26 fev
Viseu

Filomena Pires

OPINIÃO

Salvemos o Mercado 2 de Maio!

23 de fevereiro de 2021, 17:00

CLIPS ÁUDIO

É com profunda satisfação que recebo a notícia do público sobressalto cívico que visa impedir o abastardamento arquitetónico do Mercado 2 de Maio, em Viseu. 

Durante anos temi que a minha denúncia persistente, mas isolada, fosse impotente para travar o desvario boçal e criminoso do município.

Em ano de eleições autárquicas, a máquina mistificadora da propaganda municipal, expôs em telas gigantes junto à futura obra, os contornos grotescos do “projeto”. Foram essas “imagens” que despertaram a sociedade para o absurdo da pretensão municipal. 

Pode haver, com toda a legitimidade, várias opiniões sobre as virtudes do atual projeto e a funcionalidade do Mercado 2 de Maio. Mas é de uma insensibilidade cultural e estética sem limites destruir o que existe ainda para mais sem consulta ao autor vivo da obra. 

A justificação para a implantação da estrutura metálica, é a de transformar o Mercado 2 de Maio em “praça de eventos e de âncora de animação cultural do centro histórico”. O Mercado 2 de Maio não é responsável pelo declínio do comércio tradicional do Centro Histórico, nem passa por ele a solução desse problema. Não é tolerável que, por inútil capricho de festas e romarias, se pretenda fazer em cacos a obra do arquiteto português mais famoso no mundo. O que se diria se a Câmara de Coimbra decidisse cobrir a Praça da Sé Velha, na Alta, para que a Serenata Monumental decorresse sempre ao “enxuto”? 

Fui repetindo nas inúmeras vezes que levei o tema à discussão na Assembleia Municipal, que ter uma obra de Siza Vieira, é, em todo o mundo, sinal de modernidade e um orgulho para quem a possui. Menos em Viseu.

Na véspera das eleições autárquicas de Outubro de 2017, foi distribuído aos comerciantes do Mercado 21 de Agosto pelo Presidente da Câmara Municipal de Viseu, com pompa, séquito, beijos e abraços, um papel que afirmava ser o “projeto” para a “Regeneração do Mercado Municipal 21 de Agosto”. Previa esse anúncio, a ultimação dos trabalhos de arquitetura até finais de 2017 e a conclusão das obras até 2019. Estamos em 2021 e este episódio ilustra bem a credibilidade e a ordem de prioridades desta Câmara Municipal. Deixa na gaveta o que é fundamental para a cidade e a sua vida económica e esbanja recursos em obras faraónicas. 

Um Executivo preocupado com a cidade, daria primazia às obras no Mercado 21 de Agosto onde continuam a desesperar os estóicos comerciantes com a falta de condições e de clientes. Neste imenso espaço, de forma integrada, há condições para albergar serviços públicos, comerciantes e clientes e realizar todos os eventos sazonais que à força se pretendem encaixar no Mercado 2 de Maio.

Em Córdova, em 785, o Califa mandou erguer a Mesquita muçulmana, respeitando a antiga basílica visigótica cristã. Sinal de tolerância, elevação cultural e inteligência. Em Viseu, no século XXI, por cegueira cultural e mal disfarçado ódio político, os novos bárbaros pretendem arrasar gratuitamente uma obra, por mais singela que ela seja, de Siza Vieira, prémio nobel da arquitetura, mestre e criador singular, reconhecido mundialmente.

A história registará Siza Vieira nos anais dos homens grandes deste país. Já estes autarcas, terão lugar garantido no caixote do lixo da história.

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