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O restaurante “Parreira do Minho” é conhecido por ser uma casa solidária, onde são recebidas pessoas de todos os estratos sociais. É o trabalho que faz no âmbito social que lhe valeu a homenagem que recentemente a Freguesia de Viseu fez à sua proprietária. Com tanto trabalho solidário, não foi surpresa quando foi contactada pela Segurança Social para criar uma entreajuda na população mais desfavorecida.
Com o intuito de ajudar os necessitados, Mariana Almeida, natural de Vila Nova de Paiva, decidiu comprar o estabelecimento em 1977. “Costumava vir a esta casa almoçar e acabei por a comprar por 20 contos de sinal. Tinha o dinheiro para fazer compras e não fiz e deixei os 20 contos para o trespasse”, começou por contar a proprietária.
O gosto por ajudar os que necessitam existe desde sempre. Um traço de personalidade que foi herdado da mãe fez com que Mariana Almeida crescesse com essa bondade. “A minha mãe também era pobre. Até de longe, ou de aqui de Viseu, iam lá pedir uma cebola ou qualquer coisinha para fazer uma sopa. Nunca deixou ninguém ir sem qualquer coisa. E eu fiquei assim”, admite.
Durante a infância, os pais tiveram que abdicar de a ter na escola, para poder ajudar em casa. O trabalho começou cedo na sua vida e conta-nos que fez a escola só até à terceira classe. “Os meus pais tiraram-me da escola para eu poder ajudar. O meu pai emigrou, depois mandou-me a mim ir para a França. Lá estive uns anitos, nasceu lá o meu filho, a minha filha nasceu em França também, e depois viemos para aqui para Portugal. E foi então que vínhamos aqui e foi quando comprei o traspasse da casa. O conceito sempre foi ajudar”, refere.
Mariana Almeida arregaçou as mangas e dedicou-se ao trabalho para transformar aquilo que nas suas palavras era “um terreiro”. Hoje, não trocava a casa de pasto por nada. Ao Jornal do Centro conta que é impensável tirarem-lhe o trabalho, apesar de já terem passado tantos anos. “Muito duro, mas arregacei as mangas e agarrei-me ao trabalho aqui dentro. Hoje, se me tirassem isto, meu Deus! E depois eu cismei em ajudar os pobres, dar e dar. O meu maior gosto era dar as comidas que sobravam às pessoas”, conta.
A proprietária sempre sentiu gosto em cozinhar para os clientes e ainda mais a partir do momento em que ouvia feedback positivo relativamente aos seus pratos. “Quando os clientes me diziam que estava bom, eu tinha mais entusiasmo para que amanhã ficasse melhor”, confessa.
Não se acanha perante qualquer tarefa. Cozinha, faz a sala e, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo. A benemérita reconhece que é “muito nervosa” e que prefere não ter ninguém à sua beira a cozinhar. O trabalho acaba apenas quando se sente satisfeita com o que faz e a satisfação manifesta-se de várias formas. Mariana Almeida assegura que quase cinco décadas depois ainda faz comida para as pessoas, sozinha, e “se for preciso venho cá fora. Não estou à espera que chegue o rapaz à cozinha. Venho cá fora às mesas, e atendo os clientes”, diz. “Não posso estar parada. Estou com 76 anos e vivinha da silva”, confirma.
O restaurante teve uma grane afluência de pessoas que procuravam, devido às suas dificuldades, uma mão amiga que pudesse ajudar. A dona sublinha que, ao longo dos anos, “às vezes sobrava comida, e eu tinha pena de deitar fora”. Nunca negou essa ajuda, por mais simples que fosse, e afirma que “tinha aqui alguns clientes que chegavam e diziam «a senhora não me dá um prato de sopa?» e eu dava. Mas depois eu pensava que uma sopa era pouco. Eu ia aos tachos e via que ainda havia tanta comida, porque não dar um bocado?”. Estes pensamentos levaram a que houvesse algumas despesas extras. “Se eu gastar mais 100 ou 200 euros ao fim do ano em batatas para fazer sopa, também não fico mais pobre por isso”, reitera Mariana Almeida.
Como em todos os negócios de restauração, as épocas em que o negócio flui melhor – ou pior – são sempre incertas. Os turistas que encontram esta casa e, consequentemente, a proprietária pronta para os receber com um sorriso e boa disposição, ficam surpreendidos com os baixos preços, bom atendimento e a qualidade dos pratos caseiros. “No domingo passado, veio aqui um casal francês, e perguntaram como é que é possível almoçar por seis euros. E eu disse, «basta a gente ter vontade»”, relata.
Mariana Almeida está satisfeita com o passado e otimista com o futuro.
“Já tive sucessos. E nunca ninguém me priva de dar seja o que for a quem for. Tenho muito orgulho de mim e gosto muito de ajudar os necessitados”, assegura, deixando um conselho a todos os que a queiram ouvir. “Não se arrependam. Ajudem muito. Não é só dar uma malga de sopa ou um pão, mas um bocado de carinho. Por vezes uma palavra meiga faz tão bem. Estes jovens, que hoje em dia precisam tanto, dê palavras meigas. Eu vou ajudando conforme posso, e às vezes até sinto tristeza porque devia ter feito mais e não fiz”, finaliza Mariana Almeida.
Sabrina Lopes e Ricardo Fonseca