15 Ago
Viseu

Região

Pelos trilhos da terra queimada

por Redação

27 de Junho de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Três anos depois nos locais por onde o fogo passou, a 15 e 16 de outubro de 2017, ainda são visíveis alguns sinais do rasto de destruição que deixou extensas áreas de terra queimada. Agora, reerguem-se novos espaços verdes, uma floresta renovada, mas desalinhada. Nos pequenos lugarejos e aldeias, onde ainda permanecem algumas casas em ruínas, nunca os seus habitantes de idade mais avançada regressaram, nem chegaram a reconstruir das cinzas o berço que os viu nascer.

Com idades que variam entre os 75 e mais de 90 anos, acabaram por abandonar as suas terras, onde cresce, agora, de forma desordenada e aleatória, uma densa vegetação selvagem, ou novas florestas num aglomerado intenso de material combustível, que se reergueu durante os últimos três anos.

“São autênticos matagais renascidos das cinzas que agora estão por limpar”, conta Joaquim Costa de uma empresa de limpeza florestal.

De roçadoira mecânica em punho, Joaquim Costa lá andava na sua labuta a limpar a vegetação rasteira à volta dos eucaliptos que voltaram a nascer numa propriedade privada à beira da Estrada Nacional 2, na freguesia de Dardavaz, concelho de Tondela, por onde também passou um “tufão de fogo”.

O jovem Mário Borges, que também integra esta mesma equipa de “cantoneiros florestais” de uma empresa de Carregal do Sal – Recortar Horizontes -, garantiu ao Jornal do Centro que “desde 2017 para cá, a floresta está em piores condições, cresceu e duplicou de forma desordenada, porque as sementes dos eucaliptos e outras espécies foram espalhadas pelos ventos fortes”.

“O grande problema é que ninguém se importou com o efeito que se seguiu pós-incêndios de outubro de 2017, por isso, a nossa floresta, desde o IP3, passando por várias vias rodoviárias, como são os casos da Estrada Nacional 234, Nacional 2, IC12, Estrada da Beira (EN17), é o caos que se pode ver e que ninguém deve ignorar. O barril de pólvora que existia em outubro 2017 regressou e com o dobro da pujança que existia na altura”, assegura o jovem “cantoneiro”.

Joaquim Costa adianta que, “infelizmente, ainda há muitas matas sem qualquer sinal de limpeza do restolho, das ervas daninhas e rasteiras, totalmente sêcas, prontas para qualquer ignição iminente”. “O rastilho existe, porque muitos destes sobrantes, resíduos florestais continuam espalhados por toda a parte por onde passamos. A floresta no seu todo, ao longo de todo o território por onde o turbilhão de fogo passou em outubro de 2017, está ainda pior, mais desordenada, muitos eucaliptos voltaram a nascer e a crescer como cogumelos, mas sem qualquer ordenamento, o que é um perigo ainda maior do que antes”, lamenta.

 

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Pólvora seca

 

Percorrer o IP3 desde a Ponte do Cunhedo, ajuzante à Barragem da Aguieira, passando pelo troço de ligação a Mortágua, por aldeias, como Alamaça, Freixo, Barril, Chão de Vento, Chão Miúdo, Vale Paredes, Vila Moínhos, Vila Meã, toda a zona do Reguengo, incluíndo Vila Gosendo, Felgueira até a Campo de Besteiros e a Serra do Caramulo, passando por Vouzela e Oliveira de Frades, o que antes tinha sido arrasado pelas chamas é agora uma nova zona verde selvagem, que cresceu de forma aleatória, num amontoado de vegetação densa e perigosa para qualquer faísca que possa reancender as memórias de outubro de 2017.

Chegados a Santa Comba Dão, o cenário repete-se. A vegetação e muitas espécies arbóreas florestais, como por exemplo as mais dominantes como o pinheiro bravo e o eucalipto, regressaram em força e de uma forma desordenada. Os proprietários privados não conseguiram intervir de forma célere, muitos por incapacidade económica e falta de meios técnicos e mecânicos para o fazer.

A aldeia do Coval (Santa Comba Dão), junto à EN234, em direção a Mortágua e do lado da margem esquerda do rio Criz, foi um dos lugares onde se viveram momentos de intenso terror e onde muitos bombeiros ficaram cercados pelo fogo. Ainda há quem recorde. “Não há meios, não há carros, não há água diziam ao chefe Morais. Os bombeiros tentaram a fuga quando, de repente, surgiu uma coluna de três carros que chegaram ao local” contou Adelaide Simões, habitante na povoação do Coval.

Foram cinco as pessoas que morreram no incêndio em Santa Comba Dão, todas na freguesia de São Joaninho. Três das vítimas perderam a vida quando fugiam de carro. As outras duas morreram num aviário. As chamas destruíram culturas agrícolas, casas, anexos e uma pensão.

 

O verde da paisagem é belo e traiçoeiro”

 

Mais há frente, nas duas margens do rio Criz, pela a EN234, entre Santa Comba Dão e Mortágua, o que se vê são imensas áreas verdejantes, cheias de matagal, uma vegetação densa e espessa, ao redor de aldeias assustadas como Vale Paredes, Chão de Vento, Zona Industrial de Mortágua, passando pela aldeia do Freixo e o Montebelo Aguieira Resort, até Almaça, na fronteira com o concelho de Penacova.

Ao longo da Estrada Nacional – 2, do IP3, do IC12, da EN234 e vias secundárias (regionais e municipais) o cenário é o mesmo.

O corredor de chamas, que agora deu lugar a um novo vulcão de combustíveis constituído por um conjunto de espécies arbóreas, onde predominam os eucalipatais, projectava-se em três bifurcações que evoluíram de forma quase perfeita, formando uma fila indiana rumo a norte, pois o vento soprava de sudeste para noroeste naquela altura.

 

Lugar fantasmagórico

 

Ao longo do que resta destes lugares e daqueles onde ainda se reergueram novas casas reconstruídas depois de terem sido dizimadas pelo fogo, também existem outros edificados que permanecem em ruínas porque os proprietários, por serem idosos, foram recolhidos em lare ou por familiares e nunca mais regressaram ao lugar de origem e onde sempre viveram.

É o caso de Vila Ruiva, concelho de Nelas. O cenário no lugar do Padrão, é desolador. Um lugar com duas ou três habitações em ruínas. Há sua volta emerge uma imensa área de pasto infestada de uma vegetação seca e sem vida, onde também fica a casa da professora Branquinha, uma mulher com mais de 80 anos que teve de fugir quando a sua casa foi engolida por um remoínho de fogo.

“Ficou reduzida a cinzas e desmoronou-se, mas foi totalmente reconstruída de novo, com uma construção mais sólida, mobilada e com acabamentos finais de grande qualidade. Mas não vive lá ninguém, porque ela foi embora para casa de uns familiares, em Mangualde” conta ao Jornal do Centro a anciã de Vila Ruiva, Maria do Nascimento Marques, de 92 anos.

“Tinha 89 anos quando fugi das labaredas, para casa de uns vizinhos. O fogo apanhou-me de supetão e eu há pernas para que te quero, corri quanto pude para fugir daquele diabo à solta que quase me matou. Nem sei ainda como estou viva, foi um milagre senhor”, acredita a Maria do Nascimento.

 

O anjo” de Santa Comba Dão

 

No Vimieiro, na Estação de Comboios de Santa Comba Dão-Gare, João Silva, 54 anos, motorista da Câmara Municipal, encontrava-se em casa a descansar quando, pelas 23h 00 do dia 15 de outubro, foi chamado para resgatar quase 300 pessoas na estação ferroviária, cercadas pelo fogo.

O antigo bombeiro, com 30 anos de serviço, voltou ao local e diz que nunca viu nada como o que se passou na madrugada daquela segunda-feira. Mas nem o risco iminente o fez recuar, o “bichinho” de bombeiro não o permitiu. Foi por isso que o quisemos conhecer e percorrer com ele o mesmo percurso que fez pelo menos seis vezes, para conseguir retirar toda a gente da zona de perigo.

Num longo relato na sua página pessoal do facebook, Marta Magalhães uma passageira que rumava a Lisboa, falava sobre o fogo e o fumo que obrigou o comboio onde seguia, a terminar a sua marcha em Santa Comba Dão, levando-a a um desespero que só desapareceu quando um estranho, a quem não perguntou o nome, a tirou dali para fora. A ela e a todos os que estavam retidos, há mais de quatro horas, na estação de Santa Comba Dão – primeiro nas carruagens, devido ao corte da linha da Beira Alta, e depois dentro da estação, por causa das chamas que entretanto cercaram o local. Até que, como descreve no seu texto, “um anjo apareceu a conduzir um autocarro, um anjo que arriscou a sua vida num domingo à noite a salvar cerca de 100 a 200 pessoas que estavam presas numa sala de espera”. Esse “anjo-herói”, como muitos dos passageiros do “Intercidades” lhe chamam, é João Silva.

 

O dia 15 de outubro de 2017 marcou a vida de muitos portugueses. O incêndio tomou dimensões nunca antes vistas na Europa. Devastou mais de 200 mil hectares de floresta, destruiu centenas de casas e levou a vida de 49 pessoas. Seis meses depois, a força das chamas ainda está na memória daqueles que lutam para recuperar o que fogo levou.

Após 2017, “a ação de quem tem responsabilidade na gestão florestal e na gestão dos incêndios rurais, jamais será a mesma” garante o comandante dos Bombeiros Voluntários de Mortágua.

Luís Filipe Rodrigues (engenheiro florestal e coordenador da Proteção Civil Municipal) não tem dúvidas de que “três anos passaram e os terrenos florestais são cada vez mais deixados ao abandono”. “A manutenção demasiado dispendiosa associada a uma incerteza de qualquer retorno das pequenas parcelas florestais, levam a um abandono ainda maior que se associa à falta de mão de obra, à desertificação das zonas rurais, onde os que permanecem são na sua maioria idosos e sem força para retomar atividades ancestrais de cuidado e cultivo de cada pedaço de chão como outrora”, referiu.

Para este operacional da linha da frente, “acontece que uma grande parte das áreas da Região Centro percorridas pelos incêndios de 2017 encontram-se, agora, ainda mais abandonadas, estão ocupadas por matos e árvores de espécies que, após o fogo, se comportaram como invasoras, com milhares de plantas a regenerar por metro quadrado, que tornam a paisagem como uma mancha quase contínua, uniforme, sem descontinuidade de combustíveis com condições para a propagação de incêndios mais gravosa do que aquela que tínhamos antes do incêndio de 2017”.

O especialista confere, na sua tese apresentada no Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração de Aveiro (ISCIA), que “a componente que mais contribui para o aumento da dimensão das áreas ardidas, é a quantidade da carga combustível e sua continuidade, assim sendo, o abandono de extensas áreas só pode levar a situações catastróficas cada vez mais recorrentes”.

Luís Filipe Rodrigues chama atenção para as “grandes áreas de território com áreas agrícolas e florestais abandonadas e sem manutenção, com micropropriedade rural, que desincentivam o investimento no interior do país, comprometendo a gestão e a proteção destes territórios”.

“Alguma coisa mudou sim, depois de 2017, aumentou o cuidado da limpeza junto de habitações, junto das estradas e zonas com atividade humana” referiu, no entanto.

“Temos que deixar de pensar na floresta como um problema de incêndios para o homem, passando a olhar para os incêndios como um problema para a floresta do homem”, diz o comandante que vaticina que o problema “é que as mesmas áreas percorridas pelos incêndios de 2017 possam, em breve, arder novamente, mas ainda em menos tempo, visto que a propagação do fogo será ainda mais rápida nesta nova paisagem de combustíveis contínuos”.

 

 

 



 

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