01 out
Viseu

Região

A loja de ferragens que “já teve mercearia”

por Redação

01 de agosto de 2020, 08:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

As prateleiras até ao teto são as originais e algumas ainda têm vestígios da época em que “era também mercearia”. Para chegar ao topo da “alta estante”, é preciso subir “pelo menos 77 anos de história”. Fundada a fevereiro de 1943, a loja Jaime Deus Leite & Lda, “já teve mercearia, drogaria, móveis e ferragens”.

 

“Para não deixar cair isto”, Carlos Vieira, agarrou o negócio do pai e passou ao lado de “uma carreira de professor, uma profissão que até gostava”. “O meu pai trabalhou aqui desde os 14 anos até falecer com 62. Quando ele morreu, eu vim para aqui. Abandonei a função pública... e tirei o curso de professor”, conta.

Sem arrependimentos, o proprietário acredita que o pequeno comércio “é outro curso universitário. Contacto com muita gente, aprendi muita coisa com alguns clientes que, podiam nem ter estudos, mas que eram muito sábios”.

 

“Há 40 anos ou pouco mais”, a Jaime Deus Leite & Lda, estava apetrechada por “uma guilhotina para cortar o bacalhau, pelas tulhas onde se deitava o arroz, o feijão, o açúcar. Vinha tudo em granel em sacos grandes, que hoje está outra vez na moda”, descreve o proprietário, enquanto remexe na única gaveta que ainda sobra.

.

Com saudade, recorda os velhos tempos “em que a cidade estava mais concentrada”. “Isto já teve muitos empregados. Nos anos 50 e 60, as montras eram portas e os clientes entravam. O balcão tinha 4 ou 5 empregados sempre a atender, fora os dos móveis”, revela.

O último funcionário já pousou as ferramentas “há meia dúzia de anos”. “Foi o senhor Carlos Gouveia. Na altura foi uma mais valia porque ele adaptou-se bem aqui. Alguns clientes até achavam que ele era o proprietário. Enquanto eu ia dando algumas aulas, era ele que estava aqui”, confessa.

Com o pensamento ainda nos “velhos tempos”, relembra o largo onde paravam as camionetas da União do Satão, “cheias de pessoas. Vinham à feira semanal, às lojas”. “Viseu era uma cidade que vivia essencialmente do comércio, uma cidade de pequenos comerciantes, e também de alguns serviços”, lembra.

Hoje em dia, é uma casa que não passa despercebida aos olhos de quem passa. “Lembro-me de um casal belga que veio aqui e pediu para tirar fotografias porque na Bélgica já não havia lojas destas. Vem aqui muita gente, sobretudo estrangeiros, a dizer para não fechar isto porque já não se vê lojas destas”, conta.

Para o proprietário, a qualidade, a confiança e um “bom atendimento” continuam a prender a clientela habitual ao pequeno comércio. “Há um atendimento personalizado. Isto parece um chavão, mas é verdade. Se vier aqui um cliente com uma fechadura, a primeira coisa que faço é abri-la e ver se há alguma peça desencaixada. Ponho-lhe a peça no lugar e não lhe levo nada. Se for uma grande superfície tem que levar uma fechadura”, refere.

Apesar de ser uma cidade do interior, Viseu está recheado de grandes superfícies. Carlos Vieira aponta “a falta de visão autárquica” como entrave ao desenvolvimento do centro. “A cidade ficou mal desenhada, com o centro oco. Não tem sido fácil para o pequeno comércio resistir”, desabafa.

“Há uns tempos para cá”, os viseenses têm assistido ao encerramento de grandes casas de ferragens, como a Casa Guimarães. A chegada da pandemia de Covid-19, “veio acelerar a crise que já existia no pequeno comércio, não só na área das ferragens, mas em geral”.

No entanto, a Jaime Deus Leite & Lda procura superar as adversidades através da “melhor qualidade ao melhor preço”. “A melhor relação qualidade-preço é a nossa tradição desde 1943” que, na verdade, é o lema da casa “há muitos anos”.

 

 

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts