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O Teatro Viriato, em Viseu, recebe este fim de semana o espetáculo “Caminho do Céu”, da autoria do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, com encenação de Rita Cabaço, que propõe uma reflexão sobre a manipulação da realidade, a responsabilidade individual e a repetição dos comportamentos humanos ao longo da História.
A peça, que marca a estreia de Rita Cabaço na encenação, parte de um episódio do Holocausto, no campo de concentração de Terezín, onde o regime nazi criou uma cidade fictícia para receber uma visita de inspeção da Cruz Vermelha.
Na história, um comandante nazi obriga um prisioneiro judeu, Gottfried, a colaborar na construção dessa encenação, atribuindo-lhe o papel de presidente da Câmara de uma cidade que não existe.
Entre a realidade e a ficção, o espetáculo expõe os mecanismos de manipulação e cumplicidade que permitem construir a mentira e tornar o horror invisível, questionando a capacidade de reconhecer a injustiça e agir perante aquilo que acontece.
“Interessa-me pensar este texto aos olhos de hoje, como ponto de partida para uma reflexão e um debate aberto sobre aquilo que sabemos do passado, mas também do nosso presente”, explica Rita Cabaço, que sublinha que o seu interesse vai além da reconstituição histórica, centrando-se na transversalidade e na repetição dos comportamentos humanos.
A encenadora considera que a personagem do delegado da Cruz Vermelha, confrontada com uma realidade cuidadosamente fabricada, representa também a posição de quem observa e, apesar de conhecer ou suspeitar do que acontece, não consegue agir.
“No fundo, o delegado somos todos nós”, afirma, apontando o medo das consequências e a incapacidade de ver e intervir como algumas das razões que continuam a condicionar a resposta individual perante a injustiça.
A encenação cruza realismo, absurdo e grotesco. A primeira parte apresenta o monólogo do delegado, interpretado por Paulo Pinto, num dispositivo cénico despojado e de contacto direto com o público. Na segunda, a construção da mentira assume uma linguagem mais formal e grotesca, acompanhando a progressiva perda de identidade e autonomia das personagens.
Em Viseu, o espetáculo contará também com a participação de pessoas da comunidade sem experiência profissional em teatro, uma opção que integra o conceito artístico da produção e que se repete nas diferentes cidades por onde passa.
Segundo Rita Cabaço, a presença de intérpretes não profissionais permite introduzir em cena uma dimensão de desconforto e espontaneidade que reforça a ideia de uma farsa mal construída, tornando mais visíveis os mecanismos de manipulação.