que decidiram apresentar uma programação para um ano e não trimestralmente como costumam fazer?

Foi um grande desafio que colocámos a nós próprios. É fruto de mais um questionamento interno, de tentar perceber se é possível apresentar uma programação anual e como é que o público se comporta. Sendo uma programação que reflete o percurso de 20 anos, achámos que era importante apresentar tudo para se ter a perspetiva do todo.

O corte no financiamento que o Teatro Viriato conheceu há um ano por parte da Direção Geral das Artes, também “obrigou” a reformular a programação para uma agenda anual?

Claro que a questão financeira está sempre em cima da mesa. Mas neste caso foi mesmo uma preocupação em dar uma programação como uma história e não de forma faseada.

Como foi programar o último ano com os cortes que sofreram?

Apesar do primeiro lugar que obtivemos ao nível do projeto apresentado, tivemos quebra do orçamento. Mas somos optimistas. Acreditamos muito no trabalho que fazemos, temos uma equipa muito profissional e a qualidade das propostas é algo que nos preocupa. Tivemos que saber encarar este corte no financiamento mas acreditamos que vamos continuar e temos de continuar.

É um dos aspetos da chamada resiliência do Interior?

É curioso porque esta programação que agora apresentamos levanta algumas questões sobre esta ideia da descentralização. E eu não consigo falar nos resultados do financiamento sem apontar o que aconteceu a outras estruturas da região como o Trigo Limpo que foi muito grave. É muito interessante estarmos todos juntos numa rede porque isto é que nos dá força para continuar e como é que nos podemos organizar e ter uma voz.

Está a falar da Rede Cultural da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões da qual fazem parte várias estruturas?

Sim, e, já agora, vamos estrear em fevereiro um novo trabalho e há toda uma programação que vai ter continuidade.

Que novo trabalho é?

É um teatro gastronómico. Uma encomenda que nós fizemos ao Giacomo Scalisi que já esteve no ano passado no Teatro Viriato com o espetáculo “Pasta e Basta”. Desta vez desafiámo-lo a trabalhar com artistas locais. São eles o Graeme Pulleyn, a Sofia Moura e o Gabriel Gomes. O texto é da autoria de Sandro Lima Junqueira. É um texto sobre Portugal, sobre esta região e da necessidade que todos tempos de pensar que temos de ir para fora para vingar.

Já não se faz nada sozinho?

Sim, e a prova é o Teatro Viriato. Este é o resultado de um projeto que é alimentado por muitas vozes. Desde a companhia residente, à relação com os artistas, com os mecenas, com os amigos, com as escolas e professores da cidade e, evidentemente, com o público.

O público fez-se e cresceu nestes últimos 20 anos?

Sim, diversificou-se, isso conseguimos perceber. Com a bilheteira online percebemos também melhor que o espetador não se restringe à região de Viseu. O público cresceu, desenvolveu-se e está mais exigente e isso é muito gratificante. E isto coloca outros desafios à casa. Obriga-nos a estar sempre em atualização com o que se está a fazer em Portugal e a nível internacional. Esta é uma casa alimentada por muitas frentes.

Qual é a média de espetadores?

É difícil avançar com um número, porque há espetáculos que pedem uma aproximação maior com o público. Mantemos a taxa de ocupação entre os 75 e 85 por cento.

É um número razoável?

É um bom número dentro do panorama nacional e considerando a programação que é desenvolvida.
Há um público que arrisca e um espetador que faz escolhas, conseguimos identificar este tipo de público. É muito difícil falar de uma forma definitiva sobre o que é o público do Teatro Viriato porque obrigaria a um estudo de fundo e muito maior. Aliás, acho que está na altura de Portugal começar a revelar estudos sobre comportamentos de públicos. Não há muitos. Se pensarmos também que o Viriato é um dos primeiros projetos de uma política descentralização cultural para o país, percebe-se que ainda é um período curto que permita um estudo mais profundo. De qualquer forma, o país já tem várias salas a funcionar com uma programação regular.

E há públicos para elas?

Há 20 anos também se perguntaria se havia público para dança contemporânea em Viseu... as pessoas têm de ter acesso às artes performativas e a uma programação cultural.

Como atual diretora desta sala, o que quer do Teatro Viriato?

Eu gostava muito que fosse possível o Viriato tornar-se numa casa que desse mais tempo aos artistas. E todos ganharíamos com isso, a cidade e o público e os artistas que poderiam fazer outro trabalho com a cidade, desde a formação, visitas às escolas, palestras, conversas, etc... com uma permanência maior dos artistas, haveria todo um outro trabalho muito mais profundo que poderia ser feito. Apesar de tudo, em Viseu, nesta relação com os artistas associados e residentes, nós começamos a ter as bases para ter esse trabalho e temos vindo a fazê-lo. Mas em termos de público, Viseu deveria dar um salto e ter uma programação de temporadas maiores de artistas. Até por respeito à criação e ao trabalho dos artistas. Uma obra e um espetáculo crescem quanto mais tempo ficam em palco. O que temos agora é o chegar, montar, apresentar e sair. É tudo muito efémero. E para esta área da cultura, o caminho não pode ser este.

O que falta para se tomar esta decisão. A disponibilidade financeira?

Eu acho que esta decisão só se pode tomar quando percebermos que há, em termos de políticas públicas para a cultura, um interesse no trabalho da programação. Isto acontece nos teatros nacionais mas não acontece no território português. Esta decisão de fazer uma temporada mais longa é fundamental. Mas não podemos tomar esta mudança sozinhos. Esta mudança é possível se a reboque houver uma decisão política de alimentar os tantos teatros que existem neste país, se houver uma relação com os teatros e com os municípios tal como existe no Teatro Viriato ou o Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães.

Está mais fácil o diálogo com a tutela?

Sim... sim.

Quando foram conhecidos os cortes, foi criada uma estrutura com vários agentes culturais. Que trabalho foi desenvolvido?

Estamos numa fase em que está em avaliação as propostas ao último modelo de financiamento.

O próximo concurso vai ser diferente?

Tem de ser.

É diretora do Teatro Viriato há dois anos, o facto da casa ter estabilidade na direção é um dos sucessos?

Sim, a casa teve o Paulo Ribeiro, o Miguel Honrado e agora eu. É evidente que toda a equipa é fundamental no desenho do projeto, mas há algo que faz a diferença que é a questão da autonomia do CAEV.

O Viriato está sempre ligado ao nome do Paulo Ribeiro. O seu regresso é sempre uma possibilidade?

O Paulo é uma figura indissociável do Teatro Viriato. A companhia Paulo Ribeiro permanece. O Paulo Ribeiro tem uma nova criação em 2021 para a Companhia. Portanto, esta relação está sempre presente nesta casa.

Que prenda o Teatro Viriato quer dar ao seu público?

Ou antes que prenda o público quer dar ao Viriato (risos)? A melhor prenda é o publico acompanhar toda a programação, estar connosco e ter a consciência do que é um projeto de descentralização cultural com 20 anos com uma programação regular e atualizada. É um projeto que é fundamental para a regeneração de uma cidade. A melhor prenda é estar connosco, até mesmo num sentido crítico.

Viseu mudou nestes 20 anos?

O Teatro fez despoletar outras estruturas e houve outras estruturas que fizeram despoletar o trabalho do Viriato e até algumas pessoas e instituições … há personalidades que estavam cá antes do aparecimento do Teatro e elas foram um grande contributo no aparecimento desta casa...

Manuel Maria Carrilho?

Sim, até hoje foi considerado o ministro da Cultura fundamental nestes últimos 20 anos..

Mais nenhum outro ministro da Cultura deixou uma marca forte?

Os tempos são outros. De facto tenho muito respeito pelo professor por todo o trabalho que desenvolveu e a forma como pensou estrategicamente esta área.
É fundamental o país voltar à descentralização e não só na cultura. É fundamental que se olhe para o país num todo e, de facto, o Manuel Maria Carrilho, em 97/98, teve essa preocupação e isso estava estrategicamente explicado no seu plano. As linhas que traçou eram muito pertinentes e é isso que também esperamos da Tutela, que é entender as linhas estratégicas para a cultura em Portugal.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT