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O regresso do "histórico" Atlético de Travanca

Edição de 4 de outubro de 2019
 

Reportagem em Travanca de Bodiosa


05-10-2019
 

O Atlético voltou. É assim que a povoação de Travanca de Bodiosa conhece o clube do coração que se encontrava inativo até há umas semanas. Quinze anos depois voltou o futebol sénior à terra. Na “Tasca da Aldeia” não se fala de outra coisa. Domingos Lemos não disfarça a satisfação de ver o clube do coração de volta. “Estou muito ansioso e sinto-me otimista. Espero que o clube continue por muitos e longos anos”.

O Atlético Clube de Travanca foi fundado em 1942 e há cerca de 15 anos deixou de ter qualquer atividade desportiva. “É o meu clube do coração, não há hipótese”, confessa Domingos que chegou a jogar com o emblema da terra ao peito. “Em 1973, antes de ir para França, joguei meio ano no clube. Vim da Guiné e quando cheguei cá fui extremo esquerdo”, recorda.

Atualmente, o Travanca disputa a 1ª divisão distrital, zona Sul. A conversa com os adeptos do clube foi precisamente antes da estreia neste escalão do futebol distrital. Na primeira jornada, o clube deslocou-se a Alvite, aldeia do concelho de Moimenta da Beira, e venceu por três bolas a uma. Na história ficam os nomes de Rui Filipe, Pinhão e Jorge Monteiro, autores dos golos no primeiro jogo após o regresso.

Na década de 70, recorda Domingos Lemos, o clube viveu uma época áurea. “Havia entusiasmo, tínhamos bons jogadores, íamos buscá-los a outros clubes. Era uma categoria, tínhamos uma equipa formidável”, lembra. Pelas conversas nos cafés da aldeia, o apoio ao Atlético não vai faltar tal como acontecia antes. “Muita gente assistia aos jogos e mesmo quando jogávamos fora, havia sempre muitos adeptos, iam muitos autocarros”, recorda. No meio das memórias dos tempos em que o Atlético era um clube forte no distrito, Domingos lembra-se de ver o Tondela ali jogar. “Agora estão na Primeira Divisão e cheguei a jogar contra eles, em 1973. Perdemos 2-1”, lembra, sorrindo.

Ao lado de Domingos Lemos está Jacinto Lopes que também foi jogador do Travanca. “Joguei a guarda-redes. Desde miúdo tive queda para essa posição, acho que é mesmo de nascença”, refere.

Quando começa a puxar pela memória, chegam histórias que já se pensava esquecidas. “Comecei a jogar futebol em Angola e, após o 25 de Abril, regressei a Pascoal, que é a minha terra. Na altura não me quis oferecer a clube nenhum, porque queria profissionalizar-me, preferi que me viessem procurar”, explicou.

E porque o “bichinho” pelo futebol falou mais alto, Jacinto Lopes foi convidado a dar “uma mãozinha” ao Atlético. “Fomos campeões distritais da Segunda Divisão em 1974/75, subimos à Primeira distrital e as pessoas pediram-me muito para fazer mais uma época pelo Travanca”, desvenda. E assim foi. Mas, quando tudo parecia estar a caminhar para ser jogador profissional, teve um acidente de mota. “Fui amputado da perna direita e acabou o futebol para mim”, desabafa.

Mas o futebol nunca saiu da vida de Jacinto que acabou por desempenhar funções no clube, onde chegou a ser massagista.

Num distrito com muitos clubes de futebol, há casos de rivalidade quase de aldeia para aldeia e o Atlético de Travanca não é exceção. “Sempre fomos rivais do União Operária de São Martinho, éramos vizinhos e era uma espécie de Sporting – Benfica. Logicamente que o Travanca ganhava mais vezes. Aliás, a minha estreia foi nesse jogo. Estávamos a empatar 1-1 e tivemos um penalty a nosso favor. O jogador que o cometeu não deixou que o penalty fosse batido, o nosso foi empurrado para a linha lateral e arrastado pelo chão. O árbitro mostrou o cartão e quando foi a hora de marcar a penalidade, a bola desapareceu. Não havia condições de continuar o jogo”, lembra. A partida acabaria por ser repetida e o Travanca venceu 1-0.

15 anos depois, o Travanca voltou

Tanta paixão parecia impedir que o clube chegasse a fechar portas, mas tal aconteceu. O dia do fim do clube foi marcante para Domingos Lemos. “Faltou dinheiro e algumas pessoas foram morrendo, acredito que foi por isso que o Atlético acabou. Quando soube que um grupo de pessoas o quis levantar de novo, fiquei contente, é fantástico para a povoação, traz alegria”, referiu.

Enquanto conversam no café de Travanca de Bodiosa, o amigo Jacinto Lopes concorda que o futebol vai trazer outro ambiente à localidade. “Este regresso significa muito, Travanca tinha necessidade de ter futebol, isto estava parado, morto, parecia uma aldeia fantasma, não se via movimento nenhum. Começámos a ver a diferença já nos jogos de preparação”, assegura. Na aldeia, que é também conhecida por “Aldeia da Pedra” porque ali existiam várias pedreiras que foram fonte de rendimento para muita gente, o clube é vivido com intensidade e isso tem passado para os jogadores. Ricardo Balula foi o escolhido para ser o capitão de equipa. O atleta, natural de Pascoal, uma aldeia vizinha, diz sentir o muito apoio da população. “Nos treinos as bancadas estão praticamente cheias, a mística do Atlético está novamente a funcionar”, refere.

Os dois treinos por semana têm dado aos atletas o ritmo necessário para enfrentar duas competições distritais. Além da Zona Norte, há ainda a Taça de Sócios de Mérito, onde, na primeira eliminatória, o clube vai defrontar o Parada. “Ser capitão desta equipa é um orgulho, é muito especial. É também algo que exige mais responsabilidade. Nós frequentamos os cafés e ouvimos as críticas dos adeptos. Estou em final de carreira e acho que é uma aventura para mais tarde recordar”, refere Ricardo Balula.

O grupo de trabalho está agora a começar a época, mas já se vai olhando para os objetivos a atingir. “Se conseguirmos andar nos lugares de topo, perfeito. Vamos trabalhar para estar nos cinco primeiros lugares da tabela classificativa”, assegura o jogador.

Junto ao campo de futebol que foi batizado de “Estádio do Ribeiro”, por ali perto passar um curso de água, está Ricardo Rodrigues, diretor do Atlético. O sonho começou quando, com mais 15 amigos, decidiu oferecer à aldeia o clube do coração. Agora, diz, o preço a pagar é alto, mas a recompensa é maior do que tudo. “Mais do que da terra, é a equipa da freguesia. À nossa volta não há mais futebol além do Travanca e, por mais que haja rivalidade entre aldeias, este clube vai uni-las”.

Para já, no que a obras diz respeito, faltam ainda dar alguns passos. “Cobrir os balneários, pintá-los, colocar relva no campo e a iluminação”, enumera.

Por enquanto, entre o povo, a esperança no Atlético está de novo em força. O hino do clube ainda está a ser pensado, mas na “Tasca da Aldeia” Jacinto Lopes já tem um cântico na ponta da língua e da memória. “Quando ganhámos ao São Martinho cantámos: 'Olha o balão, olha o balãozinho, olha o Travanca foi ganhar ao São Martinho. Soma e segue, soma e segue, no seu caminho. Desta vez o Travanca foi ganhar ao São Martinho”. Rivais em campo que ajudaram a fazer a história do clube que nasceu em 1942 e que agora voltou, 15 anos depois.

"Renascer do nada, para nós, já significa muito" - Ricardo Rodrigues, diretor do Atlético Clube de Travanca

15 anos depois, como é que está a viver o regresso do Atlético?

Foi um processo muito complicado, mas está a correr dentro das expetativas. O clube está com bom andamento, há um grande entusiasmo.

Por falar em expetativas, estão inseridos na Zona Norte da 1ª Divisão. Qual é o grande objetivo?

Fazer uma boa época e isso resume-se em dar o máximo em cada jogo, porque renascer do nada já significa muito.

O Ricardo juntou-se a 15 pessoas para reerguer o clube. Quando comunicaram a vossa decisão aos populares da aldeia, como é eles reagiram?

Ficaram um pouco reticentes. Há alguns que só vão acreditar quando a bola começar a rolar, mas os sócios já vão aparecendo nos treinos e a informação já vai passando. Começam a chegar à conclusão de que afinal é mesmo verdade. Para muitos era um sonho e nós, com muitos imprevistos num caminho muito complicado, conseguimos.

Quais foram as principais dificuldades?

Em cada porta que se abriu, havia sempre um buraco enorme, fosse ele burocrático ou em infraestruturas. O campo estava completamente abandonado, os balneários degradados. Pusemos caldeiras, renovámos tudo. Os sistemas de iluminação ainda estão a precisar de alterações, mesmo assim conseguimos dar um jeito. Estas obras tiveram um custo enorme. Valeram-nos as quotas dos sócios e a ajuda de empresas que se associaram a nós desde o primeiro minuto. Eu ainda não acredito que estamos tão à frente... Nunca pensei que estivéssemos assim, nesta altura.

Quando chegaram à Associação de Futebol de Viseu e comunicaram que o Atlético ia voltar, foram bem acolhidos?

Muito. Ficaram surpreendidos porque não estavam à espera que, ao fim de 15 anos, um clube como este pudesse retomar a atividade. Deram-nos todo o apoio, sempre que há dúvidas esclarecem sempre tudo. Não temos razão nenhuma da Associação de Futebol.





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