18 jan
Viseu

José Mateus

OPINIÃO

2021: Vamos entrar na era do pós-quê?

11 de janeiro de 2021, 17:00

CLIPS ÁUDIO

Pós-Brexit, pós-pandemia, pós-capitalismo, pós-verdade…será que também vamos ter a era da pós-cultura? Com tanto pós-vocabulário será pouco provável voltarmos a um novo normal igual ao anterior.

 

Estamos a viver um momento único da nossa história coletiva, no meio de variantes de covid e eficácia de vacinas, o que transforma esta época de entrada num novo ano num momento ainda mais especial, mesmo crítico, sobretudo porque vem associado à aparente falência de tantos conceitos que tínhamos por adquiridos, mas ainda sem termos uma visão clara sobre esse novo tempo que aí vem e o pensamento que se virá a afirmar dando-lhe alguma coerência.

Ontem (29 de Dezembro) o Diário de Notícias fez 156 anos, notícia que ouvi na TV de manhã, e comemorou a data voltando à edição em papel, decisão difícil num momento improvável. Mas eu ouvi a notícia na minha casa de aldeia e precipitei-me para Tondela para comprar o jornal e tomar um café, e aquilo soube-me bem, por momentos agarrei o indefinível. E fiquei a pensar no fim do ano como o fim de uma época, conscientemente curioso com o que virá a seguir. Em muitas ações de formação em que participei ao longo da vida, quando se situavam mais no campo da gestão, surgia inevitavelmente aquele exercício de pensar “onde é que eu (ou a minha empresa) queria estar dali a 5 anos”. Imagino os alunos de gestão que fizeram este exercício mesmo antes do início da pandemia, agora embaraçados com as suas escolhas estratégicas. Mas o exercício não se destinava a praticar a adivinhação, mas sim a fazer as perguntas certas em cada momento. E isso mantém-se válido mesmo com a pandemia. E as perguntas que continuo a fazer são: para que servem a arte e a cultura, quais as ações que melhor se adequam às pessoas e regiões como aquela em que vivemos, e neste contexto que futuro esperar.

Existem já aqui estruturas de produção cultural consolidadas, tanto em Viseu como em Tondela, que são os casos que conheço melhor, com projetos que se têm replicado depois noutros locais, configurando uma estrutura multipolar que se vai afirmando por comparação (positiva) com os grandes centros de Lisboa e Porto. Mas todos estamos dependentes do ambiente global que se vive na cultura em Portugal, um dos setores mais fustigados por esta pandemia. É difícil de prever o que é que vai resistir e como vão ficar tantos artistas e profissionais cujas vidas se volatilizaram de um momento para o outro. 

Já que estou em dia de citação da concorrência, vale a pena ler o excelente artigo do Público “A cultura está sempre ao serviço de outra coisa qualquer”. Aí se dá conta dos inúmeros problemas que o setor atravessa, a começar pelo sub-financiamento, mas também de algumas previsíveis boas notícias a esperar do Ministério da Cultura: o tão esperado estatuto profissional do artista, a revisão do modelo de apoio às artes, e a linha de apoio à rede de teatros e cineteatros. Mesmo que não se esteja totalmente de acordo com as propostas que vierem a ser apresentadas, só com estas três ações já podíamos também reclamar que íamos entrar na era da pós-cultura em Portugal. Um bom ano para tod@s.

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