15 Jul
Viseu

Região

Qual terá sido o “segredo” para concelhos sem casos de Covid-19?

por Redação

30 de Maio de 2020, 08:30

Foto Igor Ferreira

Tarouca, São João da Pesqueira e Aguiar da Beira, que pertence ao ACES Dão Lafões, são os únicos concelhos que não registam qualquer caso de Covid-19 na região

CLIPS ÁUDIO

29 Mai 2020

Reportagem | Tarouca sem Casos Covid-19 (MarianaSilva)

Há três municípios na região que se mantêm, até este sábado, imunes à pandemia.

No norte do distrito de Viseu, não registaram um único caso de Covid-19 dois municípios: São João da Pesqueira e Tarouca. Não fazem fronteira entre si e estão rodeados por outros concelhos com vários casos confirmados. Também Aguiar da Beira, que pertence ao distrito da Guarda, mas ao Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Dão Lafões, não regista casos de infeção. 

O confinamento antecipado, vigilância apertada e apoios para evitar deslocações terão sido os “segredos”.

“Foi a precaução da população”

Filomena Dias, proprietária de um restaurante, voltou à terra que a viu nascer há cerca de um ano, depois de seis emigrados na Suíça. Confessa-nos que não era este o regresso que esperava. 

Perguntamos-lhe sobre o facto de Tarouca não registar qualquer caso de Covid-19. Responde, sem hesitar, que “é por causa de toda a precaução das pessoas”. “No início da pandemia havia pouquíssimo movimento, muito pouco mesmo”, conta, acrescentando que também a Câmara Municipal agiu cedo para evitar o pior. 

Depois de dois meses de portas fechadas, o restaurante reabriu no dia 18 de maio, “mas as pessoas ainda têm receio de entrar”, revela.

“Está a ser difícil. Tenho receio no futuro”, conta, depois de ter servido 17 almoços. No passado servia perto de 35.

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Tarouca “é um exemplo”

Ao virar da esquina encontramos o talho “Bons Sabores”. Lá dentro estão dois funcionários e a proprietária, Elsa Lima, natural de Lamego, com negócio em Tarouca há quatro anos. 

Elsa garante que o comportamento de cada um fez a diferença. “As pessoas portaram-se bem e fizeram com que isto acontecesse. Somos um exemplo”, sorri. Mas, no início da pandemia, houve alguma agitação. 

“Tiveram receio que lhes faltasse os bens essenciais. As pessoas não tinham noção do que podia vir a acontecer, por isso tivemos uma adesão ao talho muito grande no início. Quando [as pessoas] perceberam que nada lhes iria faltar, começaram a organizar-se. Não havia aqui aglomerados. As ruas foram ficando mais vazias e começou a vir aqui apenas um elemento de cada casa”, revela Elsa Lima. 

Mara Silva, de apenas 22 anos, diz que já se nota mais movimento mas, sobretudo, durante a manhã. “Há dias que, de manhã, se vê muito movimento em Tarouca, mas sempre a serem respeitadas as regras. À tarde costuma ser sempre assim paradinho”, diz, olhando pela janela. 

Não haver casos de Covid-19 é uma surpresa para as pessoas, conta-nos Mara. “Os nossos emigrantes que vieram, ainda no início de março, portaram-se muito bem. Tiveram os 15 dias em casa, tanto que não foi preciso a GNR andar em cima deles”, garante.

“[O vírus] foi combatido por todos”

Seguimos até à Câmara Municipal onde já está Valdemar Pereira, o presidente da autarquia, à nossa espera. Perguntamos-lhe qual o segredo para Tarouca não ter qualquer caso de infeção do novo coronavírus. Responde-nos prontamente.

“Aqui não há segredos. Até porque sabemos que também é um pouco de sorte. Preparámo-nos atempadamente. Reunimos no início de março para prevenir a situação porque sabíamos que a prevenção era o mais importante”, afirma o autarca.

A primeira preocupação foi em equipar todos os elementos que compõem as instituições do concelho: lares, IPSS’s, Bombeiros e GNR. “Gastámos uns milhares de euros em equipamentos de proteção individual. As IPSS’s fizeram o seu trabalho, e muito bem, os presidentes de junta também estiveram no terreno. Foi um trabalho conjunto. Sem esquecer as pessoas que seguiram todas as recomendações”, lembra Valdemar Pereira, acrescentando que nas ruas de Tarouca, durante dias, não se via ninguém. 

Também a linha SOS fez com que as pessoas deixassem de se movimentar na cidade. “Telefonavam e os colaboradores da Câmara levavam-lhes medicamentos, bens alimentares, tudo o que fosse necessário. Também produzimos 10 mil máscaras e entregámo-las no domicílio. Confeccionámos as máscaras através dos nossos funcionários do município, aproveitando o facto de os serviços estarem encerrados. Deixou de ser necessário as pessoas andarem na rua”, garante o autarca.

Também em relação à vinda de emigrantes, da Suíça e da França, a Câmara Municipal recebeu informação da sua chegada. “Imediatamente percebíamos se estavam a ter o comportamento adequado e toda a gente seguiu as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS”, afirma Valdemar Pereira. A linha SOS também serviu os emigrantes porque o autarca diz que “não queria que lhes faltasse nada”. “Foi um trabalho conjunto. O município assumiu aquelas que eram as sus responsabilidades, assim como as pessoas e os nossos emigrantes”, assegura.

Mas o trabalho é diário e a preocupação, agora, é a reabertura das escolas. “Temos reuniões constantes porque uma decisão tomada agora pode ser alterada daqui por uma hora”.

Todos as pessoas sintomáticos, no início de março, foram sujeitas ao teste da doença, pago pelo município. 

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“Tivemos sorte e eles azar”

Sem querer avaliar as medidas governamentais implementadas, perguntamos a Valdemar Pereira se daria algum conselho a um colega autarca sobre como agir e sabendo, agora, que Tarouca não regista qualquer caso se infeção, a resposta é: “Não. Não daria conselho nenhum até porque, tal como já disse, tivemos um pouco de sorte e eles tiveram um pouco de azar”, sorri. 

O sentimento para o futuro ainda é o de receio, “todos os dias”. “Se não tivermos receio, começamos a abrir o leque e depois pode ser prejudicial para todos. Todos os dias temos que estar preocupados porque isto pode acontecer”, conclui.

“É um milagre”

Aldina Silva, proprietária de um café e de uma loja têxtil, há 23 anos, nunca se viu forçada a fechar portas a não ser por força da pandemia de Covid-19.

“Tomaram medidas drásticas logo desde início, começamos a acautelar-nos e acho que é esse o motivo de ainda não haver cá nenhum caso. Até as pessoas idosas perceberam logo que tinham que ficar em casa”, conta-nos, não escondendo a “admiração” da população. “É um milagre. Estamos muito contentes, mas receosos que apareça algum, não com as pessoas que estão cá, mas com as que vêm de fora. 

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Na esplanada está Fátima Ferraz, que diz sentir orgulho nas gentes de Tarouca. 

“Nós acatamos logo as ordens desde o início e correu tudo bem, graças a Deus”, acrescentando, de imediato “e esperamos que continue assim”. 

José Pedro Silva, vindo da Amadora, veio visitar a família com a segurança de saber que não casos de Covid-19 no concelho. Não vinha à terra há sete anos. O vazio das ruas “não é habitual”. “Por esta altura estavam as piscinas abertas e havia mais gente e mais emigrantes”, diz.

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Rose Bottiglieri, proprietária de uma loja de costura, mostra-se orgulhosa nas gentes de Tarouca.

“Disseram-nos para ficarmos em casa e nós respeitámos. Em Tarouca houve respeito pela doença”, garante. em relação ao pouco movimento diz: “as pessoas ainda têm medo de sair de casa”.

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Serafim Cardoso, de 67 anos, e Pérola Vieira, de 65 anos, aparecem ao fundo da rua de mão dada. Saíram para ir ao supermercado e para desentorpecer as pernas. Contam-nos que há cerca de 40, 50 dias, não se encotrava ninguém por ali.

“As pessoas fizeram questão de ficar em casa. Só se saía para ir ao supermercado ou à farmácia”, diz, acreditando que “o segredo” para Tarouca não ser afetada pela pandemia foi o bom comportamento das pessoas.

Serafim recorda que no passado, por esta altura, aquela praceta estava cheia de carros suíços e franceses. Hoje não vê nenhum. “Este ano vi passar, apenas, dois carros com matrícula francesa, mas nem pararam. Cumpriram à risca todas as medidas”, conta. 

Quanto ao sair de casa, revela que “há sempre um pouquinho de receio”.

O casal vive em Tarouca há pouco mais de dois anos. Mudaram-se de Lamego, depois de 40 anos a viver em São Paulo, no Brasil. Apreciam a tranquilidade e a pacatez da terra. “O pessoal é de primeira. Ainda é como à antiga. Até os jovens quando passam dizem ‘boa tarde’ e isso já não se vê”. 

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Despedimo-nos de Serafim e de Pérola e continuamos a percorrer as ruas mais estreitas de Tarouca. Entrando na avenida principal, encontramos Maria Adelaide sentada à varanda. Com 82 anos, diz nunca ter visto nada igual. “Nunca me vi numa história destas, com panos na boca… e será que ficamos por aqui?”, questiona. Não sai de casa por causa da pandemia, mas também pelos problemas que tem nas pernas. Está à espera de ser operada. “É o caruncho”, brinca. 

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“Unimo-nos para nos protegermos”

José António Silva, proprietário de um supermercado junto da praceia dos táxis, diz que “quem manda geriu bem a situação”. “A [situação] mais preocupante era a do lar, mas foram tomadas precauções com o devido tempo, também o comportamento das pessoas foi ‘top’. Passaram-se semanas sem ver ninguém na rua. As pessoas tiveram consciência da gravidade da situação. Agora já se nota mais movimento. As pessoas começam a perder o medo”, diz, admitindo que ainda há receio. “Muito, muito, muito. As pessoas ainda de máscara na rua, a conduzir, em todo o lado porque têm medo”, conclui.

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Mina Assunção, natural de Tarouca, caminha a passo apressado, mas, mesmo assim, aceita falar connosco. “Na altura certa tomaram-se todas as medidas”, começa por dizer. Em relação ao vazio da rua, diz que “com este calor isto costuma estar cheio, até porque estão cá os emigrantes”, despedindo-se.

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Ainda antes de nos despedimos de Tarouca, na esquina da barbearia, encontramos um grupo de jovens. Tiago Martins, Hélder Melo, Luísa Campos e Anaísa Carvalho, todos de Tarouca.

“Estivemos sempre em casa, só agora é que começámos a sair mais, mas foi difícil. Todos cumprimos com as normas de segurança. Fomos cumpridores. Também por sermos uma cidade pequena, com pouca gente. Unimo-nos para nos protegermos”.

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“O mérito é de toda a população”

Ainda antes de partirmos de Tarouca, encontramos Rui Raimundo, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca e presidente da União das Freguesias de Tarouca e Dálvares.

À frente da Misericórdia há seis anos, o provedor prefere falar em trabalho do que em sorte.

“Além do fator sorte, que também é importantes nestas circunstâncias, Tarouca começou a trabalhar muito cedo. Na Santa Casa da Misericórdia, fomos dos primeiros a proibir as visitas, quando ainda ninguém o ponderava. Fomos os primeiros a transformar o centro de dia em apoio domiciliário, quando as indicações da Segurança Social ainda diziam para manter [o centro de dia], criámos equipas em espelho, fixámos o pessoal por piso… Tomámos uma série de medidas”, diz o provedor, acrescentando que, “a sorte dá muito trabalho”.

Em altura de desconfinamento, “ainda devemos estar mais alerta e redobrar as precauções”.

Em relação ao futuro, “tranquiliza-me o facto de na região não terem aparecido muitos casos os últimos dias, mas os cuidados são para ser mantidos”, alerta, consciente de que à medida que as respostas sociais do concelho vão começando a abrir, “o risco aumenta”. 

Rui Raimundo não esquece que o sucesso, no que à pandemia diz respeito no concelho, se deve, também, à população.

“Sem o bom comportamento da população nada disto era possível. As pessoas acataram as nossas recomendações e o mérito do que aconteceu no concelho é de toda a população”.

Em Tarouca agiu-se cedo, mas Rui Raimundo tem uma opinião diferente em relação ao resto do país.

“Quando apareceu o vírus, falou-se em tudo, no comércio, na restauração, e não se falava nos lares”. Algo que estranhou. “Se o vírus ataca os mais idosos, os mais idosos estão em lares, ninguém fala nos lares?”, questiona. “Houve, da parte dos políticos, muita falta de cuidados para com as IPSS’s e continua a haver”, afirma, não tendo dúvidas de que se se tivesse despertado para este problema mais cedo, não teriam havido tantos casos no país. “Acho que nem teria sido preciso um confinamento tão forte como aconteceu, que nos levou, agora, ao problema económico”, conclui.

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“Temos essa responsabilidade: defender as pessoas do concelho”

Também São João da Pesqueira continua imune à Covid-19. O presidente da Câmara, Manuel Cordeiro, aponta para medidas que foram tomadas cedo.

“Ainda antes do estado de emergência nacional, encerrámos todos os serviços abertos ao público, desinfetámos todas as ruas de todo o concelho e houve uma reunião com todas as forças de segurança, proteção e de saúde no sentido de definirmos uma articulação entre todos, o que correu e continua a correr muito bem. Todos os dias falamos e articulamos a nossa forma de agir. Também adquirimos muitos equipamentos de proteção individual que distribuímos pelas IPSS’s, pelos bombeiros e até pela GNR e saúde local”, diz o autarca, não esquecendo o papel importante da comunidade.

“Também fizemos muita sensibilização junto da comunidade que percebeu que a Câmara e proteção Civil estava a andar bem e que não podia adotar comportamentos de risco. Conseguimos que toda a gente se envolvesse e fizesse a sua parte. Tentamos fazer o máximo que pudemos. Temos essa responsabilidade. Defender as pessoas do concelho”, conclui.

“Foi um trabalho de equipa”

Tarouca e São João da Pesqueira pertencem ao Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Douro Sul. O Jornal do Centro falou também com a diretora do ACES, Albertina Cardoso, que destaca o trabalho de equipa. 

“Após a saída das orientações emanadas pela Direção-Geral da Saúde, houve uma proximidade extraordinária entre os municípios e o ACES. O objetivo comum foi fazer o seguimento de todas as medidas orientadoras e evitar que a propagação do vírus fosse manifestamente elevada. Foi, sobretudo, um trabalho em equipa e, evidentemente, o fator sorte tem sempre alguma importância neste tipo de situações, mas prevaleceu o trabalho em equipa com o objetivo único de minimizar os riscos que esta pandemia podia provocar e com uma proximidade constante com o cidadão do ACES Douro Sul”.

O Jornal do Centro tentou também falar com o presidente da Câmara de Aguiar da Beira, município que integra o ACES Dão Lafões, mas o autarca não respondeu às várias tentativas de contacto. 

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