26 fev
Viseu

Manuela Barreto Nunes

OPINIÃO

Teatro, leituras, riso e namoro

21 de fevereiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

Vivemos tempos estranhos. Não podemos ir a bibliotecas ler livros, nem mesmo recolhê-los ao postigo - têm elas de vir até nós, as que podem, entregar leituras em mãos. Não podemos comprar livros nas livrarias, temos que encomendar online. Não podemos ir ao Teatro - tem o teatro que se reconfigurar e voltar aos velhos tempos das peças televisivas, conceber-se para a retransmissão ou para o streaming, falho da presença viva do público, cuja relação com os actores e o espaço cénico é como que uma essência, aquilo que torna cada espectáculo único, não importa quantas vezes se repita. Coisas assim, aliadas ao isolamento, à falta de contacto físico, viram-nos do avesso.

E as saudades de uma boa gargalhada colectiva trazem à memória desta sua escriba, leitor, um tipo de peças com obscura origem na Idade Média, mas que tiveram enorme sucesso durante o período barroco e em todo o século XVIII: falamos dos Entremeses, pequenas peças de teatro, em um só acto, normalmente representadas no intervalo (“entremês”) de uma ópera ou peça mais longa e caracterizadas pela abordagem satírica a temas do quotidiano. O Teatro Nacional D. Maria II digitalizou a sua colecção de Entremeses há já alguns anos e, por mais confinados que estejamos, apenas a falta de acesso à tecnologia nos pode impedir a delícia de ler estes pequenos textos. Um exemplo é o “Novo e Gracioso Entremez intitulado A Ratoeira En Que Amor Pilha os Pobres Namorados”, que datará provavelmente da segunda metade do séc. XVIII e conta como duas jovens mulheres e a criada delas, mais velha e sabida, discutem a melhor estratégia para seduzir os homens, aproveitando a sua prosápia e convicção de superioridade para os fazer cair na ratoeira… do amor. As raparigas riem-se do convencimento masculino, gozando: “a hum leve volver dos nossos olhos, cahe por terra todo o Poderozo edifício da sua prezunção”. E, na verdade, lá mais para o final, um dos fogosos namorados em quem experimentam as artes da sedução, acaba por confessar: “Cahi como um patinho!”.

Risotas inconsequentes ou, quem sabe, até muito consequentes nos esperam na leitura destes Entremeses, mais a mais em Dia de Namorados - com bom humor se acende o amor, dizem os sábios. Vamos experimentar?

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