18 jan
Viseu

Cristóvão Cunha

OPINIÃO

O Cinema Possível de 2020

10 de janeiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

2020 foi um ano ruinoso para as grandes salas, grandes estúdios e festivais de cinema e um boom para as plataformas digitais de streaming e vídeo on demand. Fazer um balanço de um ano como este é um teste as nossas próprias noções de cinema. Se por um lado se verifica um aumento de procura de “cinema” para ecrãs domésticos e pessoais, a reabertura do confinamento demonstrou que ainda existe muito público que privilegia projeções em salas independentes, numa lógica de partilha e de comunidade de Cinema.

m jeito de balanço, destaca-se J’Accuse de Polanski, Da 5 Bloods de Spike Lee, Retrato de Uma Rapariga em Chamas de Céline Sciamma, Nuestro Tiempo de Carlos Reygadas, Tudo Acaba Agora de Charlie Kaufman, What did Jack Do de David Lynch, O Que Arde de Oliver Laxe, Liberté de Albert Serra, Uncut Gems dos irmãos Safdie, Beach Bum de Harmony Korine. Em Portugal Listen de Ana Rocha foi uma excelente notícia e um projeto ambicioso da produção portuguesa em parceria internacional, assim como foi bom ver Mosquito de João Nuno Pinto e o Ano da Morte de Ricardo Reis de João Botelho.

Com pena nossa, A Herdade de Tiago Guedes não preencheu completamente, (apesar de ter um plano sequência maravilhoso da festa de noivado), e Surdina de Rodrigo Areias foi um bálsamo pertinente do nosso pós confinamento com projeções do filme musicados por Tó Trips. Este também foi o ano de voltarmos a ver, em cópias restauradas, ciclos de Yasujiro Ozu, Akira Kurosowa e Wong Kar Wai em grande formato, e em sala, como merecem. Foi também voltar à obra O Movimento das Coisas, filme com 30 anos nunca estreado em Portugal de Manuela Serra e repescado à história pelo Festival de Lyon, e que esperamos ver nas salas portuguesas em 2021. A entrevista à realizadora publicada no Ípsilon, em Outubro, é muito curta mas antológica. Em Viseu, o Cinema manteve-se vivo através da resistência do Cineclube (CCV) em belos ciclos, Cinema na Cidade e com o Festival Vista Curta. Também tivemos cinema ao ar livre e um Drive in no Cubo Mágico, organização do Município de Viseu. Durante o confinamento houve boas experiências on-line como o canal de Cinema para Escolas e o Kit Cinéfilo do CCV, e o Short Age de Luís Belo e Carlos Salvador.

Para finalizar, recupero outro grande filme de 2020 realizado por Guy Ritchie. The Gentlemen abrange de uma forma inteligente todos temas atuais como a descriminação racial, social e de género; o conflito entre os EUA, a China e a Rússia; a decadência dos aristocratas ingleses e o Brexit; o movimento das periferias; o conflito de gerações. Nem foi preciso acrescentar uma epidemia. Nada é por acaso e encaixa na perfeição, até um breve escárnio à obra de Harmony Korine. Sobretudo, é um leque de atores e equipa artística fabulosos que estão a divertir-se com o fabuloso argumento que têm em mãos, num formato à Cinema como deve ser, o 2.35:1 e não 1.77 ou 16:9 da TV ou afins como diz Fletcher, personagem do filme, brilhantemente encarnada por Hugh Grant. O filme termina com música dos The Jam, com Paul Weller a cantar That’s Entertainment. Não foram precisos super heróis nem grandes efeitos especiais para passar um bom bocado durante duas horas. Como diria Martin Scorcese, se não tens um bom argumento, não tens nada. And that’s all folks. Adeus 2020.

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