Sandra Rodrigues

28 de 10 de 2023, 14:00

Diário

Pensos rápidos não resolvem os problemas do SNS, diz presidente da Ordem dos Médicos do Centro

Manuel Teixeira Veríssimo assumiu a presidência da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos em fevereiro deste ano com o desejo de mudança de rumo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que precisa de uma reforma profunda. O médico diz que as condições que estão a ser discutidas para a classe são “pensos rápidos” e que é preciso primeiro encontrar paz para depois se avançar com a reorganização do SNS

O princípio basilar do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é garantir o acesso universal à Saúde. Como assegurar este princípio se cada vez mais profissionais preferem rumar ao setor privado?
O setor público tem de saber captar e sensibilizar os médicos para continuar no SNS. Se eles saem é porque lhe oferecem melhores condições fora quer de trabalho, quer de remuneração. Aqui há duas questões que é a carreira médica, por um lado, e, por outro, as horas extraordinárias.

O que tem faltado para haver um acordo?
Há dois tempos. Um deles é tentar ultrapassar este problema das horas extraordinárias que é um problema agudo. Mas este problema tem de ser resolvido agora de um modo rápido e espero que as negociações cheguem a bom porto. Mas, na verdade, o sistema não pode nem deve sistematicamente viver de horas extraordinárias. A hora extraordinária, tal como a própria palavra indica, deve ser extraordinária e não propriamente fazer parte de uma rotina como tem sido o caso. Como agora os médicos não querem fazer mais do que legalmente está estabelecido, as 150 horas, não há médicos para fazer as urgências. Isto faz com que o número base de médicos é inferior aquilo que deveria existir no SNS. Há uma resposta que tem de ser dada agora, rapidamente, e por isso é importante que haja acordo entre sindicatos e o governo, mas depois há a necessidade de uma reforma mais profunda e aprofundada de todo o sistema para que os médicos voltem a ter condições para trabalhar no SNS e gostem de trabalhar no Serviço Nacional de Saúde.

Essa reforma que fala é além dos 500 euros mensais de suplemento para quem realiza urgências ou novo modelo remuneratório que agora está em discussão. O que tem de passar por essa reforma profunda?
Tudo isto tem a sua importância, mas digamos que são pensos rápidos. O sistema tem de sofrer uma reforma profunda da sua base, até para retirar tantas pessoas da urgência. Como sabemos cerca de metade das pessoas que vai às urgências podia ser tratada noutro lado, nos cuidados de saúde primários ou centros de atendimento permanente. Este é um trabalho que vai demorar tempo a fazer, não se faz de um dia para o outro. Neste momento, o Ministério querer que os médicos façam mais do que as horas que estão legalmente estabelecidas é lícito, mas é para resolver um problema que de base já está mal.

(Para ler na íntegra na edição do Jornal do Centro, já nas bancas)