IP3 Tondela
Highway under construction with concrete barriers, a dirt embankment, and yellow warning signs along the roadway edge at dusk/dawn light; no traffic on the open lane ahead.
Open park area with a stage setup on the left, small wooden sheds grouped around a central tree, and white event tents in the background under a clear blue sky.
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Modern single-story house exterior at dusk with large glass sliding doors showing warmly lit living and dining areas outside landscaped yard.
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Vineyard path between rows of green grapevines on a sunny hillside with blue sky and distant valley.
People wearing over-ear headphones at an outdoor listening event, with a large headset prop in the foreground.
Group of pageant contestants in evening gowns/swimwear with sashes standing on a brightly lit stage, audience seated in foreground.
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“O Mal na Raiz” com estreia no Museu Aristides de Sousa Mendes em Carregal do Sal

Espetáculo da Ritual de Domingo cruza tragédia de Antígona com habitação, gentrificação e conflitos comunitários

16.09.26
fotografia: Luís Belo
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16.09.26
Fotografia: Luís Belo
Aerial view of a sandy beach with large stone letters forming a message, promoting recycling; below, the slogan 'Começa por reciclar as desculpas' and a call to action with a URL.
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Woman with long braids sits on a bench, holding papers, in a room with stacked orange and yellow chairs in the background.

O espetáculo “O Mal na Raiz”, com encenação de Guilherme Gomes, estreia-se esta quinta-feira, no Museu Aristides de Sousa Mendes, em Carregal do Sal, numa criação da companhia Ritual de Domingo que cruza a tragédia clássica de “Antígona”, de Sófocles, com questões atuais relacionadas com a habitação e a transformação dos territórios.

A estreia está marcada para as 21h00, na Casa do Passal – Museu Aristides de Sousa Mendes, seguindo-se uma segunda apresentação no dia 18, segundo a companhia.

Com interpretação de Nuno Nunes, Siobhan Fernandes e Sónia Barbosa, “O Mal na Raiz” parte da figura de Antígona para abordar a resistência perante aquilo que é considerado injusto e os conflitos entre diferentes visões de comunidade e de futuro.

Na narrativa, a tragédia grega é transportada para um bairro contemporâneo, confrontado com uma demolição determinada por um vereador municipal, num contexto marcado pela gentrificação e pela crise habitacional.

“Esta Antígona está entre dois mundos: entre o mundo de uma comunidade que existia, que tinha uma vida orgânica, as suas dinâmicas e a sua importância enquanto comunidade, e uma outra ordem, um outro bairro que está para nascer, fundado em objetivos capitalistas”, explica Guilherme Gomes.

Para o encenador, a nova ordem pretende transformar o bairro num espaço agradável para visitantes, sem necessariamente garantir que continue a funcionar como “um ecossistema onde as pessoas possam realmente viver”.

A decisão de um vereador em destruir um quarteirão como nome de Graça, numa cidade por definir, desperta numa habitante a “vontade de lutar contra a demolição das casas” e do prédio em que nasceu, “nem tanto pela habitação em si, mas pela coletividade e pela perda do lugar de encontro” da comunidade.

“E isto é também falar do desaparecimento dos nossos lugares de encontro e de vida coletiva. Estes lugares que nos permitem viver com outras pessoas são espaços que nós, cidadãos, cultivamos pouco”, disse Guilherme Gomes, também autor do texto.

A peça provoca reflexões sobre o poder local, a democracia das instituições, o poder de quem as gere e é eleito para o fazer, a resistência, os sonhos, a esperança, a mobilização da comunidade, a integração, a consciência, a culpa, a inocência e uma série de conflitos provocados por diferentes visões de comunidade e de futuro.

Gomes colocou em palco um coro, neste caso o NACO Cantat, de Oliveirinha, em Carregal do Sal, que entoa ao longo de toda a peça uma sonoridade que “é como que a base e o fio condutor das emoções” a que os atores dão vida.

“Há duas forças no espetáculo. A canção, o que pode e faz, porque o coro nasceu com o bairro e o bairro é mais do que arquitetura e tijolo e isso leva-me à segunda força: A árvore. O bairro é um organismo vivo. A ideia das raízes, das ramificações, a árvore abrigo, mas também a genealógica do quarteirão com a mistura de vidas que se cruzam”, defendeu o autor.

Guilherme Gomes começou a escrever esta peça de ficção em 2023 com base na obra “Antígona”, de Sófocles, que “apela muito ao terror e à compaixão”, associada a histórias que foi “conhecendo em outras realidades” – como uma residência artística que fez em Nova Iorque – e culminou com a “forma final do texto no início de 2025”.

“O que está espelhado na escrita é o que acho que todos nós imaginamos destas figuras como vereadores ou decisores políticos. Está muito fundado numa espécie de estereótipo que se tem destas figuras e a imagem que o cidadão tem delas”, disse.

Para Guilherme Gomes, “o maior perigo que o espetáculo carrega é perder-se o bairro, não um bairro de prédios, mas o do encontro com as pessoas, o do espírito coletivo e a capacidade de viver uns com os outros e procurar um sentido para a vida em conjunto”.

“E aquele vereador, tal como na obra ‘Antígona’, é não só um homem de Estado, é também um ser com sentimentos e emoções e, com base nesse conflito interno, escrevi este vereador que tem o poder e a memória de quem conhece o lugar e as pessoas”, disse.

Nuno Nunes, Sónia Barbosa e Siobhan Fernandes vestem a pele a mais do que três personagens, desde adultos com o poder nas mãos, seja o da decisão ou da resistência, seja a voz da consciência ou a da comunidade, são adultos que também foram crianças com sonhos e também um pai que fez por deixar um legado.

Nuno Nunes encarna o vereador que cresceu no bairro e que “às tantas se pensa em que momento é que perdeu os valores”, um tema “muito discutido entre as pessoas e muito recorrente nas conversas” entre os atores.

“Quando é que o poder sobe à cabeça? Esta ideia de que o sucesso nasce num determinado tipo de ascensão social, neste caso através da política, e que insufla a pessoa, a personalidade de um ego e soberba de achar que é superior aos outros”, refletiu Nuno Nunes.

O ator também levanta “um outro sentido, o do exercício da democracia e a democracia das instituições, porque supostamente, aquele político tem legitimidade para tomar decisões, foi eleito para isso, mas foi para aquelas decisões sem ouvir as pessoas?”. “A eleição três vezes seguidas deu-lhe essa legitimidade?”, questionou o ator.

Uma legitimidade que um amigo de infância – que, em adulto, trabalha com o vereador no gabinete – questiona, e apela à consciência do “saber ouvir e da importância” que esse gesto e atitude tem na comunidade.

“O ir ao gabinete lembrar os momentos de infância também me dá a sensação de não estar tudo perdido, de haver esperança, porque há memória dos sonhos e das palavras ditas na infância. Há confiança no futuro e há esperança, é uma espécie de possibilidade de fazer acontecer para o melhor”, defendeu Sónia Barbosa.

Um fazer e um poder que encontrou a resistência em Antígona, de 23 anos, a que Siobhan Fernandes deu vida “num desafio atual, transversal, a qualquer cidadão que é confrontado com uma decisão com a qual não concorda”.

“E para haver resistência tem que haver esperança e para conseguir tomar certas decisões tem que ser desafiadora, provocar, e passar a responsabilidade de forma ainda mais veemente a outra pessoa, sabendo que essa responsabilidade já está direcionada no vereador, quais serão as consequências mais pesadas de uma reação ativa ao que está a fazer? Se aquele quarteirão morrer, a culpa nunca vai ser da Antígona, vai ser daquele vereador”, defendeu a atriz.

Siobhan Fernandes realçou ainda a “importância de saber que não está sozinha, há uma comunidade, porque é isso que também dá força à resistência” que é feita ao poder.

Produção da Ritual de Domingo, “O Mal na Raiz” tem direção musical de Leonardo Outeiro e cenografia de Ana Seia de Matos, com desenho de luz de Cristovão Cunha.

Depois das apresentações em Carregal do Sal, “O Mal na Raiz” será apresentado no Teatro São Luiz, em Lisboa, entre 14 e 18 de outubro, e no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, a 7 de novembro.

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