20 Set
Viseu

João Luis - Professor

OPINIÃO

A defesa do indefensável

16 de Setembro de 2020, 11:34

CLIPS ÁUDIO

É claro que o futebol é um espetáculo para o povo. É claro que é o público que paga as extravagâncias dos dirigentes. É claro que tudo isto é irracional ao ponto de estes dirigentes, em tempos de crise (sentida por todos, individual e empresarialmente), continuarem a gastar milhões quando aos bolsos das pessoas, por fruto do seu trabalho, chegam apenas tostões. É claro que os jogos sem público “não são a mesma coisa”. Mas a verdade é que fomos atacados por uma pandemia, cujo controlo, ou propagação, está dependente dos contactos diretos entre pessoas.

Depois de ameaçado, há uns meses, pelo presidente de um dos Grandes de que não continuaria no cargo, eis que o Presidente da Liga vem agora, insistentemente, fazer coro com os clubes mais poderosos a favor da permissão de público nos estádios de Futebol, com argumentos comparativos com outras atividades artísticas. Não é racional comparar um espetáculo de música clássica, de teatro, ou mesmo das muito faladas touradas (e eu não sou nada adepto de touradas e, se pudesse, bania-as) com um jogo de futebol. Não consta que neste tipo de espetáculos haja momentos de celebração com contactos exacerbados entre as pessoas, nem indivíduos que exageram na bebida ou na droga para assistir(?!!) aos eventos. Sim, porque a haver público em número reduzido nas bancadas do futebol, os primeiros privilegiados seriam, não tenho dúvidas, os energúmenos que nem vão para ver os jogos, já que na maior parte do tempo até estão de costas para os mesmos. Tivesse havido um movimento no sentido da dignificação do público que assiste aos jogos de futebol, aproveitando a posição (tão louvável quanto prejudicial para o próprio) do presidente de um dos Grandes, que acabou com os privilégios pornográficos de um bando de delinquentes, e perceber-se-ia melhor esta vontade de ter público. Alguém ouviu o Presidente da Liga pronunciar-se sobre a fuga à lei de algumas claques? Claro que convém não beliscar quem o suporta num cargo prestigiante, pago principescamente e com um conjunto de regalias difíceis de igualar noutra atividade ao seu alcance. Percebe-se que tenha que defender o negócio, mas nunca comparando o incomparável ou defendendo o indefensável. À atenção de quem decide: não poderão ser, nunca, fervores clubísticos ou pulsões partidárias a confrontar interesses de saúde pública. Cada atividade tem a sua especificidade e o seu grau de risco no que diz respeito à potencial transmissão da pandemia.

Os jogos sem público não são, efetivamente, a mesma coisa, estamos todos de acordo, e têm, sobretudo, aspetos negativos. Mas para quem gosta do jogo em si mesmo, da forma como se joga e da demonstração do mérito para alcançar a vitória (e este é o lema central do desporto) a ausência de público nos jogos de Futebol tem-nos dado indicações curiosas que nos deveriam fazer refletir. Eis uma delas: Por que razão os resultados dos jogos têm sido mais equilibrados e menos previsíveis, com percentagens de sucesso menores dos clubes ditos Grandes? Claro, o público “também joga”, e os árbitros que o digam!

O Primeiro Ministro de Portugal resolveu associar-se a uma dos candidatos à presidência de um Clube grande. Curiosamente (ou não) ao candidato estigmatizado pela sucessão de processos judiciais em que está envolvido e em que envolveu, direta ou indiretamente, o clube. Esta é uma posição pública do principal governante do país. Temos ou não legitimidade para imaginar outras coisas que não vêm a público? Se fosse uma grande novidade dir-se-ia naturalmente: é uma vergonha. Mas como a vergonha já se vem arrastando no tempo, fruto da estratégia de juntar os processos e transformá-los em megaprocessos, já deixou de o ser, e vai acabar por transformar arguidos em vítimas de perseguição. Já vimos este filme, não?

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts