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O filme “Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”, do realizador José Filipe Costa, é exibido a 13 de outubro, no Teatro Viriato, em Viseu, no âmbito da parceria com o festival Vistacurta, organizado pelo Cine Clube de Viseu.
A obra revisita um dos episódios mais insólitos dos últimos anos de vida de António de Oliveira Salazar, que, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), em 1968, continuou a acreditar que governava o país, desconhecendo que tinha sido substituído por Marcelo Caetano.
Entre 1968 e 1970, uma pequena comunidade de pessoas que rodeava o antigo chefe do Governo, incluindo a governanta, o médico pessoal e colaboradores do palacete de São Bento, manteve a encenação de que Salazar continuava no poder.
É neste episódio, documentado no diário do médico Eduardo Coelho, que José Filipe Costa centra o filme, procurando compreender os mecanismos de uma mentira coletiva que acabou por se tornar realidade para os seus protagonistas.
“É como se ninguém, na verdade, quisesse olhar de frente para esta história absurda de final de vida de Salazar”, afirma o realizador, considerando que o episódio permite compreender melhor o funcionamento do Estado Novo.
Mais do que reconstituir os acontecimentos, o filme explora as contradições das pessoas envolvidas e a forma como a encenação condicionou as suas vidas. A narrativa aborda também a persistência da imagem de Salazar como um político austero e exemplar, em contraste com um regime marcado pela concentração da riqueza, pela repressão e pelo afastamento de grande parte da população da participação política.
A construção visual e sonora acompanha esse ambiente de isolamento e tensão, recorrendo aos silêncios, aos passos no soalho, aos relógios e às emissões radiofónicas sobre o estado de saúde do ditador.
Entre as personagens em destaque está Maria de Jesus, a governanta, apresentada simultaneamente como uma das responsáveis pela manutenção da farsa e como alguém afetado pelas consequências dessa encenação.
“O que nos interessa no cinema é a complexidade das pessoas, a possibilidade de terem várias dimensões”, sublinha José Filipe Costa, defendendo uma abordagem que evidencie as contradições humanas e as relações de poder.
O filme será exibido em duas sessões no Teatro Viriato, uma destinada ao público escolar, às 15:00, e outra aberta ao público em geral, às 21:00, ambas com a presença do realizador.
A sessão da noite inclui uma conversa após a exibição com José Filipe Costa e a investigadora Anabela Silveira, num encontro que pretende cruzar a perspetiva cinematográfica com a investigação histórica e promover a reflexão sobre a memória do Estado Novo.