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Não houve Cavalhadas, mas pode haver recorde: é de Teivas o maior vestido do mundo

por Redação

19 de setembro de 2020, 07:00

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Era para ser dançada em Junho, mas a pandemia não deixou a Morgadinha sair à rua. O ano de 2020 está a ser marcante para todos, mas Teivas quer deixá-lo ainda mais na memória. Três bordadeiras juntaram-se e em menos de dois meses trabalharam mais de 300 metros de tecido. Houve quem, até de férias, pensasse como chegar ao objetivo. O vestido, esse, vai ter 8 metros e, por isso, entrar no livro dos recordes do Guiness

“Aí vem Teivas de novo, reviver a tradição”. É assim que a Morgadinha se apresenta à cidade de Viseu anualmente, chegada de Teivas. Este ano, a Covid-19 não permitiu ajuntamentos e, como tal, o povo de Teivas reinventou-se para que a tradição se reavive. Vai daí, entre conversas, surgiu a ideia: se não é possível dançar a Morgadinha, e que tal bordá-la? De ideia passou a certeza. De certeza passou a recorde.

Agora há 8 metros de vestido e o livro do Guiness vai ter o nome de Teivas registado como o lugar onde se construiu o maior vestido do mundo, até à data. Mas para isso foram precisos quase dois meses e o trabalho de três mulheres que durante várias horas não pararam de bordar. “Quando me falaram em oito metros, eu dizia: 'sim, sim, vamos fazer, vamos lá'. Mas depois quando comecei ver as armações todas, pensei: 'isto é mesmo alto'”, refere Nélida Rodrigues, uma das três bordadeiras envolvidas nesta missão.

A Nélida junta-se Cátia Carvalho e Alice Loureiro. No caso de Alice até de férias pensou o vestido. Pensou e desenhou... na areia. “A Nélida ligou-me a perguntar-me se tinha tempo para fazermos um vestido muito grande e estivemos até às duas da manhã, ao telefone, a fazer medidas. Ao outro dia, na praia, eram umas oito da manhã, pus-me a fazer com uma fita métrica a altura do vestido, da cinta, da largura, como ia ficar o folho... Então eu dizia às pessoas que queriam passar: “Ninguém passa por estes riscos!”. Agora essas pessoas ligam-me a dizer que realmente estou metida num grande sarilho”, diz Alice, entre risos.

O sarilho, como alguns lhe chamam, vai ser recorde mundial e será apresentado à cidade de Viseu, no dia do feriado municipal, esta segunda-feira, 21 de setembro. “Quando, no sábado, o vestido foi colocado ao alto, eu tremi toda. Acredite que tremi. Fiquei muito emocionada”, refere, com um brilho nos olhos.

Todas as três bordadeiras têm trabalho durante o dia e aproveitam para depois de chegarem dos empregos, já noite dentro, tratarem do vestido. “É um vestido que pensámos e alterámos. Comprámos tecido por duas vezes. Só no final é que vamos perceber até porque precisamos de mais pano para os acabamentos”, refere Alice Loureiro. Esta é fase dos acabamos que, dizem, exige mais atenção de quem está a bordar. “Temos de dar mais de nós. É uma questão de perfeição. As pessoas vão reparar no que está mal e no que está bem. Um pequeno pormenor que não esteja tão bem, pode estragar o trabalho destes dias todos”, concretiza Alice Loureiro.

Ao longo destes mais de 60 dias foi preciso fazer vários ajustes ao vestido de acordo com a armação em ferro que está no Pavilhão onde há vários anos se constroem carros alegóricos. Uma empresa ajudou a que o ferro se tornasse o molde do vestido, mas os filhos da terra, como por ali também se costuma ouvir, ajudaram nesta missão. Um deles, David Cardoso, é um dos habituais construtores dos carros das Cavalhadas. “É um desafio um bocadinho maior em relação aos carros alegóricos. É mais simples porque é uma figura linear, mas com os seus “quês”. Temos de fazer melhores apoios porque o vestido não fica atrelado a nenhum trator como acontece nas Cavalhadas. Isto serve para matar o bicho que está dentro de nós de construirmos os carros”, refere.

Na Associação, a presidente Alexandra Sá torce para que do sonho se passe à realidade. “Queremos provar que as Cavalhadas de Teivas estão cá, estão fortes e que estamos todos unidos para manter esta cultura e arte populares. Mostrar que conseguimos e nos reinventamos neste ano tão atípico”, afirma.

Vamos voltar à casa onde se os minutos se contam para que nada falhe. Ali, olha-se para a peça vezes sem conta. Tem de ficar perfeito, dizem. E enquanto se dão os últimos pontos e se afinam as pontas, há música para animar quem trabalha. Um piano, o instrumental da marcha da Morgadinha, um microfone e a festa fica pronta. Começa a cantar-se o hino da Morgadinha, com ou sem música a ajudar.

Tem sido assim naquela casa até valentes horas da madrugada. Ao outro dia, levantam-se e segue cada qual para o seu emprego. À noite juntam-se naquele lugar. Os fins de semana não existem para mais nada se não bordar. A vida destas pessoas tem sido assim nos últimos dois meses. Para que valha, no fim, um recorde.

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