25 Mai
Viseu

Região

De Vila Real a Vouzela vão 100 quilómetros. O caminho ainda é um vazio

por Redação

23 de Maio de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

Autoestradas quase vazias e áreas de serviço desertas quando palavra de ordem é “desconfinar”

CLIPS ÁUDIO

22 Mai 2020

De Vila Real a Vouzela, depois da pandemia

Com a entrada em vigor das medidas de contenção em todo o país, os carros pararam. Reflexo não só do encerramento das escolas como o maior número de pessoas a trabalhar a partir de casa, tendo em conta que uma grande parte das deslocações diárias têm como destino a escola ou o trabalho.

O tráfego nas autoestradas portuguesas sofreu uma quebra na ordem dos 75% a nível nacional, segundo o Ministério das Infraestruturas e da Habitação.

Agora, a palavra de ordem é desconfinar.

Fomos percorrer as principais estradas que atravessam o distrito de Viseu e perceber, junto daqueles que encontrámos, se há ou não mais movimento. 

A24 quase fantasma. Mensagem contraditória na estrada

Apesar de o desafio de agora ser o de “regressar à normalidade”, percorrendo a A24, de Viseu a Castro Daire, as mensagens são contraditórias. Continuam a apelar para que se fique em casa. “Stay at home. #umconselhodaDGS”, lia-se.

Nesse mesmo troço, cruzámo-nos, apenas, com 50 veículos ligeiros, 14 pesados, um de socorro e um da proteção civil. Chegados à área de serviço de Castro Daire não eram muitas as pessoas que por ali paravam. 

Joaquim Claro e Daniel Gillittle, acabados de chegar da Suíça, faziam uma pausa para tomar café antes de seguirem viagem até à Guarda.

Natural de Castelo Branco, Joaquim Claro já não vinha a Portugal há dois meses. “Fui para a Suíça para tratar dos papéis da reforma. Quando lá cheguei os serviços já estavam fechados e fecharam as fronteiras. Voltei agora, sem conseguir resolver nada”, conta. Só regressará à Suíça quando as fronteiras voltarem a abrir e “unicamente para tratar da documentação para a aposentação”, explica.

Ainda “maçado” da viagem, Joaquim diz que “as estradas estão calmas, correu bem. “Tive a sorte de encontrar esta camioneta da Giromundo para vir para Portugal. Cancelaram-me a viagem de avião por duas vezes. É uma situação um bocado chata”.

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Daniel Gillittle, natural da Venezuela, há dois anos a viver em Braga, trabalha para a Giromundo. Foi quem trouxe Joaquim Claro da Suíça até Portugal.

“Transporto pessoas que trabalham na Suíça ou outras que não trabalham mas que querem vir para Portugal”, explica-nos.

Já durante a pandemia de Covid-19, Daniel ainda fez cinco viagens da Suíça para Portugal. 

“As estradas estavam vazias. As pessoas cumpriram a quarentena. Mas há quem precise de trabalhar, porque precisa de fazer dinheiro porque tem coisas para pagar”, diz, encolhendo os ombros.

As viagens pela agência de turismo são feitas “com todo o cuidado”, garante. “Temos álcool no autocarro, máscaras e distância entre passageiros”.

Em Portugal vai permanecer 14 dias. Depois, voltará para a Suíça. Perguntamos-lhe que diferenças há de cá para lá. “Na Suíça trabalha-se normal. Nunca se parou como em Portugal. O número de casos da doença lá desconheço”, conclui. 

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“Isto parecia um deserto”

Enquanto nos despedimos de Joaquim e Daniel, chega mais um carro à estação de serviço. Lá dentro vêm dois passageiros. A passagem por Castro Daire acontece por motivos de trabalho.

João Pais, de Viseu, trabalha no setor automóvel, na empresa Lemos & Irmão. “Já se nota muitos mais carros a circularem na autoestrada. A primeira vez que aqui passei após o início da pandemia isto parecia um deserto. Cruzei-me com um carro de 10 em 10 minutos. Era mesmo muito esquisito. Não estávamos habituados ao que estava a acontecer”, recorda.

A área de serviço esteve sempre de portas abertas.

“Sempre que precisei e parei, estavam sempre a funcionar. Com algumas limitações, entrava, pedia-a o café e vinha tomá-lo cá para fora, tal como agora”, lembra.

Apesar de não ter deixado de trabalhar, João Pais fala de um impacto negativo grande no setor automóvel. “Deixámos de ter muitos clientes, a procura foi baixando… Os automóveis deixaram de circular e o trabalho diminuiu”, conta.

Ana Paula, funcionária da estação e natural de Castro Daire, diz que por ali sempre continuaram a passar muitos camionistas mas, “sem dúvida, de que agora há mais gente na estrada”. “Já se nota mais movimento. As pessoas quando entram, normalmente, pedem um café, um bolinho, pouco mais, mas não podem permanecer dentro do espaço”, explica.

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O restaurante da área de serviço, encerrado desde o dia 19 de março, vai continuar de portas fechadas até ao dia 2 de abril.

Em Mezio não se vê vivalma

Seguimos viagem pela A24. Depois de percorrermos cerca de 50 quilómetros, encontrámos a área de serviço de Vila Real.

Carros haviam alguns, sete ligeiros. Mas nenhuma pessoa. Questionámos a funcionária da estação que nos disse que é habitual fazerem daquele espaço um parque de estacionamento. “As pessoas deixam os carros e apanham boleia para irem trabalhar”, conta. Em relação à alteração de movimento na estrada, diz-nos que não nota diferença.

“É um estada que não tem, habitualmente, grande movimento”, conclui. 

Entretanto chegou um carro para abastecer. Bruno Monteiro, de Resende, deslocou-se para visitar a namorada. De regresso a casa, conta que "há um aumento de tráfego automóvel". Sommelier no restaurante DOC, do chef Rui Paula, que se encontra fechado desde 16 de março, espera voltar ao trabalho no dia 2 de junho. "Vamos voltar de forma parcial, com metade dos funcionários, vamos ver o que vai acontecer. As pessoas começam a perder o medo e a sair à rua. Esperamos que assim continue", diz, antes de entrar na bomba. 

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Voltamos para trás e apanhamos a Nacional 2, em direção ao Mezio, Castro Daire. Apenas o café e a loja de artesanato se encontram abertos. 

Maria dos Anjos está a limpar o balcão do café. Ao sentir movimento, levanta a cabeça. Vemos-lhe apenas os olhos. Está de máscara. Trabalha ali há 32 anos. Depois de o espaço ter fechado portas durante dois meses, voltou ao trabalho na segunda-feira (18 de maio).

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“O primeiro dia foi muito fraco. Na terça foi um bocadinho melhor. Esperamos que continue a melhorar de dia para dia. São pessoas que já vinham habitualmente e agora regressaram. Um senhor chegou a dizer-nos ‘epá, até que enfim que vocês abriram porque andávamos aqui cheios de fome. Não tínhamos onde comer em lado nenhum’, conta Maria dos Anjos, sorrindo. 

“Reduzimos o número de mesas, ainda nos estamos a adaptar às mudanças, mas acho que vai tudo correr bem. Fazemos a desinfeção das mesas, dos balcões, em média, seis vezes por dia, não esquecendo as casas de banho”. O uso de máscara é obrigatório e há soluções alcoólicas espalhadas pelo balcão. 

O restaurante abria dentro de momentos. Às 12h. Os almoços são servidos até as 15h. Depois volta a abrir às 19h. Mas os almoços são mais concorridos do que os jantares. 

“Temos fechado mais cedo porque não compensa estarmos abertos ao jantar. Temos fechado por volta das 21h. Na terça-feira servimos 27 refeições e isto era uma casa que servia, diariamente, 100 almoços. Teve uma quebra muito grande. No primeiro dia servimos 13. Na segunda-feira tivemos apenas três jantares. É muito complicado. Isto é uma associação que também tem muitas despesas. Tem o apoio domiciliário, que nunca deixou de prestar aos idosos porque eles não podiam ficar sem alimentação”, conta.

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Um regresso “paradinho, paradinho, paradinho”

Lurdes Quintans vende artesanato no Mezio há 35 anos. Viu-se afastada da loja um mês e meio e regressou no dia 4 de maio. Perguntamo-lhe como foi o regresso. “Ui… Paradinho, paradinho, paradinho. Mesmo parado. As pessoas estão muito reticentes ainda. Não sei… Ainda não lhes dá para sair. Não sei se é medo se é falta de poder económico. Sei que [o negócio] está muito fraco”, diz, acrescentando que a abertura do restaurante pode chamar mais gente. 

Sobre as expectativas para o futuro, responde-nos: “a ver vamos”.

À saída encontramos José Matias. Foi buscar o almoço. “Não sabia que [o restaurante] estava aberto. Vim à descoberta. Vou aproveitar”. Prefere levantar a comida, do que ficar o restaurante. “Sinto-me mais seguro”. Chegou ali vindo da A24 e diz não se ter ruzado com muitos carros. Ali, na N2, “muito menos”. Já reformado, os impactos da pandemia foram mais a nível pessoal. Ficou privado de estar com o filho durante dois meses. Sobre o futuro pensa que “nada disto vai ser como era antes”.

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Os que trabalham pela A25 alertam para que não se tenha pressa

Em Mangualde encontramos Carlos Borges, natural de Nelas, dono de uma empresa de transportes. “Estivemos na linha da frente, sempre a trabalhar, sem qualquer baixa na equipa e aqui continuamos. 

Sempre que, ao longo de dois meses, se fez à estrada e encostava nas áreas de serviço o que encontrava era “nada”. “Completamente vazio. Vivemos dois meses no deserto. Agora já se vêem mais viaturas na estrada, mas é preciso ir devagarinho. Penso que as pessoas estão a tentar apressar um bocadinho a situação. Acho que não devem ter tanta pressa”, alerta.

Henrique Barros, estudante, vinha de Viseu ao serviço da empresa que é do pai. Durante o Estado de Emergência foram poucas as vezes que circulou por ali, mas já nota diferença no movimento.

“Há mais movimento, até na cidade para sair de Viseu. Estou otimista em relação ao futuro. Com saúde, precaução e segurança, vamos chegar a bom porto e à nossa normalidade”, conclui o jovem.

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Encerramento de fronteira travou movimento em Celorico

Seguimos viagem até Celorico da Beira. Por ali há quem apenas fale num ligeiro aumento, “nada do que era antigamente”. “Isto é um ponto de passagem, essencialmente, de turismo. Tínhamos muitos espanhóis que vinham para o Porto, Aveiro, Figueira da Foz. Somos a principal entrada do país, por isso apercebíamo-nos da vinda deles. O encerramento da fronteira leva a que o movimento seja menor. Já se nota que as empresas voltaram a laborar e que as pessoas já começaram a sair de casa novamente, mas ainda não é igual” conta fonte que prefere não ser identificada.

Para entrar no espaço comercial é obrigatório o uso de máscara e há álcool gel à saída das casas de banho e junto ao passa bolos, “quando, na altura, funcionávamos de porta fechada”. Dentro da loja só pode estar um cliente. 

Gustavo Casagrande, brasileiro, reside nas Caldas da Rainha. Encontrámo-lo em Vouzela. Nas últimas três semanas tem ali passado por motivos de trabalho. “Já se nota mais movimento, não só camiões, como também carros comerciais e particulares”, explica.

Também o funcionário da estação diz que já se nota mais movimento “desde que acabou o Estado de Emergência”. “Antes eram só as pessoas que tinham que trabalhar, agora não. Até a nível de faturação

De regresso a Viseu, encontramos Carlos Sousa, funcionário das áreas de serviço. “Desde 1 de maio o movimento nas estradas aumentou drasticamente, para o dobro, se não for mais, e muitos deles [automobilistas] não andam a trabalhar. apanhámos muitas operações stop e alguns foram mandados para trás, por isso não andam a trabalhar”, conclui.

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Ascendi regista ligeira recuperação no tráfego médio diário

Contactada a concessionária da A25, Ascendi, adianta que "no que diz respeito ao tráfego na A25, registou-se no período durante o Estado de Emergência um decréscimo nos valores médios diários de cerca de 65%". Nas últimas semanas, já no decurso do Estado de Calamidade, "tem vindo a registar-se uma ligeira recuperação no tráfego médio diário, situando-se atualmente esse decréscimo em aproximadamente 45%."

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