08 Jul
Viseu

Desporto

“Se tivermos de jogar à porta fechada, por amor de Deus, adiem o campeonato”

por Redação

23 de Maio de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Tiago Ferreira é um presidente preocupado com o futuro. Lidera o Termas Óquei Clube, equipa que, 30 anos depois, voltou às competições nacionais de hóquei em patins. A jogar a Terceira Divisão, o Termas, como é conhecido no meio desportivo, aposta forte na nova época e quer subir para a Segunda. Tiago Ferreira, em entrevista ao Jornal do Centro, traça as metas e critica as decisões tomadas pela Federação sobre subidas e descidas. Pede que sejam tomadas decisões responsáveis

 

A Federação Portuguesa de Patinagem vai decidir as subidas à Segunda Divisão com uma liguilha entre os últimos classificados da Segunda Divisão e os primeiros da Terceira. O que é que, no seu entender, levou a Federação Portuguesa de Patinagem a decidir por aqui?

Não sei o que motiva a Federação a tomar uma decisão destas, porque, entendendo a parte de que deve haver subidas e descidas, custa-me a entender o porquê de não ido por um cenário proposto pela Associação de Patinagem de Aveiro. Esta proposta era de fazer as subidas jogando cada clube com os da sua divisão e, quem fosse o melhor, subiria. Quem fosse o pior na divisão acima, desceria. Era o cenário mais justo, mais real. O cenário que escolheram não vai trazer verdade desportiva, esse chavão de que tanto se fala nos dias de hoje.

Essa exposição feita pela Associação de Aveiro feita à Federação, refere que “dá-nos a sensação de que os clubes que estão em situação de despromoção da Segunda Divisão estão a ser protegidos com esta solução, também as suas Associações são das maiores que integram a Federação Portuguesa de Patinagem”. Esta decisão pode ser considerada centralista?

Cada vez mais concordo com esse comunicado. É uma análise muito profunda feita pela Associação de Aveiro. Dá a sensação de que se protege os clubes que estão numa divisão superior em detrimento de um trabalho feito diariamente nos clubes que estão na Terceira Divisão.

Esta exposição refere também que um campeonato de Segunda Divisão não é igual a um de Terceira...

Obviamente. Daí o nosso espanto. A Segunda Divisão antecede a Primeira, o melhor campeonato do mundo, como nós andamos a defender. Há clubes com estruturas e realidades totalmente diferentes dos de uma Terceira. Custa-me a perceber como é que estamos a ter esta análise nos dias de hoje. Apesar de ninguém ter culpa das razões pelas quais o campeonato foi suspenso, compreendendo que a Federação tem de tomar uma decisão, não nos parece real o cenário pelo qual optaram. Até partindo da pandemia, quais serão os clubes que estão a sofrer mais, com cortes de receita por parte dos patrocinadores? É fácil perceber que serão os da Terceira Divisão.

O Termas não vai jogar a liguilha?

Não, porque considerámos que não tínhamos conhecimento da totalidade de todos os factos que nos permitissem dar uma resposta com segurança. Tínhamos que comunicar a decisão até 18 de maio.

O Termas também não arrisca participar na liguilha pelo facto de ter de se reforçar e não ter certezas de que o investimento trará retorno desportivo, que, neste caso, era a subida à Segunda Liga?

Exatamente, eu penso que todas as pessoas que estão nas direções dos clubes devem ser pessoas responsáveis. Temos de ter muito cuidado com a gestão do clube. Participar numa liguilha com clubes da Segunda Divisão, obrigava a um reforço da equipa e um assumir de um compromisso com os atletas para o restante da época desportiva. Não correndo bem, porque há sempre esse cenário, teríamos uma equipa com atletas de Segunda Divisão a jogar na Terceira. Não nos podemos esquecer que, havendo respeito pelos atletas, a época tem de começar em julho e terminar em junho do próximo ano, no final do campeonato. É uma época extremamente longa, com custos muito elevados. Aqui no Termas, temos de fazer contas que outros não fazem: como não temos formação, temos de ir buscar jogadores fora do nosso concelho e distrito. Isso implica custos muito elevados de deslocação, numa altura em que teremos quebras de receitas na ordem dos 70%, seria um ato de irresponsabilidade que nenhum elemento da direção do Termas Óquei Clube se atreveria a tomar.

Enquanto dirigente de um clube de hóquei em patins, como é que vê o estado desta modalidade, atualmente, em Portugal?

É um desporto muito popular em Portugal. Todos sabem que somos campeões do mundo e a Primeira Divisão é denominada de melhor campeonato do mundo. Digo isto com orgulho. Pratica-se um hóquei de muita qualidade em Portugal, no entanto as dificuldades são muitas. É um desporto extremamente caro e juntando isso a um pouco apoio por parte do tecido empresarial português aos clubes, é preciso ser criativos na forma como vamos sustentando os nossos clubes. O Termas é um clube histórico nesta modalidade. Quem pratica este desporto tem de fazer algum investimento.

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Outro dos objetivos é formar jogadores para serem utilizados na equipa senior?

Sim, sem dúvida. Aliás, é essa a primeira premissa. Hoje já temos já trinta atletas federados nos escalões de bambis e benjamins, que participaram num torneio muito importante, em Oliveira de Azeméis. Estamos a reforçar as equipas técnicas com treinadores de qualidade, porque só assim é possível criar uma boa formação. Este ano vamos, oficialmente, participar em campeonatos de formação, tendo sempre a equipa sénior, como o topo do clube, a ser alimentada pela formação. Isto vai demorar um bocadinho. Colocar um jogador na equipa sénior demora cerca de dez anos. Como não temos formação há 15 anos percebe-se a razão de irmos buscar jogadores fora do concelho.

Há dois anos conversávamos sobre o regresso, 30 anos depois, do Termas aos campeonatos nacionais. Valeu a pena?

Muito, muito. É com enorme orgulho e até alguma emoção que eu digo isso. Tive a ajuda de jogadores da equipa sénior dos anos 80 e criámos uma direção. Decidimos criar jogos com a chamada “velha guarda” e isso motivou curiosidade num sítio que respira hóquei de uma forma entusiasmante. Reforçámos a direção, começámos a competir e hoje, somos dos clubes a nível nacional, com melhor média de assistência: 250 pessoas por jogo. É incrível para um clube da Terceira Divisão, numa localidade como S. Pedro do Sul, no interior. Em várias reuniões, alguns presidentes, já nos disseram, também, que fomos o clube que mais pessoas levou aos pavilhões deles. Tenho imenso respeito pelas pessoas que saem daqui, muitas vezes de inverno, com frio e chuva, para ver os jogos. Temos inclusive um grito final que os jogadores fazem com os adeptos, quer ganhem, empatem ou percam. Isso demonstra a força do Termas, neste momento e que, acredito, será reforçada no futuro.

Em São Pedro do Sul há o Termas, a lutar para subir à Segunda Divisão de hóquei e, por exemplo, a Academia de Andebol que tem uma equipa a tentar a subida à Primeira e outra que joga a subida à Segunda Divisão. Como é que é a relação do Termas com as outras equipas de outras modalidades, ditas amadoras?

Em primeiro lugar, fico extremamente satisfeito que haja outros clubes a praticar desporto com enorme sucesso. O caso da Academia de Andebol é um trabalho fantástico, é um clube exemplo. E mesmo os que têm menos sucesso, continuam a ser apoiados. Não andamos a roubar patrocínios uns dos outros, porque acreditamos que, só trabalhando em conjunto, é que S. Pedro do Sul se tornará mais forte, com clubes mais fortes.

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Está em cima da mesa a hipótese de jogos à porta fechada. Ver o Pavilhão David Correia de Andrade sem gente vai ser um desgosto para si...

Mais do que o desgosto pessoal, não consigo ver o desporto sem pessoas. Chamem-lhe outra coisa. Compreendo toda a questão da saúde que, para o Termas, estará sempre em primeiro lugar. Daí termos sido dos primeiros clubes a suspender treinos na formação e nos seniores, antecipando até as recomendações das autoridades de saúde. [Se for à porta fechada] vamos adiar tudo! Sem pessoas não é sustentável para os clubes. Não acredito que nenhum patrocinador ajude se não puder divulgar a sua marca junto das pessoas que iriam ver os jogos. Teremos de repensar tudo, infelizmente, até esta situação estar resolvida.

Já fez chegar essa sua opinião junto dos órgãos de poder?

Eu nem consigo perceber se alguém colocar como hipótese jogar à porta fechada. Uma coisa é terminar esta questão das liguilhas com subidas e descidas. Uma próxima época desportiva... Eu penso que as pessoas têm de ser responsáveis. Não vamos estar só preocupados com os clubes da Primeira Divisão que podem, muito facilmente, fazer o seu campeonato à porta fechada que terão sempre patrocinadores que conseguem sustentá-los. E não é só isso. É a beleza do desporto: os atletas jogam para as pessoas. Não faz sentido nenhum. Vamos ter de ser realistas. Como dizia um amigo, nós temos a cabeça e não é só para pentear. Cada vez mais lhe dou razão. Não podemos estar só preocupados com dois ou três clubes, temos de nos preocupar com a globalidade dos clubes. As equipas só vivem com os sócios, patrocinadores e gente no pavilhão. Espero que não coloquem em causa esta realidade. É preferível adiar isto até a situação ficar minimamente segura em termos de saúde pública, jogando com público, do que estarmos a equacionar jogar à porta fechada. Isso só os treinos e, felizmente, no Termas, nem todos.

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Então a solução, para si, passa por adiar...

Adiar, por amor de Deus. Só ainda não comuniquei isto a nível superior porque estamos a fazer um trabalho de recolha de prova de que, se isto for jogado à porta fechada, nos trará prejuízos enormes que me farão pensar sobre como é que vamos, no final, conseguir fundos para suportar uma época tão grande.

Está colocada a hipótese de o Termas não competir?

Obviamente que tudo faremos para competir. No entanto vamos marcar uma posição muito forte de que, à porta fechada, será muito difícil sustentar um clube. A receita do peditório, a do bar, o patrocinador que coloca uma lona num pavilhão... Só assim é possível. Só com o apoio estatal não é possível, isso digo com toda a certeza. E mesmo ao nível do marketing: como é que eu vou conseguir publicitar os nossos jogos? Nós usamos muito as redes sociais, vou publicar só a fotografia do rinque? Não faz sentido nenhum.

 

 

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