26 fev
Viseu

Ana Rita Silva - Psicóloga Clínica no Hospital CUF Viseu

OPINIÃO

Covid-19: como lidar com a culpa de infetar amigos e familiares?

20 de fevereiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

Desde o início da pandemia em Portugal que muito se tem falado dos sintomas físicos da doença, mas nem sempre se tem valorizado os efeitos psicológicos que daí podem advir. Um dos aspetos pouco abordados é o peso da possibilidade de ser transmissor do novo coronavírus a familiares e amigos. É, deste modo, fulcral perceber o impacto psicológico da doença na pessoa, nunca descuidando um aspeto essencial que é a presença do sentimento de culpabilidade por se ter transmitido o vírus a familiares e amigos.

O nosso papel como seres humanos centra-se na prestação de cuidados (emocionais, físicos) direcionado para o bem-estar do outro, ao que a experiência de COVID-19 se orienta no sentido oposto, o que leva ao surgimento de inúmeros sentimentos associados. A recriminação é comum entre os que se sentem responsáveis de serem transmissores, sendo que importa reforçar que estes sentimentos são comuns e normativos, uma vez que é compreensível sentir culpa quando achamos que magoamos alguém, mesmo que inadvertidamente e sem essa intenção. O problema é quando esta culpa não é adaptativa, quando se torna desproporcional e persistente, tendo impacto no bem-estar e funcionamento da pessoa.

Quem é transmissor do vírus, para além de lidar com a doença, é obrigado a lidar com a angústia e medo de se sentir responsável por ter infetado entes queridos. É expectável que a pandemia leve a sentimentos de ansiedade e medo, sendo que a forma como lidamos com eles são significativamente influenciados pela incerteza do que não sabemos e controlamos acerca da pandemia.

A angústia e medo decorrentes dos sentimentos de culpabilidade são aliviados quando a evolução da doença é positiva, mas podem agravar-se quando há uma morte e as pessoas não se conseguem despedir.

Importa, então, reforçar que a culpa é do vírus, não ficando preso nos ses, pois o foco em pensamentos negativos em relação a nós próprios e à culpabilidade sentida não vai ajudar a evolução da situação nem vai permitir alterá-la. É compreensível que surjam estes pensamentos, mas não devemos viver em função deles.

Assim, há algumas estratégias que podem ajudar a lidar com este sentimento de culpabilidade, tais como aceitar e pedir desculpa, reconhecendo a falta de intencionalidade pelo sucedido. Por outro lado, é importante ser-se compassivo, compartilhando sentimentos e emoções, não sentindo vergonha de expressar dificuldades. Por último, apesar de se tratar de uma vivência negativa se for percecionada como uma possibilidade de aprendizagem pode levar a mudanças importantes de comportamentos de risco da pessoa e de familiares e amigos próximos. Experienciar emoções difíceis é comum e transversal à nossa condição humana.

Ignorar as dificuldades sentidas não é solução. Não valorizar e aceitar sentimentos como a culpa pode dar origem a alterações de comportamento e emocionais, como insónias, ansiedade, tristeza e irritabilidade. Se não forem enfrentados, sintomas como estes podem conduzir a quadros de perturbação mental graves. Assim, é fundamental estar atento a dificuldades que interfiram significativamente no bem-estar pessoal, recorrendo nestes casos a ajuda psicológica especializada, seja presencial ou por teleconsulta.

As consequências de não procurar ajuda quando é necessário podem tornar um problema de resolução simples em algo mais complexo, pelo que é importante não adiar!

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts