15 Ago
Viseu

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Doentes atendidos por médicos sem máscaras nas urgências do Hospital de Viseu

por Redação

20 de Junho de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Médicos atendem doentes nas urgências do Hospital de Viseu sem as obrigatórias máscaras de proteção que evitam a propagação do novo coronavírus. O relato de “uma noite de caos” foi feito ao Jornal do Centro por doentes que passaram pelo serviço no início da semana. “Na triagem deram-me uma máscara cirúrgica para substituir a social que levava, mas nos corredores das urgências havia médicos com as máscaras debaixo do queixo e auxiliares sem qualquer proteção junto dos doentes. O caricato foi o médico que me atendeu não ter máscara. Eu nem queria acreditar”, diz.    

Segundo os relatos escutados pelo Jornal do Centro, “aquilo (as urgências), na noite de segunda-feira, 15 de junho, estava um caos. Havia pessoas com tempos de espera superior a 12 horas e que diziam em voz alta que o Hospital de Viseu era um matadouro e que nunca tinham visto um atendimento tão mau”.

Às 21h00 havia pessoas à espera de ser atendidas desde o meio-dia. Depois das duas da manhã ainda aguardavam o resultado de exames efetuados ao início da noite. 

Ao Jornal do Centro, o utente contou um caso que o chocou. “Um senhor já com alguma idade, em cadeira de rodas, com um hematoma na zona da cabeça, possivelmente devido a uma queda, ficou sozinho, os acompanhantes não puderam entrar, até o chamarem para o consultório. Sem acompanhamento, o senhor por várias vezes levantou-se da cadeira de rodas, para procurar os familiares, e quase a cair eram os seguranças ou auxiliares que o encaminhavam novamente para a cadeira de rodas. Isto porque o acompanhante teve que ficar à porta”, lamenta.  

Nessa mesma noite terá havido o caso de um utente com Alzheimer e Parkinson, que também teve que entrar sem acompanhante.

Na sala de espera as pessoas revoltavam-se contra os tempos de espera e a falta de condições para serem atendidas. “Houve uma senhora que contava que quando foi atendida pelo médico, foi-lhe questionado sobre qual o medicamento que estava a tomar, e depois da resposta, o médico disse que esses comprimidos se davam a grávidas e a pretos”, relata.

Contactado pelo Jornal do Centro, o Centro Hospitalar Tondela Viseu diz “não ter conhecimento de nenhum procedimento errado”, garantindo que está “a cumprir as práticas recomendadas pela Direção-Geral da Sáude”.

 

Ordem diz que uso da máscara é obrigação ética dos profissionais

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, confrontada com esta situação, diz que os clínicos “e os profissionais de saúde em geral têm que ter responsabilidade e consciência profissional”.

“Sabemos, e a evidência científica tem-no demonstrado, que há comportamentos essenciais, nomeadamente, em quem presta cuidados de saúde. Como é o caso do distanciamento social, que também é importante dentro das próprias unidades de saúde, sempre que possível, e do uso da máscara”, começa por dizer o presidente, Carlos Cortes.

“Não é um conselho, mas, sim, uma obrigação ética e deontológica os médicos, e quem trabalha na prestação de cuidados de saúde, o uso da máscara. Em primeiro lugar, para proteger quem está do outro lado, mas também para se proteger a si próprio. É uma recomendação da Direção-Geral da Saúde e também é obrigação dos clínicos manterem-se atualizados sobre essas mesmas indicações e evidências científicas”, frisa o dirigente da Ordem, garantindo que vai intervir, porque esta é uma “situação grave”.

“Se a Ordem dos Médicos tiver conhecimento de situações onde estas precauções não são respeitadas, tem que, imediatamente, intervir, obrigando os médicos a cumprir com essas obrigações. A situação é tão grave para os utentes, como para a segurança dos próprios profissionais. Nenhum médico, nenhum profissional de saúde, pode, numa altura destas, estar a tratar pessoas sem usar máscara. Tem de se recusar a fazê-lo”, defende Carlos Cortes.

O clínico adianta, ainda, que vai “imediatamente, notificar o Hospital”. “Quero que me diga se realmente corresponde à realidade ou não, porque, se sim, é de enorme gravidade. O último sítio onde pode existir esta falha é no Hospital, nomeadamente, no Serviço de Urgência”, conclui.

 

Situação “deve ser denunciada”, garante Sindicato dos Enfermeiros Portugueses

Já Alfredo Gomes, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), garante não ter recebido qualquer relato “de situação do género”. “Se realmente acontece, não devia, porque as orientações, quer da Direção-Geral da Saúde, quer do Ministério da Saúde são claras e estão em vigor. Qualquer profissional de saúde, seja médico, enfermeiro, assistente operacional, deve cumpri-las. Os equipamentos de proteção individual existem nas instituições e são para ser utilizados”, afirma, garantindo que, tão importante como a segurança do profissional de saúde, é a do doente.

Alfredo Gomes garante, ainda, que ao Sindicato não chegou “qualquer indicação de que falte material”. “Portanto, se está disponível deve ser usado, se falta, tem que ser denunciada a situação, mas penso que não é a situação neste momento”, remata.

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