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A sunny riverside beach with people sunbathing under straw umbrellas on a sandy shore, next to a calm green river framed by forested hills.
Park scene with a curved waterway, stone arch bridge on the left, and a large tree centered by grassy banks in sunny weather.
Line of motorcycles parked in front of a historic municipal building, with riders in white shirts standing beside them on a cobblestone plaza.
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OPA: anos a ignorar, meses a remediar

 Lamego está preso entre o peso da tradição e a ausência de Futuro
15.05.26
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Portrait of a mature man with gray hair in a white button-down shirt, against a black background. OPA: anos a ignorar, meses a remediar

por
Leonel Ferreira

A crise da habitação em Viseu não se resolve com anúncios nem medidas de emergência. Há problemas que deixam de poder ser ignorados. A habitação é hoje um deles.

Em Viseu, aquilo que durante anos foi sendo desvalorizado tornou-se um drama concreto. Jovens que não conseguem sair de casa dos pais. Famílias esmagadas por rendas e prestações. Trabalhadores que, mesmo com emprego estável, deixaram de ter acesso a uma casa digna. Esta não é uma realidade distante — é o quotidiano de quem vive e trabalha no concelho.

Os números confirmam o que as pessoas já sentem na pele. Nos últimos anos, o preço da habitação subiu de forma acentuada. Dados do Instituto Nacional de Estatística e da Pordata mostram uma subida contínua do valor mediano das casas desde 2021. No mercado anunciado, segundo a plataforma Idealista, os preços passaram de cerca de 1.050 euros por metro quadrado em 2022 para mais de 1.300 euros em 2025, com aumentos anuais que, em vários momentos, ultrapassaram os 15%. Em algumas zonas da cidade, os valores aproximam-se já dos 1.800 euros por metro quadrado.

No arrendamento, a situação não é melhor. As rendas continuam a subir, com aumentos acumulados que, em muitos casos, ultrapassam os 20% a 30%, num contexto de escassez de oferta. O resultado é simples: os preços disparam, os salários não acompanham e o acesso à habitação torna-se cada vez mais difícil.

Mais do que uma subida de preços, estamos perante um desfasamento profundo entre o custo da habitação e o nível de vida dos trabalhadores. E este é o ponto central do problema. Hoje, em Viseu, trabalhar já não chega para ter casa.

Perante isto, importa dizer com clareza: não podemos esperar que seja o mercado a resolver aquilo que ele próprio criou.

Ainda assim, foi isso que aconteceu durante anos. Os sinais estavam lá — subida dos preços, escassez de casas, dificuldades crescentes no arrendamento — mas faltou uma resposta pública à altura.

Chegados a 2025, tornam-se evidentes as dificuldades na execução da Estratégia Local de Habitação, obrigando o município a recorrer a medidas de recurso como a chamada OPA da habitação. A própria informação divulgada pela autarquia confirma o carácter excepcional desta medida: das 83 habitações inicialmente identificadas na Estratégia Local de Habitação, apenas 17 tinham projecto e financiamento aprovados, reconhecendo-se igualmente que não seria possível concluir a sua reabilitação dentro dos prazos do PRR.

Mais do que uma estratégia estruturada de reforço do parque público habitacional, a OPA surge assim como tentativa de recuperar atrasos acumulados e evitar a perda de financiamento comunitário. E fá-lo através de um modelo praticamente sem paralelo no país, procurando adquirir em massa imóveis já existentes no mercado privado para posterior integração no parque municipal. Assente na aquisição de imóveis ao mercado privado, parte do princípio de que é possível corrigir os efeitos da especulação recorrendo aos mesmos mecanismos que contribuíram para a alimentar. Não só não aumenta estruturalmente a oferta pública, como sujeita o município aos preços de um mercado profundamente desajustado da realidade social e dos rendimentos locais.

Os próprios limites definidos para aquisição por tipologia revelam essas contradições: ou ficam abaixo dos valores praticados e não conseguem atrair oferta suficiente, ou aproximam-se desses valores e acabam por legitimar a escalada dos preços. Em qualquer dos casos, não resolvem o problema de fundo. A reduzida adesão à medida demonstra precisamente os limites desta opção.

Se a OPA evidencia os limites desta abordagem, o projecto de requalificação da zona de Repeses, já apresentado por este executivo municipal, levanta preocupações de fundo ainda mais estruturais. Prevê-se a criação de novas áreas de construção habitacional, num volume significativo, mas permanece uma ausência que não pode ser ignorada: não há uma aposta clara na habitação pública, nem garantias de integração de habitação a custos controlados. Num contexto em que o mercado tem demonstrado incapacidade para responder às necessidades da população, avançar com novos projectos urbanísticos sem assegurar quotas de habitação acessível é perpetuar a mesma lógica que conduziu à situação actual. Fala-se de construção, mas não se define para quem se constrói. E essa é, hoje, a questão essencial.

Mas a dimensão deste problema é também profundamente política.

É verdade que houve uma mudança política na liderança do Município nas últimas eleições autárquicas. Mas isso não apaga o facto de o actual presidente da Câmara ter exercido funções como vereador na oposição durante o mandato anterior, acumulando simultaneamente responsabilidades políticas ao nível nacional. O problema da habitação já era então evidente e exigia intervenção política firme, capacidade de proposta e pressão pública continuada.

O reconhecimento actual do atraso levanta, inevitavelmente, uma questão política: se o problema da habitação era já conhecido e os sinais eram evidentes, porque não foi assumido mais cedo como prioridade? Fica a sensação de que a resposta foi sendo sucessivamente adiada no tempo político, por razões que hoje se tornam difíceis de compreender, surgindo apenas como tema central num momento em que a situação já não podia ser deixada para segundo plano. Esse atraso teve consequências concretas — e são hoje muitas as famílias e trabalhadores do concelho a pagar o preço da falta de antecipação e de uma intervenção política atempada.

Também no plano nacional a resposta tem falhado. A cada nova medida anunciada pelo Governo corresponde, na prática, mais pressão sobre o mercado e novos aumentos de preços. Em vez de travar a especulação, alimenta-se o mesmo modelo que está na origem do problema.

A solução exige outra política — uma política que coloque o direito à habitação acima da lógica da especulação e do lucro.

Isso passa pelo reforço efectivo do papel do Estado e das autarquias, pela construção e reabilitação massiva de habitação pública, pela mobilização de imóveis devolutos para fins habitacionais, pela regulação do mercado de arrendamento, pela fixação de rendas compatíveis com os salários e pelo combate firme à especulação imobiliária. Passa também por garantir que os recursos disponíveis, nomeadamente do PRR, são utilizados para aumentar efectivamente a oferta pública e acessível e não para alimentar novas dinâmicas de valorização imobiliária.

Mais do que medidas avulsas ou respostas de emergência, exige-se uma política de habitação estrutural, capaz de responder às necessidades de quem trabalha e vive no concelho.

Viseu está hoje perante uma escolha. Continuar no caminho das medidas tardias e insuficientes, ou assumir uma política pública de habitação capaz de dar resposta às necessidades da sua população.

Porque, no fim, a questão é simples: uma cidade onde trabalhar não chega para viver é uma cidade que está a falhar.

 Lamego está preso entre o peso da tradição e a ausência de Futuro

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