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	<title>Colunistas - Jornal do Centro</title>
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	<description>Notícias de Viseu e da Região Centro</description>
	<lastBuildDate>Fri, 17 Jul 2026 16:30:37 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Colunistas - Jornal do Centro</title>
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		<title>Olho de Gato #1111 — o fim</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/olho-de-gato-1111-o-fim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jul 2026 08:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O primeiro Olho de Gato, publicado em 29 de Março de 2002, teve o seguinte título: “O real tem muita imaginação”. Embora soubesse isso e o tivesse explicado logo, nunca imaginei que o real ia conseguir pôr-me a gravar 283 podcasts e trazer esta coluna até esta bonita capicua — 1111. É um bom número [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro Olho de Gato, publicado em 29 de Março de 2002, teve o seguinte título: “O real tem muita imaginação”. Embora soubesse isso e o tivesse explicado logo, nunca imaginei que o real ia conseguir pôr-me a gravar 283 podcasts e trazer esta coluna até esta bonita capicua — 1111. É um bom número para acabar.&nbsp;<br>Agradeço a simpatia com que os leitores e o Jornal do Centro sempre me trataram, ao longo destes vinte e quatro anos, três meses e vinte dias. Como as despedidas são sempre tristes, façamos de conta que isto é apenas mais um Olho de Gato e vejamos o último assunto desta coluna:</p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>Bufaria</em></strong></p>



<p>Com o passar dos séculos, os nomes podem ter mudado — delator, bufo, chibo —, mas o mecanismo da delação é sempre o mesmo: a satisfação moral de entregar alguém em nome de uma causa superior.<br>Entre 1536 e 1821, os portugueses fizeram milhares e milhares de denúncias à Inquisição e, quando alguém se gabava disso, fazia-o apenas diante dos vizinhos.<br>No século XXI, esta actividade transferiu-se, em boa medida, para as redes sociais e exerce-se sobretudo através da acusação de “discurso de ódio”.<br>Os ratos-do-teclado gostam de exibir as suas denúncias como medalhas de bom comportamento perante a tribo a que pertencem, fazem questão de anunciar que denunciaram; publicam capturas de ecrã do chibanço e comemoram os dissabores sofridos pelos seus alvos. <br>A denúncia deixou de ser apenas um instrumento; tornou-se também uma performance pública de virtude. Nas lutas identitárias, denunciar confere estatuto. Seja pela via activa — denunciar alguém da bolha adversária —, seja pela via passiva — ser denunciado pela bolha adversária —, ambas as facções transformam a denúncia, ou a condição de denunciado, num distintivo moral.<br>Uma coisa, porém, não mudou: dentro ou fora das redes sociais, a bufaria foi, é, e será, quase sempre, praticada por gente a exsudar boa consciência por todos os poros, convencida de estar do lado certo da História.</p>



<p>*****Ao terminar assim, o Olho de Gato deixa o que há-de vir entregue ao real. Que, felizmente, tem muita imaginação.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/olho-de-gato-1111-o-fim/">Olho de Gato #1111 — o fim</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Cooperativas de habitação em Viseu &#8211; Porque não!?</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/cooperativas-de-habitacao-em-viseu-porque-nao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2026 16:30:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A questão da Habitação, em Portugal, é um problema antigo e para o qual não temos sabido encontrar soluções. Os resultados estão à vista com uma crise que é especialmente significativa pelos impactos que tem sob diferentes formas: o baixo nível de conforto das habitações e a baixa eficiência energética; as rendas que aumentam mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A questão da Habitação, em Portugal, é um problema antigo e para o qual não temos sabido encontrar soluções. Os resultados estão à vista com uma crise que é especialmente significativa pelos impactos que tem sob diferentes formas: o baixo nível de conforto das habitações e a baixa eficiência energética; as rendas que aumentam mais depressa do que os salários; o fraco investimento em habitação, nas últimas décadas, e que, de algum modo está relacionado com aumentos dos custos e baixa produtividade no setor da construção civil; a sobrelotação em muitas residências, particularmente nas grandes áreas metropolitanas; parque habitacional vasto, mas com utilização ineficiente (casas fechadas por várias razões); a saída cada vez mais tardia das casas dos pais por parte dos jovens; parque habitacional de rendas sociais muito débil; o peso significativo das despesas de habitação no orçamento das famílias, etc., etc.</p>



<p>Pela importância do tema, pelo alcance dos seus efeitos importa que a informação em que nos baseamos tenha fontes credíveis. Assim, vale a pena a consulta do Relatório OCDE (OECD Economics Survey: Portugal 2026) publicado no inicio deste ano e que dedica o quarto capítulo às matérias da “Habitação” (“Tackling Portugal’s housing affordability challenge: promoting sustainable and inclusive housing”). A descrição das principais conclusões associada à apresentação de gráficos ilustrativos permite-nos ter um retrato exaustivo do que se tem passado em Portugal.</p>



<p>Teremos de simplificar e resumir correndo o risco de cometermos algumas falhas. Para além da fraca qualidade das habitações (somos o país que apresenta o segundo pior resultado, a seguir à Turquia, nesta variável) ou da já nossa conhecida incapacidade para mantermos as habitações aquecidas no tempo frio (o segundo pior resultado, a seguir a Espanha), é notório o crescimento da relação preço das habitações/rendimentos que sentimos no dia-a-dia. Em Portugal, o preço das casas comparativamente ao rendimento diminuiu, entre 2000 e 2013, e, a partir deste ano, a situação alterou-se e começou a aumentar de forma significativa e muito acima do que se passou no conjunto dos países da OCDE e dos Países do Euro: em Portugal essa relação passa do índice 100, em 2015 (ano-base que serviu de termo de comparação), para 150, em 2024, enquanto no conjunto da OCDE o aumento verificado foi de 100 para 115 e na Zona Euro, de 100 para 105 (valores aproximados). Pagar a casa com os rendimentos de que dispomos é tarefa muito mais difícil – cada vez mais difícil &#8211; para os portugueses!</p>



<p>Por outro lado, o investimento em habitação, que tinha sido de 7% a 8% do PIB (valores aproximados), entre 1995 e 2000, superior aos cerca de 6% do PIB na Zona Euro, baixou significativamente até atingir os 2,5% do PIB, em 2013. Na Zona Euro, embora tenha ocorrido uma diminuição, não tão significativa nem tão persistente, o valor do investimento em habitação encontra-se, agora, nos 6% do PIB, enquanto em Portugal se situa nos 4%.</p>



<p>Se o mais baixo investimento em habitação no nosso País – não sendo a explicação completa &#8211; nos ajuda a perceber a falta de habitação existente atualmente, talvez nos devamos admirar que Portugal ocupe o terceiro lugar, a seguir a Itália e França, entre as 3 dezenas de países da OCDE analisados, no que respeita ao número de habitações existentes por 1000 habitantes! Uma explicação, entre outras (habitações sem condições mínimas de habitabilidade, p.ex.), estará no facto de cerca de 30% das habitações existentes não serem usadas como residência habitual – neste aspeto somos os primeiros da lista! E esta situação estará a contribuir também para estarmos a assistir à subida significativa da taxa de sobrelotação de habitações, bem como à subida da percentagem de adultos entre os 29 e 35 anos a viverem em casa dos pais, variável que nos coloca em quarto lugar a seguir à Eslováquia, Grécia e Polónia.</p>



<p>Outro aspeto negativo tem a ver com a percentagem muito baixa de habitação social para arrendamento. Em Portugal essa percentagem de habitação social anda à volta de 1% do total das habitações para arrendamento (próximo dos valores em Espanha), enquanto a média da OCDE é de 7%, aproximadamente, e nos Países Baixos é de quase 35% (mais acompanhados por Áustria, Dinamarca, R Unido, França)! Isto não pode deixar de nos questionar sobre os modos como, enquanto sociedade, podemos e devemos olhar para a habitação e para a sua função prioritária de satisfação de uma necessidade básica do ser humano.Este “outro olhar” que se verifica nos Países Baixos, fortemente favorável à habitação social, acaba por nos ajudar a compreender a recente aprovação no Parlamento neerlandês (Tweede Kamer), por um leque alargado de forças políticas, da direita à esquerda – com exceção de liberais e extrema- direita -, da Lei de Promoção das Cooperativas de Habitação.</p>



<p>Com esta aprovação foi dado um passo (falta ainda a aprovação por parte do Eerste Kamer &#8211; Senado) no sentido de as cooperativas de habitação serem reconhecidas como um terceiro setor habitacional de pleno direito e o Governo é instado a apoiar ativamente o desenvolvimento das cooperativas de habitação. Com esta lei, o governo, no quadro da sua função de planeamento, deve trabalhar em conjunto com organizações especializadas para apoiar os municípios através de modelos de políticas públicas; apoio jurídico; acompanhamento técnico de projetos; divulgação de boas práticas e de exemplos bem-sucedidos. O Estado disponibiliza ainda um Fundo para a Habitação Cooperativa destinado a facilitar o financiamento.</p>



<p>Os municípios que pretendam promover cooperativas de habitação devem integrar esse objetivo nos seus programas de política habitacional (quantas cooperativas pretendem apoiar, de que forma vão disponibilizar terrenos para construção, que tipo de acompanhamento vão oferecer às cooperativas).</p>



<p>O município que talvez já tenha chegado mais longe no desenvolvimento do movimento cooperativo para a habitação é Amesterdão. Já em março do corrente ano, os principais partidos (com exceção, mais uma vez, dos liberais e da extrema-direita) assinaram um Pacto das Cooperativas de Habitação com o objetivo de atingirem o ritmo de contrução de 1000 habitações cooperativas por ano até ao final de 2035.</p>



<p>O modelo que cada grupo de cidadãos cooperantes segue não é necessariamente igual. De qualquer modo, trata-se sempre de uma iniciativa de cidadãos que desenvolve um projeto próprio (visão social, modelo financeiro, projeto do edificio, regras de sustentabilidade) e candidata-se a terrenos que são disponibilizados pela autarquia para <em>cooperatief wonen</em> (habitação cooperativa). O projeto tem de dar provas de viabilidade, devendo, para o efeito, apresentar estudos de arquitetura, plano financeiro, garantias bancárias, capital próprio dos membros. Além disso, cada projeto pode conter diferentes tipologias de apartamentos, incluindo habitação social, pode dirigir-se a cooperantes de diversos estratos sociais ou diferentes grupos etários, etc. O financiamento é sempre assegurado por diversas fontes, nomeadamente pelos bancos, incluindo os principais bancos neerlandeses – Rabobank, Triodos Bank, etc. – e mesmo bancos alemães como o GLS Bank. O município, para além dos terrenos e outros benefícios, apoia com serviços técnicos e jurídicos e pode integrar o projeto nos programas locais de habitação.</p>



<p>Neste momento existem plataformas colaborativas para divulgação dos projetos em curso e apoio aos grupos de cidadãos (malgrado as dificuldades de tradução, vale a pena espreitar algumas delas: https://www.pwa.coop; https://www.cooplink.nl; https://www.platform31.nl).</p>



<p>Estas cooperativas não vêm resolver o problema de habitação, nos Países Baixos nem, certamente, em Portugal. Representam uma terceira via, para além do investimento do Estado em habitação social ou das empresas para o mercado privado. Mas esta terceira via vem reforçar o papel social que uma política de habitação promove e que vai muito mais além do que o simples fornecimento de uma casa para morar. Em Portugal, e noutros países europeus, também já existem iniciativas colaborativas de habitação, como pode ser visto numa reportagem do jornal Expresso.</p>



<p>Naturalmente que nos poderemos interrogar se na nossa região fará sentido impulsionar a criação de cooperativas de habitação. A resposta óbvia é “Sim!” pela simples razão de que a cooperativa apenas depende da vontade das pessoas, dos cooperantes, e dos meios de que dispõe ou consiga reunir. Além disso, esta resposta de “Sim!” reforça-se porque ela pode significar um contributo maior de cada pessoa envolvida nos assuntos que são de toda a comunidade – alcançaremos, por isso, maiores níveis de conhecimento dos assuntos da comunidade e de participação cívica. A resposta de “Sim!” auto-justifica-se porque ela significa o exercício da liberdade dos indivíduos na comunidade sem substituir as demais vias (pelo Estado ou pelos privados) para a resolução de problemas que podem estar associados à habitação (ou à falta dela ou de condições dignas): saúde, educação, emprego, etc. No campo dos princípios não parece que haja muitas dúvidas.Mas, há necessidade de casas para habitação em Viseu e na região? Os preços, de venda e de arrendamento, estão num nível particularmente elevado? Em 2023, segundo dados do “Programa Nacional de Habitação – Territórios com Falta ou Desadequação da Oferta Habitacional em Portugal” (setembro, 2024), o valor mediano da venda de casas (€/m2), em Portugal, foi de 1611€/m2, em Viseu Dão Lafões (VDL) esse valor atingiu os 753€/m2, longe do valor na Grande Lisboa, 2740 €/m2, ou mesmo da média nacional. No concelho de Viseu, a situação é significativamente diferente, mas sem atingir a média nacional: preço de venda foi de 1150€/m2.</p>



<p>Refira-se que em todos os restantes municipios de “VDL” o valor de venda não atingiu a média regional de 753€/m2. Já quanto aos contratos de arrendamento verificou-se uma dinâmica assinalável no concelho de Viseu a figurar no conjunto dos municipios portugueses que mais contratos de arrendamento fizeram em 2023. Apesar desta grande procura, o valor da renda não foi além dos 4,89€/m2, significativamente abaixo da média nacional de 7,21€/m2 (no 1º trimestre de 2025 este valor já tinha subido para 8,22 €/m2), mas superior à média em VDL de 4,17€/m2 (no 1º trimestre de 2025 este valor já tinha subido para 5,43€/m2). Para além de Viseu apenas S. Pedro do Sul (4,28€/m2) ultrapassou a média da região.</p>



<p>Sem prejuízo de uma apreciação mais alargada da situação do mercado de habitação, parece podermos assinalar o maior dinamismo do concelho de Viseu, que se distingue dos concelhos envolventes, o que é consentâneo com a realidade nacional: maior dinamismo do mercado de habitação nas zonas em que a procura e os preços (de venda e de aluguer) são mais elevados (Litoral e, em particular, Lisboa, Setúbal, Porto, Algrave). Movimentos demográficos e procura de habitação tendem a andar a par e a influenciarem-se reciprocamente.</p>



<p>Não sendo <strong>a</strong> solução para o problema, as cooperativas de habitação podem dar o seu contributo com a vantagem de constituirem uma solução de mais baixo custo para os consumidores e, acima de tudo, por poderem representar um fator de atração e de dinamismo da sociedade civil de Viseu e poderem, ainda – porque não!? -, apoiar com projetos próprios a regeneração do edificado no centro histórico da cidade.</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Imigração: O Estado está desajustado</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/imigracao-o-estado-esta-desajustado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2026 16:22:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante décadas, Portugal preparou-se para perder população. Encerraram-se escolas, reorganizaram-se serviços públicos e planeou-se um país mais pequeno, mais envelhecido e com menos procura. Em poucos anos, aconteceu exatamente o contrário, Portugal ganhou mais de 800 mil habitantes e atingiu um máximo histórico de cerca de 11,4 milhões de residentes. O país mudou, o Estado, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Durante décadas, Portugal preparou-se para perder população. Encerraram-se escolas, reorganizaram-se serviços públicos e planeou-se um país mais pequeno, mais envelhecido e com menos procura. Em poucos anos, aconteceu exatamente o contrário, Portugal ganhou mais de 800 mil habitantes e atingiu um máximo histórico de cerca de 11,4 milhões de residentes. O país mudou, o Estado, não acompanhou. É talvez por isso que insistimos em discutir a questão errada. O principal problema da imigração em Portugal poderá não ser a imigração, mas o desajustamento de um Estado concebido para um país que deixou de existir. A transformação demográfica foi rápida e profunda. Segundo o INE e a PORDATA, cerca de 14% dos residentes são cidadãos estrangeiros. A imigração tornou-se o principal motor do crescimento populacional, compensando décadas de baixa natalidade e de emigração. Trouxe trabalhadores para uma economia carente de mão de obra, reforçou as contribuições para a Segurança Social e ajudou a atenuar o envelhecimento demográfico. Mais de um terço dos nascimentos ocorre hoje em famílias estrangeiras, um dado particularmente expressivo num dos países mais envelhecidos da Europa. Perante esta realidade, seria intelectualmente desonesto ignorar o contributo da imigração. Mas seria igualmente irresponsável ignorar o que ela revelou, a incapacidade do Estado para acompanhar a mudança.</p>



<p>A educação demonstra que a adaptação é possível. Apesar das dificuldades, as escolas integraram milhares de novos alunos, responderam a uma crescente diversidade cultural e, em alguns territórios, inverteram o encerramento de estabelecimentos que pareciam condenados. Quando existem recursos, liderança e planeamento, as instituições conseguem responder. Infelizmente, essa não foi a regra. Na habitação, o crescimento da população agravou um défice estrutural que o país já conhecia. A oferta continua insuficiente, os preços afastam cada vez mais famílias do mercado e a resposta pública permanece demasiado lenta. A imigração não criou a crise da habitação; apenas tornou impossível continuar a ignorá-la. A situação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo é ainda mais reveladora. Centenas de milhares de processos acumulados, sucessivas ações judiciais e atrasos sistemáticos não traduzem um excesso de imigração, mas uma insuficiência administrativa. O problema nunca foi o aumento da procura; foi a ausência de capacidade para lhe responder. O mesmo sucede no Serviço Nacional de Saúde. A escassez de médicos de família, as listas de espera e a pressão crescente sobre os cuidados primários não nasceram com o crescimento da população, limitaram-se a tornar-se mais visíveis. O crescimento demográfico limitou-se a retirar o véu sobre fragilidades que o país vinha adiando enfrentar. A conclusão é difícil de evitar: os serviços públicos portugueses continuam organizados segundo pressupostos demográficos que pertencem ao passado. Durante anos prepararam-se para gerir o declínio populacional. Hoje enfrentam um crescimento que nunca planearam. Não é razoável esperar que um Estado desenhado para dez milhões de habitantes responda, sem alterações profundas, a um país com quase onze milhões e meio e necessidades muito diferentes.</p>



<p>Há ainda uma confusão que importa desfazer: temos confundido regularização com integração. Regularizar significa atribuir um estatuto jurídico. Integrar significa garantir condições efetivas de participação na sociedade. Uma autorização de residência não cria uma casa. Uma alteração à lei da nacionalidade não reduz uma lista de espera no centro de saúde. Um novo procedimento administrativo não abre vagas numa creche nem reforça os tribunais. A integração mede-se pela capacidade de as instituições garantirem acesso à habitação, à saúde, à educação, ao emprego, à justiça e à segurança. Tudo o resto são instrumentos; não são resultados.</p>



<p>É precisamente aqui que o debate político se torna mais pobre. Discutem-se quotas, nacionalidade, vistos, regularizações ou retornos como se qualquer dessas medidas resolvesse, por si só, os problemas que verdadeiramente alimentam o descontentamento social. Não resolvem. Sem investimento na capacidade do Estado, qualquer política migratória acabará por produzir frustração, tanto entre quem chega como entre quem já cá vivia.</p>



<p>Esta realidade pode, e deve, ser discutida, regulada e gerida, não pode é ser ignorada.</p>



<p>A verdadeira escolha política deixou de ser entre ter ou não imigração; passou a ser entre possuir instituições capazes de a integrar ou continuar a administrar um país imaginário.</p>



<p>O verdadeiro teste às políticas migratórias não consiste em contar quantos entram nem quantos processos são concluídos, mede-se pela capacidade de assegurar que todos os que vivem em Portugal encontram um Estado que funciona.</p>



<p>Quando o Estado falha, falha para todos. Falha para quem chega à procura de uma oportunidade, mas também para quem sempre aqui viveu.</p>



<p>Portugal já mudou. Agora, falta ao Estado ter a coragem de reconhecer que continua, em demasiados aspetos, a governar um país que já não existe.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/imigracao-o-estado-esta-desajustado/">Imigração: O Estado está desajustado</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Água em Viseu: entre promessas, renegociações e garantias que não podem ficar por escrever</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/agua-em-viseu-entre-promessas-renegociacoes-e-garantias-que-nao-podem-ficar-por-escrever/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2026 16:21:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>João Azevedo prometeu anular uma adesão que classificou como desastrosa. O executivo municipal fala agora em renegociar. A coerência e a natureza essencial da água obrigam a exigir compromissos claros, públicos e juridicamente vinculativos. A água não é uma mercadoria qualquer, nem a sua gestão pode ser tratada como um expediente administrativo sujeito às conveniências [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>João Azevedo prometeu anular uma adesão que classificou como desastrosa. O executivo municipal fala agora em renegociar. A coerência e a natureza essencial da água obrigam a exigir compromissos claros, públicos e juridicamente vinculativos.</strong></em></p>



<p>A água não é uma mercadoria qualquer, nem a sua gestão pode ser tratada como um expediente administrativo sujeito às conveniências do momento. É um bem essencial à vida, um recurso estratégico e um serviço público cuja organização compromete o futuro das populações durante décadas. Por isso, as decisões tomadas sobre o abastecimento de Viseu devem ser avaliadas à luz da coerência, da transparência e das garantias concretas que oferecem aos munícipes.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Da anulação prometida à renegociação anunciada</h1>



<p>Enquanto candidato à presidência da Câmara Municipal de Viseu, João Azevedo assumiu uma posição inequívoca: a adesão ao sistema gerido pela empresa Águas do Douro e Paiva seria anulada. Classificou o processo como «um desastre absoluto» para Viseu e para a região, criticou a perda de autonomia municipal e afirmou que a gestão da água não deveria ser entregue a uma entidade exterior ao território.</p>



<p>A posição não foi apresentada como uma reserva pontual ou como simples intenção de melhorar o acordo. Foi uma promessa política categórica, reiterada após as eleições, acompanhada pela defesa de uma solução assente nas Águas de Viseu, na gestão regional do sistema e na construção da nova Barragem de Fagilde.</p>



<p>Agora, já no exercício da presidência da Câmara, o discurso mudou. O executivo anuncia que pretende «rever, reavaliar e renegociar» o processo, abrangendo prazos, investimentos e garantias relativas às tarifas. A passagem da anulação para a renegociação é politicamente relevante e não pode ser reduzida a uma alteração de vocabulário.</p>



<h1 class="wp-block-heading">As três questões que fundamentaram a recusa</h1>



<p>Na campanha eleitoral, o actual Presidente do Executivo municipal formulou três questões concretas para justificar a oposição à adesão. Em primeiro lugar, perguntou a que preço seria vendida aos viseenses a água transportada pela conduta proveniente de Crestuma-Lever e quem suportaria o custo dessa infraestrutura. Em segundo lugar, questionou qual seria a origem prioritária da água a consumir: a Barragem de Fagilde ou a água trazida pela nova ligação. Em terceiro lugar, exigiu que fosse explicado por que razão a ampliação ou reconstrução de Fagilde não resolveria o problema do abastecimento regional.</p>



<p>O próprio então candidato sintetizou as suas objeções em três matérias centrais: independência, tarifa e gestão. São dúvidas legítimas. O problema é que não desapareceram apenas porque a palavra «anulação» foi substituída pela palavra «renegociação». Pelo contrário, uma eventual mudança de posição torna ainda mais necessário responder-lhes de forma completa, documentada e verificável.</p>



<p>Não basta anunciar que o não aumento da tarifa é «obrigatório». É indispensável saber durante quanto tempo, em que termos, com que fórmula de atualização e com que consequências em caso de incumprimento. Também não basta referir investimentos sem identificar calendário, financiamento, responsabilidades, prioridades e mecanismos de fiscalização.</p>



<h1 class="wp-block-heading">A coerência da CDU</h1>



<p>Neste processo, importa destacar a coerência da CDU Viseu. Antes das eleições, durante a campanha e depois delas, a CDU manteve a mesma posição: defesa da água pública, garantia da propriedade e gestão públicas dos recursos hídricos, reversão do processo de transferência da gestão da água em alta para a Águas do Douro e Paiva, reconstrução de Fagilde e investimento na eficiência das redes.</p>



<p>A CDU rejeitou a entrega da gestão da água em alta à empresa Águas do Douro e Paiva por três razões claras.</p>



<p>A primeira razão prende-se com a existência de condições para manter uma gestão pública, municipal e regional do abastecimento de água. A CDU defendeu que Viseu e os municípios abrangidos pelo sistema de Fagilde dispõem de capacidade, conhecimento técnico e recursos para assegurar essa gestão, desde que sejam realizados os investimentos necessários na nova Barragem de Fagilde, na redução das perdas das redes e na criação de fontes complementares que garantam a indispensável redundância do abastecimento.</p>



<p>A segunda razão relaciona-se com a perda de capacidade municipal para regular os preços e as tarifas. A transferência da gestão da água em alta para uma entidade exterior reduz a autonomia dos municípios e pode deixar as populações dependentes de decisões tomadas fora da região. Para a CDU, não existe garantia de que a adesão permita manter, a médio e longo prazo, preços mais baixos, podendo os consumidores acabar por pagar água mais cara e suportar os custos das infraestruturas, dos investimentos e do funcionamento de um sistema sobre o qual o município terá uma capacidade de intervenção limitada.</p>



<p>A terceira razão decorre do risco de esta concentração da gestão constituir mais um passo no caminho da privatização de um recurso essencial. A experiência demonstra que a centralização de serviços públicos, o afastamento da gestão municipal e a adoção de critérios empresariais podem criar condições para futuras concessões, externalizações ou formas de participação privada. Para a CDU, a água deve permanecer integralmente na propriedade e na gestão públicas, sujeita ao controlo democrático das populações e orientada para a satisfação das necessidades coletivas, e não para a obtenção de lucro.</p>



<p>Estas três razões — a existência de condições para uma gestão pública regional, a perda de autonomia municipal sobre preços e tarifas e o risco de abertura do caminho à privatização — mantêm toda a sua atualidade. Não foram afastadas pela mudança do executivo municipal, nem podem ser ultrapassadas por uma renegociação cujos termos permanecem desconhecidos.</p>



<p>A coerência política mede-se sobretudo quando uma posição resiste à mudança de circunstâncias e não é adaptada ao lugar ocupado em cada momento. A CDU não apresentou a água como um tema de ocasião, nem reduziu a discussão ao preço imediato da tarifa. Colocou no centro a natureza pública do serviço, a proximidade da gestão, a capacidade de decisão dos municípios, a defesa dos trabalhadores e o controlo democrático de um recurso estratégico.</p>



<p>Governar pode obrigar a ponderar novos elementos e ninguém deve confundir coerência com imobilismo. Mas uma promessa tão explícita como a anulação de uma adesão considerada desastrosa não pode transformar-se numa aceitação condicionada sem uma explicação pública robusta. Não basta um exercício de equilíbrio verbal entre «anular», «reavaliar» e «renegociar». É necessário esclarecer o que mudou, por que mudou e quais as contrapartidas efetivamente obtidas.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Que garantias devem ser exigidas?</h1>



<p>Uma renegociação séria só poderá ser avaliada quando forem conhecidos todos os documentos e quando as garantias deixarem de ser declarações políticas para passarem a constar de instrumentos contratuais vinculativos. O enquadramento legal prevê uma concessão prolongada e períodos tarifários sucessivos, sujeitos à revisão de pressupostos técnicos e económico-financeiros. Isto significa que uma promessa genérica de estabilidade tarifária, sem prazo, fórmula e proteção contra custos indiretos, é manifestamente insuficiente.</p>



<p>Deve ficar garantido, em primeiro lugar, que não haverá aumento direto ou indireto do preço suportado pelas populações, nem transferência futura dos custos dos investimentos para a tarifa em alta ou para a fatura cobrada pelos SMAS. Essa garantia deve abranger todo o período relevante do contrato, prever critérios objetivos de atualização, fiscalização independente e mecanismos de compensação ou reversão em caso de incumprimento.</p>



<p>Em segundo lugar, a nova Barragem de Fagilde deve ter financiamento assegurado, calendário público, entidade responsável, prazos vinculativos e consequências para eventuais atrasos. Deve ser esclarecido se Fagilde continuará a ser a origem prioritária do abastecimento regional e se a ligação a Crestuma-Lever funcionará como verdadeira redundância e reserva de segurança, em vez de se transformar progressivamente na principal origem de água e num instrumento de dependência externa.</p>



<p>Em terceiro lugar, devem ser preservadas a autonomia municipal e a capacidade de intervenção pública. É necessário conhecer quem decide os investimentos, as quantidades fornecidas, a prioridade das origens, as tarifas futuras e a gestão dos ativos. O município deve dispor de acesso integral à informação, capacidade real de fiscalização e instrumentos de oposição a decisões lesivas para os viseenses.</p>



<p>Deve ainda ser garantido, sem ambiguidades, o futuro dos SMAS, das suas competências técnicas e dos seus trabalhadores. A transferência da gestão em alta não pode servir para fragilizar serviços municipais, reduzir postos de trabalho, eliminar conhecimento acumulado ou abrir caminho a posteriores externalizações. Os vínculos, direitos, carreiras e condições de trabalho devem ficar expressamente salvaguardados.</p>



<p>Por fim, todos os estudos de viabilidade, minutas contratuais, pareceres, planos de investimento, projeções tarifárias e compromissos relativos a Fagilde devem ser tornados públicos antes de qualquer decisão definitiva. Uma matéria com efeitos por várias décadas exige debate transparente na Câmara, na Assembleia Municipal e com os restantes municípios e populações envolvidos. A água não pode ser negociada à porta fechada.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Um bem essencial não admite ambiguidades</h1>



<p>Há ainda uma contradição que merece esclarecimento. O atual executivo, que antes rejeitava a adesão e recebeu o processo já suspenso por uma providência cautelar, anunciou entretanto que a Câmara de Viseu apresentou contestação à iniciativa judicial do Município de Mangualde. A defesa dos interesses de Viseu pode justificar opções processuais distintas, mas esta evolução reforça a necessidade de explicar, com clareza, qual é hoje a posição efetiva do município.</p>



<p>Não se trata de impedir uma negociação nem de recusar soluções que reforcem a segurança hídrica. Trata-se de garantir que a redundância do abastecimento não é usada como argumento para diminuir o controlo público, subordinar Fagilde a interesses exteriores ou impor encargos futuros às populações. Segurança hídrica, gestão pública, preços acessíveis e autonomia regional não são objetivos incompatíveis; devem ser condições inseparáveis de qualquer solução.</p>



<p>Aguardemos com atenção. Mas essa atenção deve ser exigente e acompanhada de escrutínio público. O interesse das populações não pode ser posto em causa quando se trata de um bem essencial à vida.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/agua-em-viseu-entre-promessas-renegociacoes-e-garantias-que-nao-podem-ficar-por-escrever/">Água em Viseu: entre promessas, renegociações e garantias que não podem ficar por escrever</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>A deserção dos homens</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/a-desercao-dos-homens/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 19:53:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos seus mais de vinte e quatro anos de vida, o Olho de Gato nunca teve falta de assunto, pelo contrário sempre teve muitos em “lista de espera”. Dois deles — o facto de São Teotónio se recusar a confessar mulheres sozinho e muitos chefões de Wall Street, depois do&#160;#MeToo, só reunirem com mulheres com [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos seus mais de vinte e quatro anos de vida, o Olho de Gato nunca teve falta de assunto, pelo contrário sempre teve muitos em “lista de espera”. Dois deles — o facto de São Teotónio se recusar a confessar mulheres sozinho e muitos chefões de Wall Street, depois do&nbsp;<em>#MeToo</em>, só reunirem com mulheres com a porta aberta — &nbsp;aguardaram anos pela oportunidade certa. Vai ser hoje, depois de ter tropeçado num texto de Rachel Drucker, no New York Times, com o título&nbsp;<em><strong>Homens, para onde foram? Por favor, voltem</strong></em>, em que a autora se queixa de os homens estarem a trocar o namoro presencial pelo virtual.&nbsp;<br>São Teotónio recusava confessar mulheres a sós — prudência de santo que já desconfiava que a intimidade, mesmo sacramental, precisa de testemunhas. Séculos depois, os banqueiros de Wall Street, pós-<em>#MeToo</em>, redescobriram a mesma sabedoria empírica. Do confessionário ao&nbsp;<em>open space</em>, a receita repete-se: porta aberta, colega por perto, ninguém encurralado com ninguém.<br>Chega agora o New York Times com as últimas novidades: os homens deixaram a porta aberta e fugiram pelo corredor fora. Rachel Drucker encontra, em Chicago, mulheres a jantar sozinhas ou em bando e nenhum homem à vista — não por pudor devoto, nem por medo de processo, mas por&nbsp;<em>overdose&nbsp;</em>de<em>&nbsp;scroll</em>.<br>Reparem na escalada: Teotónio evitava ficar a sós com uma mulher por temor a Deus; o banqueiro de 2018, por temor ao departamento de recursos humanos; o&nbsp;<em>homo contemporanus</em>&nbsp;nem precisa de motivo — está a sós com o telemóvel e isso basta-lhe. Já nem há tentação a resistir: a alternativa está sempre a um deslizar de dedo. A mesma fuga da intimidade, com menos justificação moral e mais Wi-Fi. Do confessionário à app de encontros, a porta continua aberta — só que agora já ninguém aparece para a atravessar.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/a-desercao-dos-homens/">A deserção dos homens</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>O Mundial que nos deixou perguntas</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/o-mundial-que-nos-deixou-perguntas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 13:13:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Portugal terminou a sua participação no Mundial de 2026 muito abaixo das expetativas. É uma desilusão. Não apenas pelo resultado, mas sobretudo pela forma como a equipa nunca conseguiu transmitir a sensação de estar preparada para competir ao mais alto nível. No espaço público, a reação foi a habitual. Multiplicaram-se análises, críticas, culpados e soluções [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Portugal terminou a sua participação no Mundial de 2026 muito abaixo das expetativas. É uma desilusão. Não apenas pelo resultado, mas sobretudo pela forma como a equipa nunca conseguiu transmitir a sensação de estar preparada para competir ao mais alto nível.</p>



<p>No espaço público, a reação foi a habitual. Multiplicaram-se análises, críticas, culpados e soluções fáceis. Uns responsabilizaram o treinador. Outros os jogadores. Outros ainda recuperaram a eterna discussão clubística que, em Portugal, parece contaminar qualquer conversa sobre a Seleção Nacional.</p>



<p>Talvez seja precisamente aí que comece um dos nossos problemas. Continuamos a discutir futebol a partir das camisolas dos clubes e não daquilo que verdadeiramente acontece dentro das quatro linhas. Falta-nos cultura desportiva para separar a paixão da análise.</p>



<p>Pessoalmente, nunca escondi que nunca fui um entusiasta do selecionador nacional. Mas reduzir tudo a uma questão de simpatia ou antipatia seria demasiado simplista.</p>



<p>O que me preocupa é outra coisa. Durante toda a competição, Portugal raramente pareceu uma equipa. E esse foi, para mim, o verdadeiro problema.</p>



<p>Portugal não perdeu por falta de talento. Perdeu porque nunca conseguiu transformar talento numa equipa. E isso conduz-nos à pergunta essencial: afinal, o que foi preparado antes do Mundial?</p>



<p>As grandes competições não são o lugar para construir uma equipa. São o momento de colocar em prática uma equipa que já deveria estar construída. Quando os jogadores parecem inseguros, quando as dinâmicas não aparecem e quando o rendimento coletivo fica muito abaixo da qualidade individual existente, é inevitável questionar o processo.</p>



<p>Portugal possui uma geração de enorme talento. Basta olhar para os clubes onde jogam muitos dos seus atletas. No entanto, durante este Mundial, poucos conseguiram aproximar-se do nível que habitualmente demonstram.</p>



<p>Na minha opinião, apenas Diogo Costa terminou a competição claramente valorizado. Nuno Mendes mostrou, em vários momentos, porque é considerado um dos melhores laterais do mundo. João Félix também revelou a sua enorme qualidade. Mas, no geral, ficou a sensação de que quase todos renderam abaixo das suas capacidades.</p>



<p>E isso dificilmente pode ser explicado apenas pelo momento de forma individual.</p>



<p>Também a comunicação merece reflexão.</p>



<p>Vivemos uma época em que, por vezes, se fala mais das emoções do que das decisões. A gratidão, o orgulho ou a entrega fazem parte do desporto e têm o seu lugar. Mas quem lidera uma equipa deve também ser capaz de explicar processos, opções e responsabilidades. A comunicação é, ela própria, uma competência de liderança.</p>



<p>Outro tema que inevitavelmente regressou foi Cristiano Ronaldo.</p>



<p>Cada pessoa terá a sua opinião sobre a sua utilização ou sobre o papel que deve desempenhar nesta fase da carreira. Essa discussão é legítima.</p>



<p>Aquilo que me parece menos discutível é aquilo que representa enquanto atleta de alto rendimento. Independentemente da idade, poucos atletas na história do desporto demonstraram tamanha disciplina, capacidade de trabalho, exigência e compromisso diário. O alto rendimento nunca vive apenas do talento. Vive da consistência, da preparação, da disciplina e da capacidade de se reinventar todos os dias. A gestão do seu tempo de jogo é uma responsabilidade do treinador, não do atleta.</p>



<p>Mas este artigo não pretende discutir nomes. Para isso existe espaço mais do que suficiente no ruído mediático e nas redes sociais. Pretende discutir princípios.</p>



<p>No desporto, ninguém deveria jogar pelo passado, pelo estatuto, pelo clube que representa ou por qualquer outro motivo que não seja o mérito. A meritocracia exige que todos tenham de justificar diariamente o seu lugar.</p>



<p>Infelizmente, essa continua a ser uma dificuldade não apenas do futebol português, mas também de muitas organizações, empresas e instituições. Valorizamos demasiadas vezes o nome e esquecemo-nos de avaliar o desempenho.</p>



<p>No fim, Portugal não perdeu apenas um jogo. Sai deste Mundial com uma oportunidade de reflexão. Porque o talento continua a existir. O potencial também.</p>



<p>A questão é saber se teremos a humildade para rever processos, assumir responsabilidades e voltar a construir uma verdadeira equipa.</p>



<p>No desporto, como na vida, os nomes podem decidir um jogo. Mas só as equipas sustentam um projeto vencedor.</p>



<p>Talvez seja essa a maior pergunta que este Mundial nos deixou: queremos continuar a discutir nomes ou começar, finalmente, a discutir processos?</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/o-mundial-que-nos-deixou-perguntas/">O Mundial que nos deixou perguntas</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Água e cloreto de sódio</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/agua-e-cloreto-de-sodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2026 08:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.jornaldocentro.pt/?p=120982</guid>

					<description><![CDATA[<p>Ladies and gentlemen, “Lágrima de preta”, um poema de António Gedeão: Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em><br>Ladies and gentlem</em><em>e</em><em>n</em>, “Lágrima de preta”, um poema de António Gedeão:</p>



<p><strong><em>Encontrei uma preta</em></strong></p>



<p><strong>que estava a chorar,</strong></p>



<p><em><strong>pedi-lhe uma lágrima</strong></em></p>



<p><em><strong>para a analisar.</strong></em></p>



<p></p>



<p><em><strong>Recolhi a lágrima</strong></em></p>



<p><em><strong>com todo o cuidado</strong></em></p>



<p><em><strong>num tubo de ensaio</strong></em></p>



<p><em><strong>bem esterilizado.</strong></em></p>



<p></p>



<p><em><strong>Olhei-a de um lado,</strong></em></p>



<p><em><strong>do outro e de frente:</strong></em></p>



<p><em><strong>tinha um ar de gota</strong></em></p>



<p><em><strong>muito transparente.</strong></em></p>



<p></p>



<p><em><strong>Mandei vir os ácidos,</strong></em></p>



<p><em><strong>as bases e os sais,</strong></em></p>



<p><em><strong>as drogas usadas</strong></em></p>



<p><em><strong>em casos que tais.</strong></em></p>



<p></p>



<p><em><strong>Ensaiei a frio,</strong></em></p>



<p><em><strong>experimentei ao lume,</strong></em></p>



<p><em><strong>de todas as vezes</strong></em></p>



<p><em><strong>deu-me o que é costume:</strong></em></p>



<p></p>



<p><em><strong>Nem sinais de negro,</strong></em></p>



<p><em><strong>nem vestígios de ódio.</strong></em></p>



<p><em><strong>Água (quase tudo)</strong></em></p>



<p><em><strong>e cloreto de sódio.</strong></em></p>



<p>Gostou? Também gosto. Simples, poderoso. Que este poema é uma chapada na cara dos racistas já se sabe desde 1958, ano da sua publicação. Que também incomoda uma certa esquerda identitária acabou de saber-se, depois de ter saído, no Público, um texto de Nuno Veiga intitulado &#8220;Lágrima de Preta no microscópio: o racismo estrutural no programa escolar&#8221;.&nbsp;</p>



<p>Veiga é mediador cultural e linguístico numa escola pública e o seu argumento, exposto com toda a seriedade, é o seguinte: o poema é paternalista porque quem tem o bisturi é o poeta branco, que usa a mulher negra como cobaia passiva para atingir a sua epifania moral. A mulher não tem agência, não tem voz, não tem história. Quem certifica a humanidade do &#8220;outro&#8221; é sempre o privilegiado que empunha o microscópio.</p>



<p>O argumento tem uma certa consistência interna — se aceitarmos as premissas. E são precisamente essas premissas que vale a pena discutir. A Teoria Crítica da Raça, de que este texto é um manual de aplicação, exige que se leia qualquer autor branco através de uma única lente: a do poder e do privilégio. Nessa grelha, a intenção não conta. A beleza não conta. O efeito anti-racista também não conta. O colunista teve o seu “13 de Maio” e viu Kimberlé Crenshaw em cima de uma azinheira. A partir de então, passou a ver racismo estrutural em tudo o que mexe — até neste poema que, durante décadas, ajudou gerações de alunos portugueses a perceber que a dor não tem cor.</p>



<p>Em 24 de Junho de 2026, neste artigo do Público, Nuno Veiga afirmou que “não defende o cancelamento de António Gedeão” e que “rasgar páginas de manuais é uma higiene moral inútil”. Em 11 de Janeiro de 1968, um despacho da censura do Estado Novo, assinado pelo capitão José Brandão Pereira de Mello, concluía, sobre&nbsp;<em>O Reino da Estupidez</em>, de Jorge de Sena: “não será, evidentemente, de recomendar ou aconselhar a espíritos juvenis em formação, mas não encontro neste livro, objectivamente, coisa que justifique a sua proibição.” A diferença entre o capitão e o mediador cultural é que o primeiro representava a censura do Estado; o segundo representa uma forma mais subtil de policiamento cultural.</p>



<p>Yascha Mounk prevê que vão ser precisos trinta anos para erradicar a infecção woke. Entretanto, o poema continua a dar o mesmo resultado de sempre: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio.<br></p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/agua-e-cloreto-de-sodio/">Água e cloreto de sódio</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Agradecimento: O nosso Serviço Nacional de Saúde</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/agradecimento-o-nosso-servico-nacional-de-saude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2026 14:40:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.jornaldocentro.pt/?p=120946</guid>

					<description><![CDATA[<p>Delfim de Paiva Cardoso, 74 anos, aposentado da Segurança Social e residente em Viseu, venho publicamente agradecer o tratamento de que fui alvo aquando do meu recente internamento no serviço de Cirurgia D do Hospital de Viseu. De facto, e contrariamente ao que proclamam alguns arautos da desgraça que passam a vida a denegrir o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Delfim de Paiva Cardoso, 74 anos, aposentado da Segurança Social e residente em Viseu, venho publicamente agradecer o tratamento de que fui alvo aquando do meu recente internamento no serviço de Cirurgia D do Hospital de Viseu.</p>



<p>De facto, e contrariamente ao que proclamam alguns arautos da desgraça que passam a vida a denegrir o que se passa no nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) eu sou uma testemunha viva da dedicação, carinho e experiência que o conjunto de especialidades médicas a par com a enfermagem, dos sectores auxiliar e limpeza, permitiram que hoje eu possa escrever estas linhas depois de uma terrível situação de saúde.</p>



<p>Sei bem que cada um no seu posto deve dar o seu melhor, mas infelizmente nem sempre é assim e aqui testemunhei o que cada um tem de bom para dar em benefício do outro.</p>



<p>A todos o meu BEM-HAJA.</p>



<p>Não posso, porém, deixar de expressar a minha profunda preocupação com o que se passa na Área Médica do Serviço de Urgência.</p>



<p>Tenho bem consciência da dificuldade em resolver este problema, mas alguma coisa terá de ser feita para que diariamente muitos doentes não corram ali risco de vida, como atualmente acontece.&nbsp;</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/agradecimento-o-nosso-servico-nacional-de-saude/">Agradecimento: O nosso Serviço Nacional de Saúde</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os Estados Sociais (# 2) — La rosa enferma</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/os-estados-sociais-2-la-rosa-enferma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Jun 2026 08:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Na semana passada, depois de ter descrito as condições históricas que permitiram o desenvolvimento do Estado Social Europeu no pós-guerra, deixei uma pergunta em suspenso: porque é que os partidos que mais contribuíram para este milagre institucional &#160;— os vários &#8220;PS&#8221; da Europa fora — são hoje os que parecem ter mais dificuldade em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>1. Na semana passada, depois de ter descrito as condições históricas que permitiram o desenvolvimento do Estado Social Europeu no pós-guerra, deixei uma pergunta em suspenso: porque é que os partidos que mais contribuíram para este milagre institucional &nbsp;— os vários &#8220;PS&#8221; da Europa fora — são hoje os que parecem ter mais dificuldade em defendê-lo?&nbsp;<br>Um artigo recente do El País, intitulado&nbsp;<em>“La rosa enferma: ¿qué le ha pasado a la socialdemocracia europea?”</em>, dá-nos a fotografia do problema: no início do século, quase 70% dos cidadãos da UE eram governados por primeiros-ministros sociais-democratas; hoje essa fatia reduziu-se a 10%.&nbsp;<br>Basta olharmos para o chamado “eixo franco-alemão” para percebermos o colapso do centro-esquerda: o PS francês ainda mantém força no poder local mas a nível nacional, depois de se ter amancebado com a esquerda radical, perdeu relevância; o outrora poderoso SPD alemão está em quarto nas sondagens com intenções de voto à volta dos 12%.&nbsp;<br>A UE já foi um mar de rosas para a “rosa”. Agora, muitos espinhos. Só há três chefes de governo “socialistas”: o maltês Robert Abela, a dinamarquesa Mette Frederiksen e o espanhol Pedro Sánchez.&nbsp;<br>Enquanto Abela faz um controlo apertado das fronteiras e só aceita trabalhadores de fora da UE qualificados, na Dinamarca, Mette Frederiksen sabe que imigração elevada pressiona salários, habitação e serviços públicos e corrói o consenso redistributivo dos Estados Sociais descritos aqui na semana passada.<br>Pedro Sánchez, mais a sul e escorado no fluxo falante espanhol proveniente da América Latina, fez exactamente o oposto — regularizou meio milhão de imigrantes em situação irregular e escreveu no New York Times que o Ocidente precisa deles, sob pena de optar entre &#8220;sociedades fechadas e empobrecidas&#8221; ou &#8220;abertas e prósperas&#8221;.<br>Temos dois sociais-democratas que, perante a imigração, têm respostas inversas. Não é incoerência pessoal — é o sintoma de uma fractura mais funda, que já aqui tratei a propósito de Yascha Mounk e Michael Lind.<br>Outrora conhecida por &#8220;Mette a Vermelha&#8221;, Frederiksen segue o diagnóstico cultural de Mounk: pouco lhe importam as elites instruídas — os académicos, os funcionários, os jornalistas, os artistas, todos mais ou menos abrigados das vicissitudes do mercado —, quer é recuperar para a esquerda os votos dos operários, dos trabalhadores e dos precários que a esquerda está a perder para as direitas radicais.&nbsp;<br>Sánchez, pelo contrário, afaga as burguesias proprietárias identificadas por Lind, num raciocínio económico que vê na imigração uma resposta ao envelhecimento e à sustentabilidade fiscal.<br>Isto é, a social-democracia já não fala a uma só voz nem sequer sobre o que a define. Já não existe uma resposta social-democrata para os grandes temas; existem respostas dinamarquesas, espanholas, alemãs ou britânicas. Os partidos que criaram o grande compromisso social europeu continuam a defendê-lo, mas já não concordam sobre as condições que o tornam possível.&nbsp;</p>



<p>2.&nbsp;<em>Dinamarca, esta semana</em>: o ministro da imigração Morten Bødskov anuncia legislação para limitar o chamamento islâmico à oração (Adhan/Azaan) amplificado por altifalantes — não quer ver as cidades dinamarquesas transformadas num “subúrbio de Islamabad”.<br><em>Loulé, Festival Med, esta semana</em>: dinamarqueses abanam o corpo ao som da música de Arooj Aftab, filha de pais paquistaneses.<br>Talvez seja esta a contradição do nosso tempo — querer fronteiras mais firmes e, ao mesmo tempo, continuar apaixonado pela circulação das formas de vida.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/os-estados-sociais-2-la-rosa-enferma/">Os Estados Sociais (# 2) — La rosa enferma</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Descomplicar o procedimento administrativo</title>
		<link>https://www.jornaldocentro.pt/descomplicar-o-procedimento-administrativo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jun 2026 10:26:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.jornaldocentro.pt/?p=120762</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós, em algum momento, temos de tratar de assuntos com serviços públicos: Segurança Social, Câmara Municipal, Instituto do Emprego, escola pública, junta de freguesia ou outro organismo. Pedimos uma prestação, uma licença, um apoio, uma inscrição ou a correção de uma situação. O problema é que muitas vezes chegam cartas difíceis de perceber e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Todos nós, em algum momento, temos de tratar de assuntos com serviços públicos: Segurança Social, Câmara Municipal, Instituto do Emprego, escola pública, junta de freguesia ou outro organismo. Pedimos uma prestação, uma licença, um apoio, uma inscrição ou a correção de uma situação.</p>



<p>O problema é que muitas vezes chegam cartas difíceis de perceber e nem sempre se sabe o que fazer. Outras vezes, são dadas indicações erradas: “reclame outra vez”, “insista”, “faça nova reclamação”. A intenção pode ser ajudar, mas nem sempre esse é o caminho certo. Reclamar da mesma decisão pode fazer perder tempo e, pior, prazos importantes.</p>



<p>Apesar de cada serviço ter as suas regras, há uma lógica comum: primeiro há um pedido, muitas vezes um projeto de decisão, depois a decisão final e, só depois, a possibilidade de reclamar ou recorrer.</p>



<p>Tudo começa com um pedido. Quem faz o pedido entrega documentos, preenche um formulário ou apresenta uma candidatura. Nesta fase, é importante guardar cópias dos documentos, recibos de entrega ou comprovativos digitais. O que fica por escrito é mais seguro.</p>



<p>Depois, o serviço analisa o processo. Se faltar algum elemento, pode pedir esclarecimentos. Quando isso acontece, deve responder-se dentro do prazo indicado.</p>



<p>Uma fase importante é o projeto de decisão. O nome parece complicado, mas a ideia é simples: o serviço ainda não decidiu definitivamente. Está apenas a avisar que tenciona decidir de certa forma. Por exemplo, pode preparar-se para recusar um pedido, cortar uma prestação, cancelar uma inscrição ou exigir a devolução de valores.</p>



<p>Nesta fase, ainda vai a tempo de responder. Pode explicar-se melhor a situação, juntar documentos, corrigir erros e mostrar que há informações não consideradas. Por exemplo, a Segurança Social pode calcular mal os rendimentos, a Câmara pode entender que falta um documento, o Instituto do Emprego pode considerar que houve incumprimento quando existe justificação.</p>



<p>Responder ao projeto de decisão não é reclamar. Ainda não há decisão final. O objetivo é evitar que a decisão venha a ser desfavorável ou errada. Por isso, não basta dizer “não concordo”. É preciso explicar porquê.</p>



<p>Depois vem a decisão final. Aqui, o serviço já decidiu. Pode aceitar o pedido, recusá-lo, aceitá-lo em parte, suspender uma prestação ou exigir uma devolução. Quando se recebe uma decisão final, devem ser lidas três coisas: o que foi decidido, a razão apresentada e o prazo para reagir.</p>



<p>Se não houver concordância, pode existir reclamação. Reclamar é pedir ao mesmo serviço que volte a analisar a decisão. Pode ser útil se houve erro ou documentos não foram considerados, mas não deve ser repetição sem fim. Fazer várias reclamações iguais normalmente não resolve. e reclamar apenas por ainda não haver decisão também não faz parar o procedimento.</p>



<p>Também pode existir recurso hierárquico. Em vez de pedir ao mesmo serviço que reveja a decisão, pede-se a uma entidade superior que analise o caso.</p>



<p>A mensagem principal é simples: antes de reclamar, convém perceber em que fase está o processo. Uma carta pode ser um pedido de documentos, um projeto de decisão, uma decisão final ou resposta a reclamação. Cada uma exige uma reação diferente.</p>



<p>E atenção: reclamando ou recorrendo, o prazo para recorrer ao Tribunal, por regra, não para.</p>



<p>Um cidadão informado defende-se melhor. Distinguir estas fases evita erros e perda de prazos.</p><p>The post <a href="https://www.jornaldocentro.pt/descomplicar-o-procedimento-administrativo/">Descomplicar o procedimento administrativo</a> first appeared on <a href="https://www.jornaldocentro.pt">Jornal do Centro</a>.</p>]]></content:encoded>
					
		
		
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