29 out
Viseu

Rogério Matias

OPINIÃO

Dar para receber

A repentina passagem do ensino presencial para ensino a distância trouxe, entre outras coisas, uma interessante discussão acerca da avaliação, centrada sobretudo no receio de que os alunos cometam fraude

06 de junho de 2020, 07:00

CLIPS ÁUDIO

A repentina passagem do ensino presencial para ensino a distância trouxe, entre outras coisas, uma interessante discussão acerca da avaliação, centrada sobretudo no receio de que os alunos cometam fraude. A reflexão de hoje não vai ser à volta do tema da avaliação, embora ele dê pano para mangas. No entanto, serve de ponto de partida.

O fator predominante que leva um aluno a cometer ou não fraude não tem a ver com as condições físicas da realização da prova (presencial ou a distância). É o aluno, ele mesmo. A pessoa que é, os princípios por que se rege. Os quais, por sua vez, são resultado da sua vivência, parte da qual diretamente ligada à vida académica.

Um aluno que, pela sua forma de ser, pela sua formação moral e ou por outras razões, rege os seus comportamentos por princípios éticos, muito provavelmente manterá uma postura digna, correta e honesta, mesmo que esteja sozinho na sala, sem qualquer espécie de vigilância. Um outro cujo perfil seja o inverso, tentará cometer fraude, mesmo numa prova presencial com forte vigilância.

Tenho para mim que na vida, de um modo geral, em 90% dos casos recebe-se aquilo que se dá. Simpatia tende a gerar simpatia, honestidade tende a gerar honestidade; em sentido inverso, agressividade gera agressividade, desconfiança gera desconfiança. Claro que há exceções. Mas são isso mesmo: exceções.

Na minha vida profissional, a esmagadora maioria dos alunos devolve-me aquilo que (acho que) lhes dou (ou, pelo menos, procuro dar). Na aula de apresentação, por exemplo, deixo claro que, uma vez que não os conheço, parto do princípio que todos são honestos e responsáveis. E é com base neste pressuposto que procuro assentar a nossa relação, procurando ser igualmente honesto e responsável para com eles. Deixo também claro que se algum, alguma vez, me provar que estou errado, nessa altura sentir-me-ei no direito de repensar a minha atitude para com ele. O mesmo se aplica à sua atitude em relação a mim, claro.

A verdade é que, ao longo de quase 35 anos de profissão, foram pouquíssimos os alunos que me desapontaram. Quase todos têm tido um comportamento digno e correto, incluindo nos anos mais recentes. Sendo maioritariamente jovens, tenho de acreditar no futuro. Tratemo-los como gostariam que eles tratassem a sociedade ao longo da sua vida.

Artigo disponível em www.rogeriomatias.com/blogue, onde pode ser lido e comentado.

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