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Recorde a entrevista que Diamantino Gertrudes da Silva deu ao Jornal do Centro

Capitão de Abril
11-10-2018
 

 

O capitão de Abril Diamantino Gertrudes da Silva vai a sepultar esta quinta-feira (11 de outubro) no cemitério de Vila Nova de Paiva. Natural de Moimenta da Beira, o coronel faleceu na última terça-feira vítima de doença aos 75 anos.

Pela vida e papel que desempenhou na implementação da democracia em Portugal, têm sido vários os testemunhos deixados ao capitão de Abril.

O PCP/Viseu destacou o percurso do coronel Diamantino Gertrudes da Silva, prestando homenagem pública "ao militar valoroso, democrata empenhado, humanista e homem de cultura". 

Já num comunicado assinado pelo presidente da Associação 25 de Abril, o coronel Vasco Lourenço escreve que Diamantino Gertrudes da Silva foi um “militar de Abril de todas as horas”.

Vasco Lourenço lembra que “foi o mais antigo dos quatro capitães que em Viseu, no RI14, desenvolveram grande atividade no Movimento dos Capitães”, atividade que “alargaram a toda a zona centro, como dinamizadores da conspiração”. 

“As suas militâncias envolveram então oficiais de Lamego, Guarda, Coimbra, Aveiro, para só referir as mais significativas”, acrescenta Vasco Lourenço.

No comunicado, no qual expressa “sentidas condolências à família do capitão de Abril, o PCP/Viseu realça ainda que Diamantino Gertrudes da Silva foi um “democrata convicto até que a saúde o deixou”, e “um difusor empenhado e entusiasta dos ideais de Abril, levando, sobretudo às escolas e coletividades, os valores da liberdade, da democracia e da justiça social, objetivos maiores da Revolução dos Cravos”.

Nas operações militares do 25 de Abril, Gertrudes da Silva comandou a companhia que saiu de Viseu, juntamente com as forças oriundas de Aveiro e Figueira da Foz, tendo um “papel determinante em Peniche”, onde controlou o Forte, que então era uma prisão com presos políticos. Além do seu papel na revolução de 1974, que derrubou a ditadura, Gertrudes da Silva escreveu vários livros.

Aqui fica uma das últimas entrevistas dadas pelo capitão ao Jornal do Centro onde fala da utopia que ainda o movia de ter um país verdadeiramente democrático. A entrevista foi concecida nos 40 anos da revolução do 25 de Abril

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O 25 de Abril não foi para isto

 

 

Diamantino Gertrudes da Silva, nascido em Alvite, Moimenta da Beira, era em Abril de 1974, então com 31 anos, o Capitão mais velho da Zona Centro. Otelo, o estratega da revolução dos cravos, entregou-lhe o comando das tropas que saíram de Viseu. Todos os anos, por esta altura, é convidado a fazer palestras nas escolas. Este ano vai falar também na sessão solene dos 40 anos do 25 de Abril em Viseu

 

 

Quarenta anos depois o que é necessário lembrar do 25 de Abril de 1974?

A Associação 25 de Abril escolheu o ponto de interrogação como símbolo das comemorações dos 40 anos da revolução. Esse ponto de interrogação poderá querer dizer muita coisa e na minha perspetiva pode levantar diversas questões: O que é feito do 25 de Abril? O que fizeram do 25 de Abril? Foi para isto que se fez o 25 de Abril? É possível um novo 25 de Abril?

 

E foi para isto que se fez o 25 de Abril?

É evidente que não. Nós, os Capitães, fizemos o 25 de Abril com enorme generosidade.
É verdade que o movimento dos Capitães iniciou-se por questões profissionais mas rapidamente, com a consciencialização de cada um de nós, evoluiu para um golpe militar com o objetivo de derrubar o regime ditatorial e depois com a ajuda do povo e a vontade dos militares, iniciou-se um processo revolucionário .

 

Mas porque é que não foi para isto que se fez o 25 de Abril?
O que pretendíamos com o 25 de Abril era um regime verdadeiramente democrático, para um desenvolvimento económico e social do país, uma vez que as forças pro- dutivas do país estavam bloqueadas, pelo próprio regime, e acabar com a guerra colonial que era uma questão fundamental da qual todas as outras dependiam.

 

Mas isso conseguiu-se?

Numa primeira fase podemos dizer que sim. Mas depois, de degradação em degradação, é o que se vê. Efetivamente hoje podemos dizer que estamos numa democracia formal, porque podemos falar, temos a arma do voto, mas a vivência democrata está a perder progressivamente a sua substância. Os pilares fundamentais para que apontava do 25 de Abril, que são um prolongamento dos ideais da Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, estão a perder-se.

 

Recuperando os três D’s do programa do MFA. A descolonização foi feita, a democratização foi feita...
Sim, nós cumprimos o que prometemos.

 

Falta é o D do desenvolvimento?

Não. Eu defendo que numa primeira fase houve desenvolvimento. Desenvolvimento económico e social. Aquilo que hoje se chama de exageros dos portugueses que esbanjaram é uma arma que serve aos inimigos do 25 de Abril. As conquistas de salários, pensões, etc, foram resultado do 25 de Abril. E naquela altura, a seguir ao 25 de Abril, a economia girava, por vezes aos trambolhões é certo, mas havia quem comprasse, porque tinha salário, ganhava dinheiro, hoje estamos neste bloqueio.

 

Mesmo assim valeu a pena fazer o 25 Abril?
Claro que sim, embora devêssemos estar num outro patamar.

 

Qual é esse patamar?

Talvez seja uma utopia. Os militares e os políticos que na altura agarraram o processo tinham como ideal uma sociedade para além de democrática, que fosse socialista, de verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade. Eu mantenho-me animado com essa utopia.

 

O que é que guarda, com maior satisfação, do jovem capitão que participou no 25 de Abril de 1974?
Dois sentimentos. Um de uma certa inquietação e de algum receio porque deixava, embora em casa de amigos, a mulher e dois filhos pequenos. Quando saímos do quartel não tínhamos certeza de nada. Tivemos sorte.

 

Tiveram sorte! Porquê?

O regime distraiu-se com o golpe falhado das Caldas, em 16 de março de 1974. Eles nunca pensaram que pouco tempo depois de um falhanço houvesse outra tentativa. Era tanta a certeza que quando aconteceu o 25 de Abril o diretor e o subdiretor da PIDE, a polícia política da ditadura, estavam em Madrid. E depois falhou tudo o resto. Falhou a GNR, que era a grande força com o que regime contava. Falhou também a PSP, os comandantes da Força Aérea, da Marinha, do Exército. Depois houve outra vantagem. Como penalização, alguns dos capitães que se envolveram no ‘Golpe das Caldas’, foram espalhados por diferentes quartéis do país. Para a organização do 25 de Abril acabou por ser positivo porque passámos a ter elementos ligados com o movimento dos Capitães em quartéis onde não existiam, como por exemplo na Guarda, na Figueira da Foz, etc.

 

Depois de ter ido, com a tropas do RI 14, fazer a revolução a Lisboa, quando regressou a Viseu, quatro dias depois, na noite do dia 28 de Abril, que cidade encontrou?

Uma cidade num bom alvoroço. Viseu vivia numa grande alegria que se espelhou na grande manifestação realizada no dia 29 de abril de 1974 que juntou milhares de pessoas que encheram o largo fronteiro ao quar- tel. Talvez tenha sido a maior manifestação de sempre realizada em Viseu, organizada pelos democratas e antifascistas mas que teve uma forte participação popular.

Porque é que o Capitão Diamantino da Silva ganha a relevância que teve no 25 de Abril?
Porque era o capitão mais antigo em Viseu e o mais antigo do grupo de militares que faziam parte do meu agrupamento, Guarda, Aveiro, Águeda, Figueira da Foz. Como na tropa a antiguidade é um posto o Otelo designou-me para comandar o meu agrupamento. Tive com ele a última reunião no dia 16 de Abril de 1974.

 

Tem dito que nos 40 anos do 25 de Abril para além dos protagonistas habituais é necessário recordar as esposas/companheiras do capitães e os militares que ficaram nos quartéis que se revoltaram?

Porque eles correram tantos riscos, ficando no quartel, quanto nós que marchámos para Lisboa. Estavam sublevados, tinham feito um golpe militar, tomando a unidade militar e defendendo-a.

 

E as mulheres?

É preciso lembrar que elas sofreram tanto ou mais que nós. Era do bom senso não confiarmos a ninguém pormenores do que andávamos a preparar. Mas elas com o tal sexto sentido, por umas tiravam as outras, e viveram grandes inquietações. As mulheres merecem, não é uma ho- menagem, mas uma lembrança.

 

O envolvimento das mulheres pode fazer parte do seu próximo livro sobre o 25 de Abril?
Não vou escrever mais nenhum livro sobre o 25 Abril. O que tinha que escrever está no livro “Quatro estações de Abril”. Às vezes desafiam-me para escrever a história do 25 de Abril, até devido à minha formação em História, mas não tenho o distanciamento suficiente para o fazer. Como costumo dizer eu abracei uma revolução que me apareceu no caminho. Eu não era um revolucionário, era um militar de carreira.

 

O país precisava de novas campanhas de dinamização cultural como as que foram feitas pelo MFA a seguir ao 25 de Abril?

Penso que sim, que precisava. O progresso económico, a evolução tecnológica pode avançar mais depressa ou devagar mas a mudança das mentalidades é muito lenta. E hoje há algumas mentalidades que continuam intocáveis.

 

Nos aniversários do 25 de Abril é convidado a participar em palestras e colóquios nas escolas. O que diz aos jovens?

Procuro não me repetir mas há ideias que tenho consolidadas e que lhes procuro transmitir. Porque como digo muitas vezes a minha única militância é o 25 de Abril. De acordo com as idades dos alunos faço um enquadramento da época em que aconteceu a revolução dos cravos. Aos mais velhos procuro responder à questão muitas vezes colocada por eles do porquê da revolução ter sido feita pelos capitães. No final deixo a mensagem para que desde pequeninos se habituem a pensar pelas suas próprias cabeças. E procuro dizer isso à frente dos professores porque julgo que a escola serve para ajudar as pessoas a pensar. Dizer que temos um voto e por causa disso temos a liberdade não chega. Já Maria de Lurdes Pintassilgo, ex-primeira ministra, dizia que é preciso reinventar a de- mocracia, ideia que depois fez o título de um livro do sociólogo Boaventura Sousa Santos. Esta democracia é um arremedo de democracia. Tragicamente temos a tendência para fazer algumas aproximações históricas e se nos descuidamos caímos logo na tentação de dizer que o processo do 25 de Abril está a seguir os mesmos passos que seguiu a Primeira República, com a degradação e o desprestígio das instituições e dos órgãos de soberania. A democracia não é isto.

 

Este ano pela primeira vez em Viseu há um envolvimento dos Capitães nas comemorações municipais do 25 de Abril. Como foi esse envolvimento?

Nós os Capitães, que estávamos em Viseu em 1974, já tínhamos pensado e falado com o comandante do RI 14 sobre a possibilidade de lá fazermos um almoço em que juntássemos as famílias e os militares que estavam no quartel na altura do 25 de Abril. Mais tarde o presidente da Assembleia Municipal de Viseu também falou com o Comandante do RI 14 dando conta de que queriam este ano fazer lá o almoço do 25 de Abril. Confrontado com a nossa presença disse que seria até muito significati- vo e agradável juntarem-se as duas iniciativas. E foi assim de uma forma natural que surgiu o noso envolvimento. Apenas pedimos, e vamor ter a oportunidade, para falar na Assembleia Municipal e no almoço conjunto que vai haver no quartel.

 

 

 





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