31 Mai
Viseu

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GNR sacia “fome de conversa”

por Redação

09 de Maio de 2020, 08:36

Foto Igor Ferreira

“Quando nos despedimos, ficamos com o coração apertadinho porque sabemos que vão ficar sozinhos e sem ninguém para conversar”

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Todos os dias percorrem centenas de quilómetros para saber, por exemplo, como está a D. Joaquina ou o Sr. Alfredo. São a segurança, a companhia e o ouvido amigo para muitos dos idosos que vivem isolados. A função: serem militares da GNR. A missão: fazerem parte da Secção de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário.

O cabo Santos e a guarda principal Saraiva preparam-se para mais um dia de estrada. Agora com viseira e máscara, entram no carro para mais uma ronda pelas aldeias e serras onde há idosos sinalizados a viver isolados ou sem retaguarda familiar.

No lugar de Sardinho, em Magueija (Lamego), entre as giestas floridas de amarelo e o som do rio Balsemão aparece Alfredo Pereira. Tem quase 72 anos e uma história que nem o próprio sabe contar. Dado como desertor e depois como morto, foi só em 2019 que “voltou a existir”. Tudo graças à perseverança dos militares da GNR que não desistiram enquanto não tentaram dar, dentro do que o Sr. Alfredo permite, uma vida com outras condições. É que este agora cidadão lamecense vive sozinho numa casa no meio da serra. Não é apreciador de companhia e gosta de ter a sua vida longe de qualquer olhar. “Não foi fácil conquistar a sua confiança”, admite o cabo Santos que durante meses e com várias abordagens tentou aproximar-se e criar uma relação de amizade que levou a que o Sr. Alfredo agora tenha um cartão do cidadão, uma conta no banco e uma pensão de sobrevivência.

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"Aqui a liberdade é saúde”

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“Tem tudo o que precisa?”, pergunta o cabo Santos. Alfredo diz que está fino e que para a próxima quando a GNR aparecer se ele não estiver por perto é “deixar os recados na caixinha”. A caixinha é uma espécie de caixa de correio colocada do outro lado da casa, do outro lado do rio e do outro lado do monte que leva ao caminho onde está parado o carro da GNR.

“Quando vem ter connosco, vem sempre mais arranjadinho. Faz questão”, conta o militar.

Entre dois dedos de conversa e um desfilar de memórias trocadas no tempo e nos locais, os dois militares deixam alguns conselhos. “Não se esqueça de levar a máscara quando for buscar as compras ou tiver de ir a Lamego”, avisam. Alfredo sabe que anda qualquer coisa no ar porque ouve as notícias num rádio que diz ter na casa sem luz. “Mas aqui a liberdade é saúde”. Parece que nunca disse coisa tão certa. “Para sim, é”, diz, em jeito de desabafo, o militar.

“Está fino, é verdade mas olhe que é preciso de vez em quando ir ao médico ver se está tudo bem”, remata o cabo Santos. Antes de regressar para o seu mundo, o Sr. Alfredo deixa ainda pistas do que poderá ter sido a sua vida num passado distante. O gado que lhe foi roubado, o tempo que andou no mato no Ultramar e o colega de Mafra. Agora, como companhia tem o Jacó, o cão que não quis aparecer ao encontro. Talvez na próxima visita.

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Depois de Magueija, o destino da manhã é Mazes. À porta da pequenina casa de uma só divisão está a D. Joaquina. É utente do Centro de Dia de Lalim, mas desde que fechou por causa da pandemia provocada pelo novo coronavírus teve de regressar à aldeia. Na soalheira da porta, sentada num banquinho tem na mão um terço, “a pistola” da salvação como diz assim que avista os dois militares. Tem quase cem anos, se bem se recorda. Sabe que não é neste mês, nem no próximo, mas sim no outro que faz anos. Deduz-se, portanto, que será em julho.

Enquanto espera pelo almoço, que há-se ser entregue pelo senhor Mário do Centro de Dia, vai desfiando memórias enquanto apanha sol. Um problema nos olhos faz com que tenha de usar óculos. No rosto, um modelo moderno, oferecido por uma aldeã emigrante, e que contrasta com tudo o que a rodeia, logo a começar pela cruz de madeira e o ramo seco que está ainda pendurada no pequeno portão de entrada. Objetos de outros tempos.

A D. Joaquina gosta de falar e meter piadas sempre pelo meio das conversas. Do outro lado, a guarda principal Saraiva e o cabo Santos ouvem de sorriso no rosto. “É um doce”, diz a militar que não se importa nada de ouvir a mesma história sempre que vai ter com esta idosa. Já apanhou um grande susto, como no dia em que chegaram lá a casa e só tiveram tempo de chamar o INEM. “Passou muito mal, mas já está aqui de novo”, conta.

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Os minutos vão passando e a conversa continua. Os dois militares da GNR não se cansam de dizer para ter cuidado com quem lhe aparece à porta. Duvidar dos que falam bem e querem recolher dados pessoais e recorrer aos vizinhos se for preciso. Do lado da D. Joaquina, o tempo é para falar da médica de Castro Daire, do quanto não gosta de andar de carro, do que fazia no Centro de Dia e da filha e da neta. Aqui, os olhos vermelhos, agora descobertos dos óculos, enchem-se de lágrimas. “É sempre assim, fala-se da filha...”, comenta a guarda Saraiva. Para a militar, também é sempre assim... “quando nos despedimos, ficamos com o coração apertadinho porque sabemos que vão ficar sozinhos outra vez e sem ninguém para conversar”... pelo menos, até à próxima visita.

 

 

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Desde que a pandemia começou a fazer parte do dia-a-dia dos portugueses que o objetivo destes militares passou a estar apenas focados na população mais velha.

“A nossa preocupação em cada saída é que, como eles têm fome de conversa, sejam alvo de burla, enganados por pessoas que ganham a confiança do idoso e vão tirando alguma coisa deles para depois os enganar. O que nós explicamos é que com as pessoas que os abordam, dizendo que são funcionários do banco ou da câmara ou dos CTT, para terem cuidado, para não fornecerem dados, não os deixarem entrar em casa. Tivemos aqui conhecimento que passaram aqui indivíduos que andavam a dizer que vinham tirar a contagem porque eram funcionários da Endesa. Explicamos que é tudo mentira”, sustenta o cabo Santos.

Já a militar Alcina Saraiva sublinha que, agora, com a pandemia “alertamos para se protegerem, não se aproximarem das outras pessoas. Tentamos explicar o que é isto do vírus, mas não é fácil”, admite.

Os militares que pertencem a esta secção, e são cinco em todo o distrito de Viseu, visitam as pessoas que “achamos que necessitam mais do nosso apoio”. “Acabamos sempre por ir para casa a pensar neles, sempre com a preocupação”, concordam os dois elementos da GNR que depois destas duas visitas ainda têm muitos outros quilómetros para percorrer e muitas histórias para voltar a ouvir.

Só no Destacamento de Lamego, os três militares destacados nesta secção, que dentro de pouco tempo vai envolver também ações de sensibilização para os Direitos Humanos, além das que costumam também fazer com o comércio e escolas, estão responsáveis por seis concelhos. “Somos poucos para tanta área e tanto idoso. Mas é a nossa missão”, rematam.

De acordo com o relações públicas da GNR de Viseu, no distrito de Viseu estão sinalizados cerca de 3 400 idosos que vivem isolados ou sem apoio familiar. Só nas últimas semanas foram visitados mais de mil.

 

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