20 Set
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Um 13 de maio cumprido sem peregrinos e com a dor da ausência

por Redação

13 de Maio de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Há datas que ficam na história de um país. 103 anos depois do início “mistério” de Fátima, o Santuário não vai contar com os habituais milhares de fiéis que acorrem à Cova da Iria. A Covid-19 impede concentrações de pessoas, mas a fé, garantem os crentes, mantém-se inalterada

(fotos de arquivo)

 

A primeira aparição foi relatada faz esta quarta-feira, 13 de maio, 103 anos. Desde aí a curiosidade e a fé uniram-se para fazer da Cova da Iria, em Fátima, lugar de peregrinos nacionais e internacionais. A mensagem espalhou-se pelos quatro cantos do mundo. Em Portugal, são muitos os que saem de casa, nesta altura do ano, para se deslocarem a pé até ao Santuário. De Viseu partem alguns grupos de peregrinos. No Viso, por exemplo, rumam a Fátima há cinco anos. Desta vez, a fé vai ser vivida à distância. “Este era o sexto ano que ia. Nunca fui por promessa. A primeira vez fui por curiosidade: a minha mãe sempre me falou que ela gostava de ir, nunca foi. Resolvi, eu, ir. Adorei a experiência, resolvi repetir”, revela Margarida Oliveira.

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Este relato é comum a muitos peregrinos. Mas, afinal, o que torna especial uma ida a Fátima a pé? “É uma experiência de vida. É uma semana de entrega, de sair da nossa zona de conforto. Peregrinar, fazer o nosso caminho, com pessoas completamente diferentes de nós. É uma aprendizagem maravilhosa”, conta. A fé de Margarida em Nossa Senhora de Fátima, confidencia-nos, é muito antiga e a caminhada fica mais fácil, confessa, se for feita com esta fé. “É uma força. É como se fôssemos transportados ao colo”, descreve.

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“Uma peregrinação de esperança”

De Sátão sai outro grupo de peregrinos até à Cova da Iria. Saía, porque este ano a Fé vive-se longe de Fátima. Paula Cardoso experienciou uma ida ao Santuário pela primeira vez, no ano passado. “Foi algo único, marcou-me mesmo muito. Tal como noutras alturas das nossas vidas, a fé, a força e a esperança, acompanharam-nos naquele momento. Durante estes últimos dias estamos a recordar o nosso caminhar. É que nós caminhamos a vida toda, mas aquela caminhada foi especial. Foi um caminhar bom, com e até Maria”, descreve Paula Cardoso. Quem vai a Fátima a pé descreve um caminho onde se vive várias emoções. “Temos de tudo. Desde gargalhadas, às lágrimas. Sobretudo sente-se uma imensa alegria porque fazemos um caminho que, para mim, acaba por ser muito nosso, de cada um. Foi muito bom. A esta hora estávamos a almoçar em Pombal, depois de uma longa jornada, já a preparar essa chegada a Fátima”, lembra Paula Cardoso, a sorrir em tom de saudade.

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“A chegada a Fátima é algo que não se consegue descrever”

No mesmo de grupo de Paula Cardoso, sai António, o Tó, como é conhecido junto dos amigos que com ele vão até Fátima. Tó começou por ir dois anos com grupos já organizados. A partir de 2010, ficou responsável por encabeçar um grupo e, por isso, anualmente marca dormidas e locais para as refeições. Só falhou um ano: o filho mais novo nasceu por esta altura. “Ir a Fátima é algo que não se explica, sente-se. Só mesmo quem vive. Só quem vai é que consegue sentir o que nos leva lá. Todas as pessoas que foram uma vez comigo, repetiram. A caminhada dá para tudo: brincar, chorar, abstrair da vida que levamos no dia a dia. E chegar ao Santuário é algo que não se consegue descrever por palavras”, concretiza.

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Os anos de experiência de caminhar para Fátima faz Tó lembrar-se de tempos em que ir a Fátima pedia um esforço adicional. “Ouvimos histórias de que antigamente as mulheres levavam o comer à cabeça, as roupas, não havia carros de apoio. Se possível fosse durante os quatro dias de romagem a Fátima não tomavam banho e dormiam em qualquer lado”, reforça. Hoje a realidade é diferente. “Há um carro que nos leva as coisas mais pesadas, já está tudo preparado para tomarmos banho, fazer refeições. O caminho são quatro dias, são 200km e isso pesa muito nas pernas. No entanto é como costumo dizer: se a cabeça quiser, o corpo, por mais que doa, chega lá sempre”, conclui.

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Santuário sem gente, mas, garantem os crentes, com fé

O país atravessa ainda o Estado de calamidade devido à pandemia da Covid-19. As grandes concentrações de pessoas são desaconselhadas e, depois de alguns avanços e recuos, o Santuário de Fátima decidiu que 2020 ia entrar na história como o ano em que o 13 de maio iria ser feito sem pessoas no recinto. “Só de nos imaginarmos lá, vamos lá estar”, crê Margarida Oliveira. A mesma convicção tem Paula Cardoso. “Embora despido de gente, vai estar muita gente presente porque a fé consegue mover montanhas. E acho que, todos os que acreditam, vão lá estar, vão estar presentes e sentir o calor da multidão que, não estando presente, vai lá estar. Nossa Senhora vai ajudar a que nos sintamos lá, também”, acrescenta, referindo que para o ano espera lá estar.

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A mesma energia positiva, como descrevem, é sentida por Tó. O peregrino que vai tentar, à distância, acompanhar as cerimónias pela televisão, acredita que a tristeza vai tomar a forma de lágrima. “Há uns dias as pessoas que costumam ir comigo a Fátima enviaram-me uma mensagem e respondi-lhes que naquele dia me tinham vindo as lágrimas aos olhos porque já tínhamos de estar a caminhar. Agora sabermos que, por algo que não podemos controlar, não vamos poder lá estar naquele momento... Olhar para o Santuário e vermos que não vamos lá estar, fazer parte daquele mar de gente levado pela fé, vai ser um bocado complicado. Provavelmente as mesmas lágrimas vêm aos olhos, com mais vontade ainda”, confidencia. 103 anos depois a mensagem de Fátima faz cerca de 300 mil pessoas rumarem todos os dias 13 de maio à Cova da Iria. Por promessa, sacrifício, ou agradecimento, por que motivo for. Todos referem que difícil é voltar a casa, como de resto se escreve no cântico do “Adeus”. 2020 fica na história do país, do mundo e de Fátima como o ano em que o 13 de maio se fez sem gente.

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